Esta é a segunda rodada de cartas públicas trocadas pelos amigos Daniel Medeiros e Renato Mocellin. O link para as duas primeiras está no fim do texto
Meu caro amigo, que bom receber sua resposta. Fiquei envaidecido pela sua lembrança daquele dia tão importante para mim. É que lá se vão 40 anos desde quando iniciamos nossa jornada profissional comum. E que tempos foram aqueles anos oitenta, hein?
O governo Sarney trouxe sentimentos conflitantes em todos nós. De um lado, o cumprimento da promessa de se livrar do “lixo autoritário”, as leis repressoras do regime militar, principalmente com a convocação de uma Constituinte; por outro lado, a inflação e as relações pouco republicanas que o senador maranhense trouxe de seus tempos de liderança na Arena e no PDS.
A inflação, em particular, quem viveu sabe o que foi aquilo. Recebíamos nosso salário e tínhamos que ir correndo ao banco aplicar na poupança para preservar um pouco do valor que já não era muito. Ou ir logo no supermercado comprar a compra do mês antes que subisse tudo. Confesso, velho amigo, que nunca sabia direito o quanto ganhávamos, não por ser muito, mas por mudar o valor nominal todos os meses. E era sempre menos.
Daí houve a greve dos professores das escolas particulares, lembra? Foi muito tenso. Eu, muito jovem, estudante de Direito, professor de Ensino Médio, com casamento marcado, temia que se fossemos muito intransigentes poderíamos perder nossos empregos. E alguns colegas me recriminaram pela minha “posição pequeno burguesa”. No fim, a greve saiu , a empresa fez uma proposta bem abaixo do que reivindicávamos e os mesmos caras que quase me malharam que nem judas em sábado de aleluia, aceitaram os termos e tudo seguiu em frente, como sempre. Em um mês, a inflação já tinha comido todo o aumento!
Em 1988 foi promulgada a Constituição, também aquém do que a comissão de sistematização havia sonhado, mas além do que poderíamos imaginar uma década antes: saúde para todos, educação até o fim do ensino médio, proteção para os indígenas, quilombolas, ministério público robustecido para proteger os interesses dos cidadãos contra os excessos do Estado (e imaginar no que ia dar, né?), enfim, muitas novidades alvissareiras. Nesse mesmo ano eu casei e te convidei para ser meu padrinho, lembra? E na missa do casamento (eu, um judeu meio fora de lugar, mas respeitando a vontade da noiva), que durou meia hora, você cochilou! Tenho foto para comprovar.
Na sua carta você lembrou do nosso episódio com o meu primeiro carro e o seu Passat perolado. Como eu poderia esquecer? Depois de sofrer com o clima curitibano em cima da minha moto 125 cilindradas, agora professor em tempo quase integral, resolvi embarcar na aventura de me tornar proprietário de um automóvel. O dinheiro deu para comprar um Fiat 147, 1978 (isto é, com quase dez anos de uso), de cor indefinida (o mais provável é que era violeta).
Aprendi a dirigir com meu pai, na pista da aviação da base aérea e sofri com a experiência da embreagem, que na moto é na mão. Mas depois de quatro ou cinco engasgadas, peguei o jeito. Estacionávamos na rua de trás do colégio, que é em um leve declive. Eu, com o meu Fiat violeta, você com seu possante Passat perolado. Um dia, íamos almoçar no Vesúvio (lembre-me na próxima carta de comentar desses muitos anos como frequentadores do Vesúvio) e meu carro não pegou. Você deixou o seu ligado e foi empurrar o meu. Duas tentativas e o motor semi infartado do Fiat conseguiu funcionar, entre tosses e engasgos. Eu já ia partindo quando ouvi seu grito. Parei. Agora era o seu Passat que havia desmaiado. Deixei o meu ligado e fui empurrar o seu carro. Se alguém tivesse filmado, teríamos o filme de uma geração de jovens não herdeiros tentando se firmar na vida. Enfim, os dois automóveis nos deram a graça de seu funcionamento e fomos para o repasto merecido.
Ainda me recordo de outra coisa muito legal desses anos oitenta, companheiro. As eleições. As primeiras eleições diretas para presidente de nossas vidas. Eu era Mário Covas (sempre pequeno burguês, confesso), você, Brizola. E entre nossos amigos distribuíam-se as preferências: Lula, Freire, Caiado, Collor, Maluf, Aureliano. E o mais querido de todos os curitibanos naquela eleição: Guilherme Afif Domingos. “Juntos chegaremos lá”, dizia ele na sua propaganda. Lembra que organizamos um debate sobre a eleição com os alunos? Lotamos o auditório, formamos uma mesa com diversas posições e preferências e discutimos durante uma tarde inteira. Até pouco tempo eu tinha a chamada desse encontro, seu rosto jovem e comprido, eu com minha barba arruivada, hirsuta, escondendo minha pouca idade.
Imagina se hoje poderíamos realizar um debate na escola para discutir eleições e posições partidárias? Do que seríamos acusados? Triste isso, não? Depois desse tempo todo, um exemplo como esse mostra o quanto não avançamos com a nossa sofrida Democracia. Pelo contrário.
Bom, vou juntando uma lembrança na outra e acabo me estendendo demais. Ficarei por aqui. Um abraço, velho amigo. Espero ler suas lembranças desses tempos incertos mas divertidos que passamos trabalhando juntos na sua próxima missiva.
Abraços,
Daniel Medeiros

