Após registrar melhora cognitiva em pacientes com Alzheimer tratados com cannabis, pesquisadores da UNILA abriram o recrutamento de filhos de pacientes para um estudo clínico preventivo com duração prevista de 20 anos. O objetivo é investigar se a doença pode ser retardada antes do aparecimento dos primeiros sintomas.
Batizado de COONFIA, o estudo será conduzido em Foz do Iguaçu pelo Laboratório de Cannabis Medicinal e Ciência Psicodélica (LCP). O público-alvo são adultos com histórico familiar direto de Alzheimer, um dos principais fatores de risco associados à doença. Ao longo de duas décadas, os pesquisadores acompanharão se o uso contínuo, em baixa dose, de canabinoides produz efeitos mensuráveis sobre o surgimento ou a progressão do quadro clínico.
O protocolo prevê quatro grupos. Dois integrarão um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. “Neste tipo de pesquisa, metade do grupo recebe o medicamento e a outra metade recebe o placebo, e ao final os resultados são comparados”, afirma o coordenador do estudo, Francisney do Nascimento.
Parte dos voluntários receberá um extrato com canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC) em proporções iguais; a outra parte receberá uma solução sem canabinoides. Os demais grupos não receberão tratamento nem placebo e participarão apenas do acompanhamento clínico, permitindo a comparação de trajetórias cognitivas ao longo do tempo.
As avaliações ocorrerão a cada seis meses e incluem consultas médicas, testes cognitivos padronizados, questionários de qualidade de vida e coleta de sangue e líquor.
Do tratamento à prevenção
A investigação preventiva se apoia em um estudo anterior do mesmo grupo. Em novembro de 2025, a UNILA divulgou um ensaio clínico terapêutico que acompanhou 28 pacientes com Alzheimer, entre 60 e 80 anos, por 26 semanas.
Nesse estudo, também randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, o grupo que recebeu um extrato full spectrum de cannabis (0,350 mg de THC e 0,245 mg de CBD) apresentou melhora cognitiva medida pelo Mini-Exame do Estado Mental (MMSE).
Os resultados foram publicados na revista científica Journal of Alzheimer’s Disease. “Este é o primeiro ensaio clínico do mundo que mostra que a cannabis melhora a memória em pacientes com Alzheimer”, disse o médico responsável pelo estudo, Elton Gomes da Silva.
O ensaio avaliou pacientes já diagnosticados e não permitia inferências sobre prevenção. O novo estudo foi desenhado para investigar essa lacuna, ao focar indivíduos com maior risco genético antes do início da doença.
O COONFIA será desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Biociências da UNILA, em parceria com a Associação Santa Cannabis. A coordenação científica é de Francisney do Nascimento. A execução ficará a cargo da biomédica e mestranda Maria Victoria Luz Gonçalves, sob supervisão de Elton Gomes da Silva. A equipe reúne profissionais das áreas médica, biomédica, farmacêutica, biológica e de saúde coletiva.
Como participar
Podem se candidatar pessoas alfabetizadas, entre 45 e 65 anos, com disponibilidade para comparecer presencialmente ao campus da UNILA, em Foz do Iguaçu. Por critérios de segurança, não serão incluídos voluntários com doenças hepáticas ou renais, histórico de psicose ou epilepsia, nem gestantes ou lactantes. A participação é gratuita e não remunerada.
As inscrições estão abertas por formulário online (https://redcap.link/COONFIA) ou pelo WhatsApp (45) 92003-4535, conforme informado pela universidade.