Morto: Davi Gregório Ferraz dos Santos
Data da morte: 15 de junho de 2022
Idade: 15 anos
Local: Vila Recreio, Londrina
Número de tiros: 15
Número de PMs investigados: 3
As providências tomadas para esclarecer a morte de Davi Gregório Ferraz dos Santos foram “débeis” e a investigação, um “tanto superficial”. Foi o que disse o procurador do Ministério Público do Paraná, Sílvio Couto Neto, no mandado de segurança impetrado pela família do adolescente visando desarquivar o caso.
Davi, que tinha apenas 15 anos, foi morto pela Polícia Militar dia 15 de junho de 2022, na Vila Recreio, em Londrina. O caso foi arquivado pela Justiça a pedido do procurador natural do MP na cidade em novembro do mesmo ano.
A família recorreu e a decisão em segunda instância de Couto Neto pela reabertura se deu em maio de 2023. Mas, o Tribunal de Justiça (TJ) achou melhor encaminhar o caso para Brasília. E o inquérito só foi de fato reaberto em janeiro deste ano.
Versão oficial
A versão oficial é de que os PMs foram atender uma denúncia de tráfico de drogas e, ao chegarem ao local, avistaram Davi e um colega em frente ao imóvel. Os jovens teriam corrido para dentro da casa e foram seguidos pelos policiais.
O outro adolescente conseguiu fugir pelos fundos e Davi entrou na casa, onde foi abordado. Ele teria apontado uma arma para os policiais que, por isso, tiveram de matá-lo. O corpo dele foi atingido por 15 projéteis.
A família conta que Davi havia saído de sua casa, na zona norte da cidade, em direção ao centro. E parou no local para comer um cachorro-quente.
A Polícia alega que, além da arma, foram apreendidas drogas e dinheiro que estariam com o adolescente. A família duvida dessa versão. Acha que tanto o entorpecente quanto o revólver e as notas de reais foram plantados pela PM para justificar uma execução.
Reflexo de defesa
Em sua decisão pelo desarquivamento, o procurador de segunda instância aponta uma série de fragilidades e incoerências nas investigações. Entre elas, o fato de que os dedos da mão direita de Davi foram atingidos por tiros, indicando que, antes de morrer, ele teve o ato reflexo de levar a mão ao rosto. “Se ele apontava a arma para os policiais, como sua mão ficou lesionada dessa forma?”, questiona Couto Neto.
Para ele, o arquivamento do inquérito policial “foi extremamente precipitado, merecendo ser revisto, por haver indícios de que a solução adotada é inadequada e ilegal.”
Cinco motivos para desarquivar o caso:
1 - O laudo do local da morte mostra a localização das drogas e dinheiro que teriam sido apreendidas com Davi, bem como dos móveis da residência, dos projéteis encontrados no local e das manchas de sangue. Só não diz onde a arma que estaria com Davi foi encontrada.
2 - Para o procurador, é de se esperar que um revólver portado por um indivíduo morto com 15 disparos apresentasse ao menos algum vestígio de sangue, ainda mais levando em conta que o laudo aponta a presença de grande quantidade de sangue no local. A arma, no entanto, foi entregue à Polícia Civil sem nenhuma “sujidade”.
3 - Embora os policiais digam que o “confronto” com Davi se deu na sala, havia cápsulas deflagradas em vários cômodos da casa, situação que não foi explicada no processo.
4 - Em seus depoimentos, um dos policiais disse que Davi tinha uma arma na cintura e a sacou no momento da abordagem. Outro disse que o menino já estava com a arma em punho.
5 - Segundo os policiais, o garoto se escondeu entre os sofás da sala. E eles atiraram do corredor. Mas, se de fato foi isso o que aconteceu, seria “improvável” na visão do procurador que as balas atingissem as regiões que atingiram no corpo do Davi.
Informações ignoradas pelos investigadores
- A mãe de Davi informou que foi avisada da morte dele por pessoas que estavam próximas ao local dos fatos e que essas pessoas teriam lhe fornecido alguns detalhes da ocorrência. Elas não foram identificadas.
- A mãe informou que o dono do carrinho de lanche que ficava em frente à residência teria ouvido Davi pedir socorro e chamar por ela. A testemunha foi identificada e ouvida, mas não foi questionada especificamente sobre o pedido de socorro.
- O advogado da família questionou o depoimento de uma testemunha, mas os investigadores não aceitaram ouvi-la novamente.
- O casal que morava na casa, testemunhas importantes, não foi encontrado para ser ouvido e, segundo o procurador, foram “parcas” as diligências realizadas para localizá-los.