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Meu caro amigo Daniel Medeiros (carta 2)

Na sua segunda carta pública a Daniel Medeiros, Mocellin fala de carros que não pegavam e de um país que seguia aos trancos

Meu caro amigo Daniel Medeiros (carta 2)
Leonel Brizola: defendido por Mocellin em debate de 1989. Foto: Arquivo/Família Brizola
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Com um certo atraso respondo a sua última missiva. Estava lembrando de uma ocasião em que ao sairmos do colégio fomos até os nossos carros que ficavam estacionados na rua que ficava nos fundos do Colégio Positivo. Naquela época não havia EstaR e os nossos calhambeques não atraíam os amigos do alheio. Para variar o meu Passat perolado não pegou. Você veio me ajudar a empurrá-lo. Enfim a “máquina” funcionou. Você se dirigiu até o seu Fiat 147 que nunca lhe deixou na rua, mas ele, com seus 149 problemas ficou várias vezes no relento.

Olhei pelo retrovisor e constatei que pela enésima vez o seu Fiat também não pegou. Deixei o “passatão” na marcha lenta e fui ajudá-lo. A possante máquina italiana funcionou. Deu alguns estouros, expeliu uma fumaceira, mas tudo dentro da normalidade. Voltei para o meu carro, para minha surpresa ou melhor raiva, porque surpresa não foi o motor da “máquina alemã” havia apagado. Não teve jeito de fazê-lo funcionar, apesar do meu “vasto” conhecimento de mecânica.

Peguei carona com o amigo e fomos almoçar no restaurante tinha um nome sugestivo: Vesúvio. Lembro que no governo Sarney, visando combater a inflação foi implantado o Plano Cruzado, com o tabelamento de preços e salários. Nas minhas aulas expus que não acreditava que o plano daria certo. Citei a Edito Máximo de Diocleciano (século IV) , a Lei do Máximo da Revolução Francesa e outros exemplos como o “Comunismo de Guerra” nos primórdios do Regime Bolchevique e destaquei que em todos os casos as consequências foram negativas. Fui vaiado, taxado de comunista e antipatriota. Os fiscais do Sarney esbravejavam. O amigo, diferentemente de outros colegas, foi crítico em relação a esta panaceia de políticos oportunistas. Estávamos certos, assim que passou a eleição os preços foram liberados.

Para variar os assalariados tiveram enormes perdas. Algo notável aconteceu nas eleições presidências de 1989. Foi promovido um debate no teatro do colégio. A afluência de alunos foi enorme. Muitos acompanharam do lado de fora. Cada professor defendia um candidato. Lembro que o amigo defendeu o Mário Covas; o saudoso Mustafá o Lula; ninguém quis defender o Collor, era uma época que as pessoas, apesar de votarem na direita, tinham vergonha de se apresentarem como sendo de direita, especialmente professores. Eu com muito entusiasmo defendi o nosso último caudilho: Leonel Moura Brizola.

Lembro que um aluno educadamente - era uma época que as pessoas divergiam sem se agredirem - perguntou se eram procedentes às críticas que uma certa emissora de televisão fazia dizendo que Brizola tinha “destruído” o Rio de Janeiro. Não lembro qual foi a minha resposta, por certo foi apaixonada, lembro que recebi aplausos. Destaquei que o meu sonho era ver Darcy Ribeiro como Ministro da Educação e os Cieps espalhados por todo o Brasil. O amigo fez uma defesa racional e equilibrada da candidatura Covas. Hoje acredito que uma presidência de Mário Covas teria nos livrado do desastre que foi o Governo de Collor de Mello.

Sinto saudades das conversas na salas dos professores e dos nossos jogos na quadra do colégio. O amigo jogava muito bem: era leve, rápido, driblava com desenvoltura e tinha um chute potente. Juarez, Nogarolli, Cícero, Hélvio ( sem dúvida um excelente jogador), Ruizinho e tantos outros. Eu jogava no gol. Sempre de uniforme preto, inspiração daquele que foi o melhor goleiro de todos os tempos: Lev Yashin. Por falar em Yashin, as reformas do camarada Gorbatchev emperravam. Mas isso fica para a próxima missiva.

Leia aqui as cartas entre Mocellin e Daniel Medeiros

Renato Mocellin

Renato Mocellin

Professor de História, autor de "História Concisa de Curitiba"

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