A Ocupação Flores do Campo, na zona norte de Londrina, se transformou, nos últimos anos, numa “pequena Venezuela”. Casas inacabadas — fruto de um empreendimento do Minha Casa Minha Vida abandonado após a falência da construtora — tornaram-se destino de centenas de famílias vindas do país vizinho. Elas chegaram pela promessa de um teto sem aluguel, numa rede de indicações que se espalhou entre imigrantes que já viviam em Londrina, migrantes vindos de abrigos de Roraima e parentes que ainda tentavam escapar da crise humanitária venezuelana.
Segundo a associação de moradores, o residencial tem 1.228 casas, sendo que 1.000 estão ocupadas com aproximadamente 200 famílias brasileiras e 700 venezuelanas.
Sorelis Andreina Rodríguez Franco, 30 anos, que já vivia em Londrina, foi a primeira venezuelana a ocupar uma casa no Flores, em 2020. Hoje, ela mantém uma pequena venda no local, com a qual sustenta sua família. “Eu vendia balas nas ruas da cidade e morava com a sogra do meu irmão quando ouvi falar de um local onde era possível ocupar uma casa vazia. Uma amiga venezuelana foi quem comentou sobre o Flores do Campo”, lembra. A amiga visitou a comunidade primeiro, mas ficou com medo de morar num empreendimento abandonado. Sorelis preferiu arriscar. Foi para o local com o marido e os três filhos.
O acolhimento dos moradores foi imediato. “O povo me recebeu muito bem. Me colocaram numa casa lá no fundo, mas chovia demais e molhava tudo. Aí me arrumaram outra casa, boa, onde hoje mora meu pai, o pastor Luiz. Eu vivi lá por dois anos.” Agora ela está num terceiro imóvel, onde montou o pequeno comércio.
Fome e colapso dos serviços públicos
Sorelis chegou ao Brasil em 2019, depois de anos vivendo em dificuldade extrema em seu país. “Lá estava feio. Minhas crianças não conseguiam ir à escola porque eu não tinha dinheiro pra comprar uniforme. Quando tinha comida, era arroz branco e feijão preto duro. Não tinha verdura.”
As escolas, segundo ela, também exigiam materiais de limpeza que o governo não fornecia. “Eles pediam, mas eu não tinha condição. Não tinha desinfetante, não tinha nada.”
A saúde pública, afirma, estava em completo colapso. Ao relatar o nascimento do filho mais novo, Sorelis se emociona. “Meu pai tinha uma mercearia. Ele vendeu tudo para eu poder comprar as coisas do parto. Lá você tem que comprar tudo: remédio, gazes, tudo. Se não tem dinheiro, morre na porta do hospital.”
Ela trabalhava como comerciante, vendendo roupas e comida. O marido fazia bicos como pedreiro. “A gente trabalhava, mas o dinheiro não dava. Você trabalha um mês para comprar um frango e um arroz.”
Depois de um ano em Roraima, mudou-se para Londrina, onde uma cunhada já morava. Começou a vender balas no Centro e ouviu falar da ocupação. Pouco tempo depois, estava estabelecida no Flores do Campo.
A comunidade que se multiplicou
O sucesso de Sorelis na busca pela casa própria se espalhou entre conterrâneos que já estavam no Brasil e que ainda viviam na Venezuela. Ela mesma convidou amigos e parentes para se estabelecerem no Flores do Campo. “A maioria já vem da Venezuela direto pra cá, porque os familiares chamam. Aqui a gente não paga aluguel e eu sei como é difícil a situação lá.”
Yanetzi Jose Salazar Rivas, 39 anos, também chegou ao Flores em 2020. Mesmo com formação universitária, ela não conseguia sustentar a família na Venezuela. Na ocupação, ela se tornou referência para dezenas de crianças ao oferecer aulas de reforço escolar — um apoio fundamental para estudantes que ainda enfrentam barreiras com o português.
A professora viveu por 16 anos como coordenadora de serviço comunitário universitário na Venezuela. Mesmo ocupando um cargo respeitado, a crise econômica tornou impossível sustentar seus três filhos. “Eu era chefe de departamento, mas o salário não compensava. Nós não conseguíamos comprar comida, nem pagar consultas. Um frango precisava durar um mês”, lembra.
Ela descreve cenas comuns vividas em seu país: famílias dividindo ossos de frango para fazer caldo, lenha para cozinhar devido à falta de gás, e a necessidade de comprar até luvas e materiais para o parto porque hospitais não tem insumos.
A gravidez do terceiro filho tornou a situação insustentável. “Meu marido dizia: ‘Não vamos conseguir. Consulta, fralda, leite… nada dá’.” Após enfrentar xenofobia no Peru, onde o marido tentou trabalhar, a família decidiu migrar para o Brasil.
A viagem e o início em Londrina

Yanetzi chegou em Londrina exatamente na semana em que a pandemia da Covid levou ao fechamento das fronteiras. O marido trabalhava na construção civil, mas perdeu o serviço após o contratante fechar as portas. Sem renda para continuar pagando aluguel, a família foi orientada por moradores a procurar o Flores do Campo. Em 15 de março, mudou-se para a ocupação.
