Esta a primeira carta de Renato Mocellin para Daniel Medeiros no projeto Meu Caro Amigo. Leia a carta inicial de Daniel ao final do texto.
Meu caro amigo: lembro como se fosse hoje, o seu teste para ser admitido, no já distante ano de 1985.
Vi um jovem de cabelos longos, com barba crescida para parecer mais velho e uma bela camisa vermelha. Com passos firmes subiu no tablado e quase me provocou um infarto quando disse que escolhera como tema: “A Revolução de 1964”. O meu olhar de desaprovação foi perceptível para os ali presentes. Para o meu alívio era apenas uma provocação, pois discorreu com firmeza, correção e brilhantismo sobre o fatídico Golpe Civil-Militar de 64 que tanto nos infelicitou e ainda tem defensores. Destacou a participação dos Estados Unidos e da classe política do nosso Estado, algo ainda pouco divulgado. Vivíamos um período de otimismo, onde ser ignorante era vergonhoso e a direita estava em retirada. A juventude era contestadora e as utopias estavam em alta.
No decorrer da sua apresentação eu o elogiei. O diretor, pelo qual tinha e tenho grande consideração, questionou sobre a sua juventude e inexperiência. Como você controlaria as turmas agitadas que possuíamos então? Procurei destacar que via em você um enorme potencial: carisma, poder argumentativo, segurança, domínio do conteúdo e aquilo que é essencial em um professor: prazer em ensinar. Eu não estava errado. A sua história tem provado que a escolha foi correta.
Aquele 1985 foi um ano de muita esperança. Apesar da derrota da Emenda das Diretas, tivemos a eleição de Tancredo Neves, que infelizmente faleceu e a ascensão de José Sarney. Não era o que desejávamos, porém o fim da tenebrosa ditadura militar era um alívio.
Na América Latina estava terminando o ciclo dos regimes autoritários. As redemocratizações avançavam apesar da crise econômica e social.
Nem tudo eram flores, o neoliberalismo avançava nos Estados Unidos de Reagan e no Reino Unido da senhora Thatcher. A sanha privativista tinha seus defensores na Terra de Pindorama. Logo, logo colocariam as manguinhas de fora.
A União Soviética, após a “Era Brejnev”, marcada pela estagnação, burocratização e corrupção chegava ao fim. Após os curtos governos de Andropov e Tchernenko tivemos a ascensão de Mikhail Gorbachev que com suas “reformas” (Perestroika e Glasnost). Ele foi o coveiro do “Socialismo Real”. Já na China o camarada Deng Xiaoping promovia uma segunda revolução que gradativamente fez da terra de Mao Tsé-tung, Zhou Enlai e tantos outros uma potencia econômica.
Espero que na próxima missiva o companheiro relate as suas impressões sobre os seus primeiros anos no colégio. Que tal a história do seu Fiat 147 (vinho?) e do meu Passat perolado? Um forte abraço!
