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Homem é morto por seguranças após furtar barra de chocolate no Muffato do Portão

Supermercado diz que repudia violência e que está ajudando nas investigações; homem ainda não identificado teria sido assassinado com mata-leão

Homem é morto por seguranças após furtar barra de chocolate no Muffato do Portão
Suspeitos de matar homem foram registrados em vídeo. Imagem: Vídeo/Reprodução
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Pedro (nome fictício), motoboy, estava no Portão por volta das 21 horas da última quinta-feira, dia 19 de junho, quando viu uma cena estranha: três homens carregando uma quarta pessoa, de calças arriadas. Ele não sabia o que estava acontecendo, mas imaginou que a pessoa carregada pudesse estar bêbada. Em todo caso, tomou duas providências: a primeira, ir até um terreno baldio de onde podia ver melhor; a segunda, gravar tudo.

Sem saber, Pedro estava se transformando em testemunha de um assassinato. O corpo que estava sendo transportado, com as calças abaixo dos joelhos, era de um homem que pouco tempo antes estava sendo perseguido por seguranças. Seu crime foi o furto de uma barra de chocolate no supermercado Muffato, no Portão.

Os homens que o carregavam imaginavam, a essa altura, que sua vítima estava meramente desmaiada. Pedro ouviu a conversa entre eles, ainda que de longe. Um perguntava: será que morreu? O outro respondia que não, que provavelmente era um desmaio. Fato é que os três não conseguiam mais dar conta de carregar o corpo.

Um deles, que Pedro classificaria mais tarde às autoridades como "o mais gordinho", estava visivelmente cansado e parou. Mandou outro integrante do grupo "voltar lá" e pedir ajuda. Mais gente para o transporte. O homem que saiu correndo era, diz a testemunha, mais atlético, e voltou rápido. Tudo foi registrado pelo celular da testemunha e agora está nas mãos da polícia.

Em outro trecho da conversa ouvida pela testemunha, um dos homens teria dito que o que preocupava era "terem acertado a pedrada". Nas investigações, ainda não ficou claro se houve agressões com pedra ou o que exatamente aconteceu além do mata-leão.

A vítima, até agora não identificada, foi levada até a Rua Ponta Grossa, esquina com a Daisy Lucy Berno. Em outro trecho de conversa entreouvida, um dos homens pergunta a seu superior, ao receber ordem para voltar ao Muffato, se deviam deixar o corpo ali mesmo. A resposta teria sido para apenas tomar cuidado de "colocar mais para o canto". Foi ali, num pequeno matagal, que o cadáver acabou sendo encontrado pela polícia.

Polícia

Foi o próprio Pedro quem chamou as autoridades. Depois de ir até o corpo, ele ligou para a Polícia e recebeu instruções para ver se a pessoa estava ainda viva. Como viu que o atendimento ia demorar, ele foi até o Corpo de Bombeiros - a primeira declaração oficial da morte seria dada por um bombeiro ao chegar no local.

Enquanto isso, a viatura da Polícia Militar encaminhada até o ponto onde o cadáver foi encontrado ia até o local. Ao mesmo tempo, outra viatura atendia uma ocorrência de furto ali perto, no Muffato. Um homem tinha saído do local sem pagar por uma barra de chocolate. Ainda não estava claro, mas os dois acontecimentos estavam ligados.

De acordo com os depoimentos concedidos na audiência de custódia, os dois homens presos - que estavam carregando o corpo com um terceiro ainda não localizado - trabalhavam no Muffato. Um segurança, chamado Bryan, parou o homem que saía com a barra de chocolate, naquilo que considerou como uma "abordagem normal". Que bastaria devolver o chocolate e o homem estaria livre, Mas aparentemente ele se recusou a devolver o que tinha pegado e saiu correndo.

Logo a cena se transformou em uma perseguição, com seguranças em um funcionário do mercado tentando alcançar o homem. Um motociclista, chamado Henrique, que passava pelo local acabou ajudando sem ter nada com a história. Um dos perseguidores, vendo que o homem acabaria por conseguir fugir, pediu que o sujeito fosse de moto atrás dele e o segurasse. Foi o que ele fez.

Mata-leão

Ao ser detido por Henrique, o homem com a barra de chocolate foi logo alcançado pelos funcionários da segurança. Os relatos aqui são inequívocos: um dos três homens deu um mata-leão, uma gravata, na vítima. O motoqueiro que ajudou na perseguição confessou que ele próprio deu dois socos no homem detido, antes de ir embora, dizendo que precisava voltar ao trabalho.

Foi durante o mata-leão que as calças da vítima começaram a cair. Segundo o depoimento de Bryan, que tinha ficado para trás e chegou com o homem já dominado, houve reclamações (não fica claro de quem) quanto ao tratamento que estava sendo dado. O registro do depoimento é pouco claro sobre esse ponto:

"que até os vizinhos começaram a gritar; que [Bryan] falou que era para ele parar e calar a boca; que puxou a calça dele [para cima] e falou para levarem; que falou que não tinha como puxar o cara daquele jeito, sabia que ele estava errado, mas não dava para puxar o cara pelado até o pessoal tinha ficado bravo"

Tudo isso, de acordo com os depoimentos, aconteceu em público na noite desta quinta (19).

Buscas

A Polícia, ao entender o que tinha acontecido, resolveu ir atrás dos homens identificados com ajuda do mercado e da Rota, empresa de segurança. Uma equipe foi a Fazenda Rio Grande atrás de um dos suspeitos de matar a vítima; outra equipe seguiu para o Alto Boqueirão, atrás de outro suspeito que também já tinha saído do local.

Até a manhã deste sábado, um dos envolvidos no caso não havia sido localizado. Segundo os registros oficiais, a polícia foi até o endereço que a empresa tinha como sendo dele, mas a pessoa que atendeu os policiais afirmou ser ex-esposa dele e disse que o homem procurado não mora mais lá.

Na audiência de custódia, neste sábado, a juíza Fernanda Orsomarzo, determinou que Bryan Gustavo Teixeira e Henrique Moreira Alves Pinheiro do Carmo tivessem suas prisões temporárias convertidas em preventiva, o que significa que eles podem permanecer preso durante toda a investigação. Já o suspeito Luiz Eduardo Alves, que até onde se pôde apurar não teve envolvimento direto com a morte, conseguiu liberdade provisória.

O que diz o Muffato

O Muffato emitiu uma nota à imprensa afirmando que não coaduna com o emprego de violência e que está ajudando na investigação. Veja a nota:

O Muffato repudia veementemente qualquer ato de violência ou conduta que contrarie os princípios de respeito à vida, à dignidade humana e à ética.

Na noite da última quinta-feira (19), um episódio grave ocorreu nas imediações de uma de nossas unidades, em Curitiba. Os fatos estão sob apuração das autoridades policiais, com total apoio e cooperação do Muffato.

Quanto a participação dos envolvidos , ainda sob investigação, ressaltamos que a empresa não orienta, autoriza ou tolera qualquer ação fora dos seus protocolos operacionais de segurança e princípios institucionais. A conduta em apuração não reflete, sob nenhuma hipótese, os valores que defendemos.

Manifestamos solidariedade à família da vítima e seguimos colaborando integralmente com as autoridades para que os fatos sejam esclarecidos com transparência e justiça.

Reiteramos nosso compromisso com a integridade, o respeito à vida e a confiança nas instituições.

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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