Minha horinha de almoço. Só minha. Delícia. Sento bem aqui nesse cantinho. O Liquori está com o ar-condicionado a pleno. Peço uma água com gás e gelo no copo e o prato. Nos dez minutos, quinze, vinte minutos que levará para chegar, vou ler, poderei ler, lerei, hei de ler, graças, um, dois, três, talvez quatro poemas do meu amado Drummond.
São esses pequenos grandes momentos de satisfação de um trabalhador brasileiro que, como vocês podem ver, já nem pede muito da vida — apenas um prato feito, pode, pode, pode sim ser um estrogonofe de média para baixa qualidade num lugar perto do trabalho, onde eu consiga um pouquinho que seja me desligar das demandas incessantes e almoçar sonhando dois, três ou, na melhor das hipóteses, quatro poemas do meu preferido, benquisto, favorito Drummond. Pronto, a comida chegou, interessante, hoje mais rápido do que o costume. Eis que vou dar a primeira garfada e escuto: “sou I GUAL ZI NHA você.”
Ai não. Olho e confirmo, é comigo mesmo que a senhora gordinha, cabelo amarelo ovo, vestido vermelho de algodão, apoiada numa bengala com quatro pés e luz led ligada está puxando papo. Antes mesmo de eu abrir a boca já sem saber se para responder qualquer coisa ou se para iniciar o meu almoço, ela já emenda:
“sabe que sou assim também, gosto dos CAN TI NHOS”, ela diz a palavra separando as sílabas e cantando cada uma delas, “adoro as mesas ES CON DI DI NHAS, mas não quero atrapalhar, bom apetite, meu marido, na minha época a gente casava sem conhecer a pessoa, era diferente, diferente de como é hoje e diferente de mim, quero dizer, o meu marido, você entendeu, né, moço, bonito, lendo livro, como é que não vai entender, meu marido era aparecido que era uma coisa, gostava de um holofote que era uma coisa, tinha que ficar no meio de deus e o mundo, e me arrastava com ele, ai de mim se dissesse um ai, só queria saber de vitrine o inzibido, falava alto pra saberem que tava ali, erguia os braços assim, não vou erguer porque se eu ergo fico tonta e periga e eu cair aqui, ainda bem que agora que tenho três pernas, viu que beleza isso aqui, tive sorte dele morrer antes, pude preparar minha velhice e sentar onde eu gosto e cabô, igualzinho você, no cantinho, se eu não fosse boa de cabeça, aí eu queria ver, mas eu sou ótima, tenho uma vida maravilhosa, e daí que tenho diabetes, eu me cuido, iiiiihhh eu me cuido feito uma louca, só não posso me machucar porque não posso tomar anti-inflamatório, então tomo um cuidado que é uma coisa com degrau, mas não quero atrapalhar você, a gente se vê por aqui, moro aqui mesmo no Tijucas, no oitavo. Adorei conversar com você, viu, tchau tchau, bom apetite.
E lá se foi a senhora, bem devagar, com as suas três pernas, Galeria Tijucas adentro.