Em diversas situações, quer em aulas de literatura, quer em aulas de outras disciplinas, surgiu discussão sobre a cerimônia de casamento. Claro, a literatura não é algo estanque, longe das coisas do mundo; muito pelo contrário, a literatura é o mundo e a leitura dele. Se não permitir discussões, então seu sentido será duvidoso, mesmo que seja uma leve literatura de recreação (haverá isso, se a gente cavouca bem?).
Em diversas situações, perguntei a alunas (principalmente alunas) se elas conheciam o significado de uma cerimônia de casamento, a mais comum das cerimônias: pai leva a noiva de branco ao altar, lá a noiva encontra seu noivo, há juras e troca de alianças e depois o levantar do véu para um beijo. Digamos que isso era diferente na Antiguidade mediterrânea, na Idade Média europeia ou no período da tomada de terras (chamado de “descobertas”). Atualmente, assim seria um casamento típico. Claro, hoje noivas entram com a mãe ou com os pais, noivos entram também, há madrinhas em degradê de azul ou fumaça de gelo seco – não sei o que as noivas andam inventando. Mas o básico de um casamento é a entrega de um homem (o pai) a outro (o noivo que recebe a filha do pai que a levou), depois as juras (nem falarei delas e do que representa a aliança, seja a ligação com o coração ou a roda da vida) e depois há o levantar do véu. A moça pura (o branco significa isso), de véu e grinalda (outro elemento de pureza), passa a ser propriedade de outro homem, que pode beijá-la. Eu já vi discussões sobre o que seria esse levantar do véu, como simbologia para o hímen, mas acho melhor parar por aqui.
Na cena de casamento de Bahyia Chain, em Duas mulheres em uma, o mesmo acontece, e Nawal El-Saadawi descreve exatamente a cena: um homem entrega uma mulher (afinal, ela pertence a ele) a outro (que pagou, por ela, 300 libras egípcias). Preciso voltar ao exemplo do parágrafo anterior e peço que acompanhe meu raciocínio. A cena do casamento é central no livro, pelo seu caráter simbólico como representação da mulher na sociedade egípcia descrita pela autora. Claro que há diferentes tipos de casamento, claro que talvez a simbologia do casamento que descrevi nem seja “captado” pelas pessoas que participam de uma cerimônia, claro que é muito possível que as mulheres no Brasil sejam mais livres (?), mas o casamento da obra de Nawal El-Saadawi é fundamental para o entendimento da obra dela. Falei do casamento em si. A noite de núpcias é algo muito pior. A lua de mel é um tormento e é quando a violência surge para além do símbolo.
Outro ponto que gostaria de trazer, para começar um comentário sobre Nawal El-Saadawi, é: há diferenças brutais entre o Egito e o Brasil. Vulgar dizer isso? Lógico? Desnecessário? Nem tanto. Explico. O Brasil é um país de colonização portuguesa e teve um terrível período de escravização de corpos africanos. Durante séculos foi uma nação predominantemente católica. O Egito é um dos países mais antigos do planeta, mas teve períodos distintíssimos e é muito possível que pouco daquele Egito mágico das aulas de História tenha sobrevivido. Hoje, o Egito (Miṣr) é um país de maioria islâmica e, em termos históricos, um país que teve independência efetiva (os ingleses só saíram definitivamente em 1952) recente. É um país bastante pobre, cujo orçamento deve muito ao Canal de Suez (um problema gravíssimo em época de massacre palestino, com queda abrupta de dividendos), ao turismo e a uma insipiente produção agrícola. Há muitos investimentos chineses e árabes atualmente, ao sul de Assuã, com gigantescas fazendas de tâmaras, por exemplo, e ao norte do Cairo. Então, o Egito atual não é o Khemet do passado e tampouco o reino ptolomaico que os gregos implantaram às margens do Mediterrâneo. Em comum conosco: há um enorme poder advindo da religião islâmica, abraâmica tanto quanto o catolicismo e as inúmeras divisões cristãs hoje existente no Brasil. Então, eu não diria que são água e vinho ou água e óleo, mas a situação da mulher encontra paralelos tristes.
