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Empadinha do Caruso cresce e vira “empadão comprido”

Depois de fechar as portas da tradicional Empadas Caruso, Guilherme Caruso retoma a produção em casa, sob encomenda

Empadinha do Caruso cresce e vira “empadão comprido”
Agora as empadinhas viraram empadão comprido, mas com a mesma receita original, feitas por Guilherme Caruso, neto do fundador, Enrico. Foto: Arquivo pessoal
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Ele herdou todos os segredos, histórias e receitas de quase sete décadas das empadas do Caruso. O sucesso e o sabor das clássicas empadinhas, no entanto, não sobreviveram às intempéries da economia e outros senões e Guilherme Caruso, que carrega no nome o legado gastronômico da família, precisou fechar as portas da tradicional loja instalada por mais de 60 anos na Rua Visconde do Rio Branco. Resiliente, ele até tentou ir para o mercado corporativo, mas a vocação falou mais alto.

Ainda bem. Agora, os fãs da indefectível empadinha podem prová-la na versão “comprida”, mais fácil de fazer, já que nem as forminhas sobraram do pequeno império. As encomendas são feitas diretamente com Guilherme, que faz questão de atender pessoalmente cada cliente. Depois, mão na massa. Ele mesmo prepara cada pedido, agora restrito aos principais sabores: frango, palmito, bacalhau e o especial de palmito e camarão.

Por 67 anos, o Caruso funcionou no mesmo prédio, na Rua Visconde do Rio Branco. Foto: Arquivo pessoal

Mas o que uma empada precisa para ser especial? Recheio generoso, com temperos únicos, massa folhada delicadamente crocante e uma história tão interessante quanto o produto. O Caruso foi fundado em 1954 por Enrico Caruso, em uma então charmosa rua repleta de pedestres. Filho de dono de restaurante, Enrico foi o primeiro a usar o nome da família italiana em um estabelecimento. Tinha o aval do pai, Antonio Nerone Caruso, e contou com a ajuda da filha, Sylvana Caruso, na trajetória, mas foi o neto Guilherme quem deu continuidade ao legado.

Guilherme cresceu em meio à boa balbúrdia de um estabelecimento familiar. “Nasci e me criei na loja da Visconde do Rio Branco. Ficava pentelhando meu avô e roubava as pontinhas das empadinhas de frango. Elas tinham um quadradinho em cima, e eu tirava tudo, comia tudo. Pegava uma coxinha ou uma empada, sentava no degrauzinho da frente da loja e ficava ali, vendo o movimento e conversando com os clientes”, conta.

O tamanho mudou, mas o sabor continua o mesmo. Foto: Arquivo pessoal

Cria do Colégio Positivo, ele se formou em Administração pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).  Sempre trabalhando com a família de origens italianas, presenciou o auge e as dificuldades de uma empresa que faz parte da memória de Curitiba. “Eu vivi os altos e baixos do Caruso. Minha família sempre foi muito dedicada. Até minha avó, que tinha uma loja de lã ao lado do restaurante, se envolvia.”

Novos tempos

Os mais “novos” podem até lembrar da empadinha por conta da loja no ParkShopping Barigui. Era uma franquia que, nos últimos anos do Caruso, chegou a responder por 80% do faturamento. Quando a franquia fechou, em 2020, foi quase a pá de cal para o Caruso encerrar suas atividades. Vários motivos permearam a decisão de Guilherme. “Ao longo dos anos, a região mudou. Antigamente havia muito fluxo de pedestres e era mais fácil estacionar”, considera o empresário.

Além de empadas, o Caruso chegou a ter almoço e feijoada aos sábados, com filas que chegavam a transbordar do restaurante. Mas a grama do vizinho nem sempre é mais verde. “O Caruso sempre viveu na pindaíba. Nos últimos anos a coisa piorou, e isso altera a forma como a gente lida com as coisas. Cheguei a tratar cliente mal porque estava repleto de dívidas, e isso não se faz. Para dentro do balcão não pode haver dificuldade, política ou crença pessoal que justifique alguém ser mal atendido”, conta.

