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“Vila Pérola” leva ao cinema a geração moldada pela era dos sacoleiros da Ponte da Amizade

Longa filmado na tríplice fronteira transforma o universo dos compristas em drama sobre afeto, dinheiro e sobrevivência

“Vila Pérola” leva ao cinema a geração moldada pela era dos sacoleiros da Ponte da Amizade

Durante anos, ônibus fretados cruzaram o país em direção à Ponte da Amizade carregando compristas atrás de mercadorias vindas do Paraguai. Em torno desse fluxo permanente de dinheiro, informalidade e circulação de produtos, bairros cresceram, famílias ascenderam economicamente e parte da identidade social da fronteira foi moldada pela era da muamba. É esse universo que “Vila Pérola” transforma em cinema ao reconstruir a geração formada em torno da economia dos sacoleiros em Foz do Iguaçu.

As gravações começaram neste mês em diferentes regiões da cidade e percorrem cenários diretamente ligados à memória desse período, como a Vila Pérola, a Ponte da Amizade e áreas próximas às Cataratas do Iguaçu. O ambiente retratado remete ao auge do circuito de compristas e ônibus fretados que movimentou a fronteira sobretudo entre os anos 1990 e 2000, quando Foz consolidou um dos maiores corredores populares de comércio informal do país.

No núcleo do roteiro estão duas famílias atravessadas pelas transformações econômicas desse ciclo. Arnaldo, ligado ao transporte de compristas, tenta expandir um negócio construído em torno da circulação de mercadorias entre Paraguai e Brasil. Ao mesmo tempo, Marta enfrenta a deterioração das condições financeiras da família após a morte do marido. Em meio à pressão cotidiana da sobrevivência na fronteira, surge a relação afetiva entre Diogo e Rafael.

O longa não se limita ao período de ascensão da muamba. A história também dialoga com os efeitos deixados pelo enfraquecimento gradual desse circuito econômico nos anos posteriores, marcado pelo aumento da fiscalização sobre o transporte informal de mercadorias e pelo endurecimento do controle aduaneiro na fronteira.

Ao longo da última década, esse processo passou a impactar diretamente regiões periféricas de Foz do Iguaçu. Famílias historicamente ligadas à economia informal da fronteira enfrentaram perda de renda, insegurança econômica e dificuldades para manter despesas básicas após o declínio da atividade dos sacoleiros.

Em “Vila Pérola”, a fronteira deixa de funcionar apenas como cenário e passa a organizar as relações afetivas, familiares e econômicas dos personagens.

O projeto é dirigido por Felipe Lovo e produzido por Maurício Ferreira, ambos ligados ao curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Integração Latino-Americana. Segundo a equipe, o longa reúne mais de 200 pessoas entre elenco, técnicos e figurantes, com predominância de profissionais ligados à cena audiovisual local e à UNILA.

O filme também surge em meio às tentativas de consolidar Foz do Iguaçu como polo audiovisual fora do eixo Rio–São Paulo. Além de profissionais da cidade, participam trabalhadores e estudantes vindos de Curitiba, São Paulo, Porto Alegre, Assunção, Venezuela, Bolívia e Cuba, refletindo a diversidade social característica da tríplice fronteira.

Entre os nomes do elenco estão Guenia Lemos, Lourinelson Vladmir, Eduardo Borelli e Cássia Damasceno. Morador de Foz do Iguaçu, Daniel Ferreira participa do filme em seu primeiro trabalho como ator após integrar oficinas promovidas pela equipe de preparação.

Segundo a produção, “Vila Pérola” é o primeiro longa rodado em Foz do Iguaçu a operar com um orçamento de maior porte. O filme é produzido pela Três Margens, com coprodução da Viola Filmes, de São Paulo, e da Átomo Produtora, do Paraguai. O projeto recebeu recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná e do governo federal, além de apoio logístico e operacional da Fundação Cultural e da Secretaria Municipal de Turismo de Foz do Iguaçu.

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