Um dos pensamentos mais xenófobos em relação ao Egito (e a demais países árabes ou de maioria muçulmana) é em relação ao uso do véu, da abaia ou da burca (ou demais designações que as vestes “de mulheres” tenham em diferentes partes do mundo islâmico). Costumo dizer que o uso de roupas, em si, fosse o maior problema das mulheres árabes, a vida delas estaria resolvida. Mesmo antes da Primavera Árabe, antes da subida dos aiatolás no Irã ou do Talibã no Afeganistão, mesmo quando mulheres podiam andar com saias lápis ou mesmo minissaias e usar os cabelos soltos, a sociedade patriarcal nesses lugares sempre foi um entrave para o crescimento e a liberdade das mulheres. Os números da violência são alarmantes, como aqui ou na Índia, ou ainda em países da África Subsaariana.
Em muitas aulas na faculdade, levei dados alarmantes sobre mulheres violentadas e mortas, levei dados terríveis sobre estupros coletivos e sobre “estupros de correção” (praticados com mulheres lésbicas... mas também em travestis). Disse que se referiam a países árabes ou a lugares da Índia em que prepondera a fé no Islã. Alunos e alunas horrorizadas, muitas frases de susto e lamento depois, revelava que os dados em verdade eram do Brasil... e de regiões ditas ricas e com “mais progresso”.
Alunos e alunas horrorizadas, muitas frases de lamento depois, informava que no Egito ou na Índia a situação não era diferente. Há diferenças?, me perguntavam os alunos e alunas. Eu dizia que sim: no Brasil a prática de cortar o clitóris das meninas com uma tampa de lata não era tão difundida. Exagero? Às vezes o exagero faz parte do susto. E logo no início de A queda do imã, por exemplo a autora egípcia traz uma lista de barbaridades que a ela mesma viu, incluso essa prática terrível que ainda ocorre em muitos lugares da África. Médica que lidou com mulheres presas, detenta também, ela viu de tudo, de todas as violências possíveis contra as mulheres.
Friso: há diferenças? Marcantes, imensas, terríveis, mas com todas as diferenças possíveis entre o Brasil e o Egito (e os demais lugares que citei), é incontornável discutir a violência contra a mulher, em todos os níveis sociais, em todas as escalas de acesso à educação formal, no trabalho, nas igrejas, na rua. E, hoje, quase seis décadas após a escrita de Duas mulheres em uma e quase quatro décadas após A queda do imã, seja no Egito ou aqui, as mulheres continuem sofrendo as mesmas violências, físicas, psicológicas, patrimoniais, simbólicas, etc. E não creio que, lá ou aqui, a subida de governos antiprogressistas ajude.
Mas chega de blá blá blá e vamos ao livro.
Bahyia Chain não pertence exatamente à elite egípcia dos anos 1950, mas os esforços de sua família permitem que ela estude numa prestigiada escola de Medicina. Até hoje, no Cairo, há faculdades muito renomadas – e elas são um orgulho do país. Essa década foi um período de grandes mudanças e desafios para o Egito, notadamente com Gamal Abdel Nasser. Pela descrição da autora, pode-se ver não uma mulher a estudar medicina “para atender a outras mulheres” (como eu ouvi em vários países do Oriente Médio) e sim “para ser médica”, simplesmente. As mulheres também são descritas sem véu e usando calças. Mas tais possibilidades são apenas uma casca, e muito fina, para a real situação das mulheres egípcias. Elas dependem dos pais, dos irmãos, dos tios. São perseguidas pelos professores, pelos policiais, pelos religiosos. Há um poder absoluto do homem em relação às mulheres. Esse poder masculino aparece de forma direta (com a violência masculina mais clara e indiscutível) e indireta (com símbolos, palavras, sonhos de perseguição). Também aparece no formato mulher-mulher, pois as mães transmitem às filhas as obrigações sobre o que é “ser mulher no Egito”.
Em particular no A queda do imã, a violência é tão grande – e o sistema de controle do sujeito, aquele descrito por Foucault com base em Bentham –, o trauma é tão grande, o medo é tão grande, que em algumas partes do livro pensamos estar dentro de uma distopia. Mas Duas mulheres em uma é um romance do início da carreira literária de Nawal El-Saadawi e menos arrojado na escrita e menos ousado que os romances posteriores. Não que a violência presente nele seja mais leve.
