O Ministério Público do Trabalho (MPT) investiga a Viação Santa Clara (VISAC), concessionária do transporte coletivo urbano de Foz do Iguaçu, por denúncias de retaliações e pressão contra trabalhadores ligados ao Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários (SITRO-FI).
Documento obtido pela reportagem mostra que o MPT notificou trabalhadores da empresa para responder se tinham conhecimento de “demissões ou punições motivadas pela filiação sindical”, se gestores orientavam empregados a não se associar ou a se afastar do sindicato e se havia resistência ou retaliação contra dirigentes sindicais.
A notificação foi assinada em 13 de novembro de 2025 pelo procurador do Trabalho Fabrício Gonçalves de Oliveira. O documento informa que as respostas dos trabalhadores não seriam encaminhadas à empresa e ficariam sob sigilo.
A apuração ocorre no momento em que a VISAC lançou, na última semana, um canal de denúncias para casos de assédio moral, assédio sexual, discriminação, racismo, fraudes e outras irregularidades dentro dos ônibus e nos ambientes internos da empresa.
Segundo a concessionária, o canal aceitará denúncias anônimas e identificadas, com promessa de confidencialidade, proteção contra retaliações e acesso restrito às informações. A ferramenta está disponível no canal de denúncias da VISAC.
Questionada sobre quantos relatos de irregularidades haviam sido registrados desde o início da operação em Foz do Iguaçu, em 2023, a VISAC afirmou nunca ter recebido denúncias formalizadas.
Por sua vez, o SITRO-FI afirma ter formalizado denúncias ao MPT envolvendo assédio, perseguição sindical, desvio de função e cobranças consideradas abusivas relacionadas a acidentes e batidas com veículos da operação.
De acordo com o presidente da entidade, Rodrigo Andrade, trabalhadores procuraram o sindicato “por várias vezes” para relatar assédio e diferença de tratamento entre sindicalizados e não sindicalizados dentro da empresa.
“O trabalhador vai lá presencialmente falar com a gente porque nem por mensagem de celular eles querem mandar”, detalhou. Segundo ele, a maior parte dos funcionários evitam formalizar denúncias por medo de exposição e perda do emprego.
O dirigente pontua que empregados não sindicalizados receberiam melhores horários e premiações, enquanto trabalhadores ligados ao sindicato seriam prejudicados na distribuição de escalas.
“Os nossos dirigentes sindicais são os mais perseguidos”, destacou.
Andrade também questionou a efetividade do novo canal de denúncias lançado pela VISAC por considerar que trabalhadores não confiam em mecanismos administrados pela própria empresa.
“Se o trabalhador já tem medo até de mandar mensagem para o sindicato, imagina denunciar em um canal controlado pela própria empresa”, afirmou.
Após as declarações do sindicato e o acesso ao documento do MPT, a reportagem enviou novo bloco de perguntas à VISAC sobre as denúncias sindicais, o medo de retaliação entre trabalhadores e a investigação conduzida pelo Ministério Público do Trabalho.
A empresa não respondeu aos questionamentos até a publicação desta reportagem.