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Meu caro amigo Daniel Medeiros (carta 5)

Confesso que estou preocupado com o futuro, não meu, pois já estou no outono da minha existência, mas em relação às nossas crianças

Meu caro amigo Daniel Medeiros (carta 5)
Lula: faltou politizar a sociedade. Foto: Antônio Cruz/EBC
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Meu caro amigo!

Li a sua última carta em que você discorreu sobre as mudanças políticas, sociais e culturais que tivemos em nosso país neste primeiro quartel do século XXI. Juntos produzimos durante 21 anos, o espetáculo “História Viva” sob a direção de Wladimir Ponchirolli. Esta aula foi dada inicialmente no Teatro Guaíra e depois no Teatro Positivo. Usávamos imagens de vídeo, representações teatrais, depoimentos de personagens diversos, músicas, poesia e a colaboração de outros professores. Contamos com a participação de atrizes e atores de nossa cidade, bem como de artistas de expressão nacional.

Tivemos total liberdade para expormos a história do século XX. A direção do Curso Positivo em nenhum momento interferiu em nosso trabalho. Tivemos sim, suporte financeiro e incentivos para produzirmos uma narrativa histórica que fosse útil aos nossos alunos.

Encerramos o ciclo em 2017. Ainda bem, pois escapamos dos anos sombrios que vieram em seguida. Já imaginou você discorrendo sobre a Ditadura Militar, mostrando horrores daqueles anos de chumbo? Provavelmente apareceria um “Tiozão do Zap” ou um neofascista mirim para contestá-lo.

Como eu poderia fazer uma análise dos truculentos golpes de Estado no Chile e na Argentina sem ser chamado de “comunista”? Provavelmente seria questionado sobre a minha visão critica sobre a Guerra do Vietnã ou da Revolução Cubana. Paramos no momento certo, pois infelizmente um ciclo marcado pela intolerância, bizarrice, negacionismo e toda sorte de calhordice infestou o nosso país. Um moralismo de fachada tomou conta da Coré-etuba (não só) que outrora foi a Terra dos Pinheirais.

Apoiei os sucessivos governos do PT. Houve avanços, porém algumas permanências negativas persistiram. No presidencialismo de coalizão que temos no Brasil nenhum partido governa sozinho, aplicando seu plano de governo. Houve corrupção? Sim, porém a maioria dos corruptos não eram do partido de “esquerda”, eram dos partidos de direita que faziam do governo é que hoje se consideram as vestais da moralidade pública.

A hipocrisia não tem limites. Em 2016 no auge da Lava Jato um ouvinte da rádio em que eu participava como comentarista enviou uma pergunta. Professor, como o historiador irá explicar no futuro os acontecimentos dos dias de hoje? Respondi: "Calma. É muito cedo para qualquer avaliação."

Não demorou muito para que vazamentos comprovassem a politização da tal operação revelando o conluio envolvendo o judiciário, a mídia corporativa, políticos oportunistas, moralistas de ocasião e interesses externos, o que acabou resultando na prisão do favorito para vencer as eleições de 2018 e causando danos econômicos tremendos ao nosso país.

A “Farsa Jato” pariu Bolsonaro e possibilitou que a a elite do atraso chegasse ao poder. Resolvi me envolver na política. Não ganhei nenhuma eleição, mas ganhei muitos amigos e conheci melhor os problemas da nossa cidade. Tive o apoio do amigo em todos estes embates. A sua colaboração foi de grande valia.

Meu caro amigo Mocellin (carta 5)
Um erro que considero monumental, tanto no PT como no seu antecessor no poder, o PSDB, foi o de não ter desenvolvido uma política robusta de educação para a cidadania nas escolas

Confesso que estou preocupado com o futuro, não meu, pois já estou no outono da minha existência, mas em relação às nossas crianças. Negacionismo climático, negacionismo da vacina, fanatismo religioso, intolerância, consumismo exacerbado, avanço da extrema-direita, jovens conservadores, descaso com o saber, individualismo e sobretudo a falta empatia pela natureza e pelo próximo. Infelizmente a escola crítica e libertadora está perdendo para os “influencers”, para os falsos profetas e pelos neofascistas de plantão.

Houve uma época que as pessoas tinham vergonha de ser ignorantes, hoje muitos têm orgulho. Concordo com o amigo faltou aos sucessivos governos de esquerda (?) politizar a sociedade. Investir em qualidade na educação e não em quantidade. Muita deixou de ser feita e muita coisa precisa ser feita. É bom não desanimar. Como dizia o cancioneiro popular: “ Não podemo se entregá pros home, mas de jeito nenhum amigo e companheiro… Não tá morto quem luta é quem peleia!”

Acredito que temos lutado ao longo de todos estes anos, aprendendo e ensinando, errando e acertando. Uma certeza eu tenho: nunca deixamos de dar o nosso melhor naquilo que fizemos. Feliz por esta amizade que espero continue até o fim de nossas existências.

Um forte abraço!!

Renato Mocellin

Renato Mocellin

Professor de História, autor de "História Concisa de Curitiba"

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