“Pelo menos não ficamos na rua. Aqui fomos acolhidos”, afirma.
Ela lembra do choque ao entrar num supermercado brasileiro pela primeira vez. “Peguei dois tomates e uma alface. Meu marido dizia: ‘Pega mais’. Eu achava que ia ficar caro, como na Venezuela. Quando vi que conseguia encher um carrinho, chorei.”
A professora chegou pesando pouco mais de 50 kg. Hoje tem 80 kg. “Aqui meus filhos comem bem. Aqui somos abençoados.”
Com o tempo, Yanetzi integrou-se à comunidade e passou a participar da associação de moradores, especialmente no apoio às famílias venezuelanas recém-chegadas. Também deu à luz seu quarto filho — o único brasileiro da família.
O contraste com o sistema de saúde venezuelano a surpreendeu. “O pré-natal e o atendimento aqui foram maravilhosos. No meu país, para ter um parto, é preciso comprar tudo: soro, luvas, sutura, até o uniforme do médico.”
Em busca de um marcapasso

A história da dona Yolanda Martinez Liscano, 64 anos, é um pouco diferente da dos conterrâneos. Ex-sargento do Exército em seu país, com salário regular, estabilidade e casa própria, ela precisou mudar para o Brasil em busca de um marcapasso. Diagnosticada com bradicardia sinusal extrema, com o coração batendo a apenas 30 pulsações por minuto, Yolanda precisava urgentemente do aparelho que, segundo ela, não estava disponível na rede de saúde venezuelana, “Me falaram que eu podia ter morte súbita a qualquer momento”, conta. “E não conseguiam o aparelho por nenhum lado.”
Ela deixou para trás seus oito filhos, o cargo no Exército e a casa onde vivia. Veio sozinha. “Eu achava que não ia chegar viva no Brasil. Pedi a Deus que me deixasse chegar.”
Chegou. Mas a vida lhe reservava outro capítulo improvável, o diagnóstico não foi confirmado ao cruzar a fronteira. Assim que entrou por Roraima, dona Yolanda foi para um abrigo da Operação Acolhida. E ali viveu o primeiro choque. “Quando os médicos me viram, falaram que eu não tinha nada. Que meu coração estava completamente são”, diz.
O alívio durou pouco: os sintomas persistiam. Cansaço extremo, tonturas, dores, falta de ar. “Eu caminhava e caía. Eu sabia que tinha algo errado”.
De Roraima, foi encaminhada a São Paulo. Procurou cardiologistas. A resposta se repetiu: os exames não mostravam nada. “Três médicos disseram que eu estava normal. Mas eu não estava normal.” Sem tratamento e sem condições de pagar aluguel na capital paulista, acabou indo para Londrina, onde tinha conhecidos. Era para ser uma passagem curta. Tornou-se destino definitivo.
Já instalada no Flores, Yolanda continuou buscando atendimento. Repetiu exames. Os médicos disseram que o coração estava perfeito. Quinze dias depois, quando foi visitar uma neta no Hospital Infantil de Londrina, ela teve o que chama de “morte súbita”. Foi em dezembro de 2023. “Eu estava conversando com uma enfermeira, contei para ela que tinha vomitado meio balde de sangue no dia anterior. De repente, apaguei.”
Com parada cardíaca, dona Yolanda foi levada para a Santa Casa, onde ficou 19 dias e finalmente ganhou o seu marcapasso.
O medo de ficar sem casa
A possibilidade de ter de deixar suas casas, é um pesadelo que atormenta todas as famílias do Flores do Campo. Ainda mais as venezuelanas que tiveram de deixar seu país para ganhar um pouco de estabilidade na vida. “Eu tenho muito medo por causa da minha idade. Vou completar 65 anos em maio”, conta dona Yolanda. Tendo dado baixa no Exército ela hoje vive com Bolsa Família no Brasil. “Vou arrumando minha casa como posso, tentando deixar ela bonitinha. Tenho pavor de ir parar na rua.”
“É uma agonia (o processo de reintegração)”, diz Sorelis. “Tenho medo de ficar na rua. Eu gosto daqui. Aqui eu me sinto como na Venezuela. Tenho minha freguesia, minhas vendas. Se a gente for para outro lugar, pode até ser bom, mas não vai ser igual.” Ela diz ter fé em Deus que vai poder ficar no Flores.
Assim como os demais venezuelanos, ela não pensa em voltar para seu país nem mesmo que o regime mude. “Não. Não penso em voltar. Pode até melhorar, mas vai demorar. Eu penso nos meus filhos.” Ela compara a vida escolar das crianças: “Aqui tem escola boa, uniforme, comida boa. Na Venezuela você tem que dar dinheiro para conseguir educação.”
Embora tenha casa na Venezuela, Yanetzi também não pensa em voltar. “Eu não quero que meus filhos passem pelo que eu vivi. Lá é muito difícil. O futuro deles está aqui.”
Desde a semana passada, o Plural tenta saber a quantas anda o processo de reintegração da área com a Prefeitura de Londrina e a Caixa, mas ainda não conseguiu entrevistas nem informações por meio de nota à imprensa.