Guilherme na cozinha de casa: produção com qualidade. Foto: Arquivo pessoal
Vem nova geração por aí. Enrico, filho de Guilherme e bisneto do fundador, já coloca a mão na massa. Foto: Arquivo pessoal

Além disso, ele já estava integralmente responsável pelo local antes mesmo da morte do avô, em 2010. Ao longo do percurso, estruturou e fechou franquias (foram sete ao todo), fez empréstimos, investiu na reforma da cozinha, chegou a vender o imóvel para pagar a hipoteca e virou locatário do prédio que antes era da sua família. Queimou todas as reservas e passou a não atender o telefone por conta dos cobradores (já devidamente pagos atualmente).

Foram duas décadas de agruras até que ele decidisse, finalmente, e por pressão da família, fechar definitivamente as portas. Antes disso houve mais um episódio curioso. Ele contou ao colunista Reinaldo Bessa que iria fechar as portas. Com a notícia publicada, a loja encheu novamente. “Eu tive a ilusão de que o movimento iria voltar, mas foi aquela melhora antes da morte”, compara, acrescentando que algumas pessoas chegaram a achar que era estratégia de marketing. “Mas não foi. Foi a pontinha de esperança que ainda restava em mim”, garante.

Vida de CLT

Casado e com dois filhos, tinha chegado a hora de, pela primeira vez, procurar um emprego CLT. Recorreu aos inúmeros cartões de visita do vasto banco de clientes do Caruso e enviou currículo para todos. “Meu currículo não era muito atrativo. Eu tinha mais de 20 anos de experiência, mas no meu próprio estabelecimento”, admite.

Espaço clássico para saborear as empadinhas e uma wimi. Foto: Arquivo pessoal

Aos 43 anos e sem nenhuma vivência de emprego fora do Caruso, Guilherme conseguiu uma vaga no Marketing de uma empresa de tubulações, porém com poucas chances de crescimento. “Entre ganhar nada e pouco, o pouco era melhor.” Decidiu fazer mestrado e chegou até a pensar em ingressar na vida acadêmica. No Natal de 2023, porém, pegou o único rolo de massa que sobrou dos utensílios do Caruso e decidiu fazer o “empadão comprido”, o que era possível produzir em casa.

Anunciou entre amigos e antigos clientes e, com o dinheiro que conseguiu com as vendas, comprou um freezer e uma panela. “Eu sempre dei pitaco na cozinha, ajudava na produção. Então tinha tudo o que precisava para reproduzir o sabor das empadinhas”, diz. O produto, na verdade, sempre existiu no cardápio do Caruso e era chamado de “strudel salgado” pelo avô, o que nada mais era do que a empadinha em “tamanho família”.

Por algum tempo, ele conseguiu conciliar o emprego fixo com a produção dos empadões, mas desde o ano passado decidiu dedicar-se integralmente à atividade. “Todo mundo pede as empadinhas, mas nem forminha eu tenho. O empadão é mais fácil de preparar e montar, e eu faço por encomenda”, conta. Por enquanto, ele trabalha com apenas uma ajudante, responsável pela mise en place quando prepara os recheios, a cara e a coragem. Mas já vislumbra tempos melhores: “meu sonho ainda é reabrir o Caruso”. A gente aguarda.

Serviço
Os empadões têm cerca de 1,150 kg e servem até cinco pessoas. Os sabores são: frango (R$ 140), palmito (R$ 140), especial — palmito com camarão (R$ 180) — e bacalhau (R$ 190). São entregues (com taxa à parte) já assados ou congelados para assar. As encomendas podem ser feitas de segunda a sábado e, aos domingos, até as 11h, pelo WhatsApp (41) 99928-8891.

Katia Michelle

Katia Michelle

Jornalista formada em Comunicação Social e bacharel em Artes Cênicas, com pós-graduação em Poéticas Contemporâneas. Atua como repórter, editora e colunista nas áreas de comportamento, cultura e gastronomia. Assina a coluna Panela Plural.

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