Ao lado dessa sensação de distopia – ou justamente por causa dela – o leitor se pergunta se o/a narrador/a está num sonho. Em particular em Duas mulheres em uma, o sonho aparece como uma possibilidade, tal é descrição de uma cena para outra, que beira o absurdo. Mas não é sonho. É a realidade nua e crua. Há uma cena em particular em Duas mulheres em uma em que Bahyia Chain encontra um homem na casa dele, ambos sozinhos, numa tarde qualquer. Há algo inquietante nesse episódio: a narrativa muda de uma densa investigação do eu profundo (típico dos melhores momentos da autora) para uma descrição quase infantil ou naïf. Mas explica-se: é o desejo realmente infantilizado de Bahyia Chain que norteia a cena. Para ela, um homem pode ser gentil e amável, pode ser doce e pode representar o amor, mas é esse mesmo homem que a entregará à polícia posteriormente. A cena descreve não uma mulher que pretende se libertar, mas numa menina sonhadora. Logo mais, as imagens de um “pai” vingativo, do sangue (o sangue das vítimas da polícia, o sangue menstrual, o sangue dos mortos na sala do curso de medicina, etc.), dos abusos dos sistema se misturarão num só tecido social.
Já me perguntaram se penso que o homem por quem Bahyia Chain se interessa amorosamente é um infiltrado do governo ou apenas um jovem com medo de ser morto e torturado pela polícia. Minha resposta é: não importa. Na narrativa de Nawal El-Saadawi, o homem representa o mal, o patriarcado, o machismo/masculinismo, e por isso não podem existir homens confiáveis. Bahyia Chain consegue fugir do pai e da família, mas jamais conseguiria fugir da religião, da polícia e do Estado. O rapaz e o pai, o pai e o policial, o policial e o juiz, o juiz e o imã, o imã e o presidente (seja Nasser, Sadat ou Mubarak) são a mesma coisa.
Dos anos 1960 aos 1980, a literatura de Nawal El-Saadawi foi ficando cada vez mais arrojada e também cada vez mais contundente. Estudos fora do país, experiências dentro do país, em cargos públicos, o contato cada vez maior com a situação das mulheres egípcias, um trabalho cada vez mais aprimorado de escrita, levam a autora ao Woman at the point zero, obra que foi lançada em Beirute, em 1973. Muitas obras da autora foram proibidas do Egito e até hoje são difíceis de achar. Não encontrei em nenhum idioma no Cairo. Depois, a autora chega ao arrojo (que lembrará o jogo de vozes de Virginia Woolf ou Faulkner aqui e ali, a nossa Clarice Lispector aqui e acolá) que é A queda do Imã. Faltava no Brasil a presença de Nawal El-Saadawi e que bom que há pelo menos duas obras dela, agora, disponíveis ao público brasileiro.
Ainda sobre literatura egípcia, tão difícil de encontrar, aconselho três autores egípcios críticos ao sistema e por isso perseguidos: afora Nawal El-Saadawi, Naguib Mahfouz e Alaa Al Aswami. De Mafhouz, o livro que levou um doido a tentar matá-lo com uma faca, nos anos 1990, The children of Gebelawi. A obra é bem ousada e um tipo de avô literário de Salman Rushdie. Dele ainda, se quiser algo mais leve, como introdução, aconselho O beco do pilão. Se quiser pisar fundo no acelerador, a Trilogia do Cairo (este mais difícil de achar completo). De Alaa Al Aswami, no Brasil você encontra O edifício Yacubian. Conversei com alguns egípcios sobre esses autores, eles têm orgulho do Nobel, mas não gostam de textos que critiquem seu país. Não julgo.
Nawal El-Saadawi é conhecida em mais de 40 idiomas com a obra Woman at point zero, sendo que a heroína dessa obra (misto de romance e experiências pessoais da autora com detentas e outras mulheres massacradas pelo sistema), Firdaus, é conhecida em todo mundo islâmico como um símbolo de resistência e força da mulher.
PS: o Egito gasta 58 bilhões de dólares para construção de uma nova capital administrativa. Só para comparar, em dinheiro de hoje, Brasília custaria por volta de 16 bilhões. A cidade já é chamada “Ghost City”. Ao lado do Cairo, serão como o dia e a noite, pois o Cairo é uma das cidades mais complicadas do planeta. Trago esse exemplo para servir como cenário para um entendimento melhor dos autores que aqui citei. As contradições egípcias são grandes e presentes no dia a dia. É um país difícil de amar à primeira vista. Depois, fica apaixonante. Então, não acredite muito no Tik Tok.
Os dois livros em português são da Editora Tabla. Duas mulheres em uma tem tradução de Beatriz Negreiros Gegmignani. Já A queda do imã, tem tradução da professora Safa Jubran (de que gosto mais).