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Paraná tira R$ 156 mi da educação para pagar militares em escolas

Entre 2021 e 2025, a educação do Paraná gastou R$ 156,2 milhões com a gratificação (GESICM) de policiais e bombeiros da reserva nos colégios cívico-militares. O custo triplicou desde 2023

Paraná tira R$ 156 mi da educação para pagar militares em escolas
Cerimônia de lançamento do programa de Escolas Cívico-militares. Foto: AEN

Entre 2021 e 2025, o governo do Paraná destinou R$ 156,2 milhões do orçamento da educação ao pagamento de militares que trabalham nos colégios cívico-militares. O dinheiro corresponde à GESICM — Gratificação Especial pelo Serviço do Inativo dos Integrantes do Colégio Cívico-Militar —, paga pela Secretaria de Estado da Educação (Seed) a policiais militares e bombeiros da reserva que atuam como monitores e diretores nas escolas. Eles são aposentados: a gratificação é paga por cima da aposentadoria que já recebem, em vínculo à parte.

O gasto cresceu de forma acelerada. Foi de R$ 7,6 milhões em 2021, ano de implantação, para R$ 18,3 milhões (2022), R$ 20,7 milhões (2023), R$ 52,7milhões (2024) e R$ 56,9 milhões (2025). Só de 2023 para 2024 mais que dobrou:o número de militares pagos saltou de cerca de 550 para 900, e a gratificação subiu de R$ 3,5 mil para R$ 5,5 mil mensais. Em junho de 2025, 857 militares recebiam aGESICM — 781 monitores e 76 diretores.

Um gasto que o orçamento não mostra

O mais difícil de explicar não é o tamanho do gasto, e sim a sua ausência dos documentos onde ele deveria estar. As Leis Orçamentárias de 2021 a 2026 foram verificadas termo a termo: nenhuma nomeia o programa. As buscas por "GESICM",por "CMEIV" — a sigla do corpo de militares inativos — e por "cívico-militar" não retornam nenhuma dotação. Não há programa, não há ação, não há uma linha de despesa com o nome do programa que hoje custa quase R$ 57 milhões por ano à educação.

A invisibilidade se repete no detalhamento da despesa. Na Consulta Detalhada do Portal da Transparência, o orçamento da Seed é aberto até o nível de subelemento —o degrau mais fino da classificação. Ali, os elementos reservados a pessoal militar (vencimentos e vantagens de militares) somam R$ 0,00 dentro da educação. Ou seja: embora quem receba sejam policiais e bombeiros, o pagamento não é classificado como despesa militar. Entra como pessoal civil, diluído em rubricas genéricas. E não existe, em nenhum dos subelementos de pessoal da Seed, uma linha chamada "GESICM", "cívico-militar" ou "monitor voluntário".

O resultado é um gasto que só pode ser reconstruído por fora do orçamento — na folha de pagamento individual do Estado, mês a mês, cruzando o código de cada vínculo com o cadastro funcional. É esse cruzamento que permite chegar aos R$ 156,2milhões.

De onde sai, e para quem

O cadastro funcional do Executivo estadual confirma de onde vem o dinheiro. Os monitores e diretores dos colégios — 1.497 vínculos com o cargo de "Militar Voluntário Monitor" ou "Militar Voluntário Diretor" — estão 100% lotados na Secretaria da Educação. Nenhum deles aparece na Segurança Pública. Há, em separado, um braço de 307 "operadores de segurança pública" ligados à Secretaria da Segurança (Sesp), pagos pelo orçamento da segurança — um programa distinto, que não se confunde com os monitores das escolas.

As entregas do programa, quando aparecem, vêm agrupadas. No Demonstrativo de Execução Física do Orçamento de 2024, dentro da ação genérica 8466 – "Fortalecimento da Gestão Escolar", o governo registra ter contratado 678 policiais militares da reserva naquele ano — previa 337 — e distribuído 315 mil uniformes. Mas a mesma ação mistura o cívico-militar com outras iniciativas, e o valor não isola o custo do programa. As contratações informadas, porém, coincidem com o que a folha mostra.

Se não aparece no orçamento, como sabemos que o dinheiro vem da educação?

Uma coisa é o gasto ser invisível na contabilidade — sem programa, ação ou rubrica com o nome do programa na Lei Orçamentária. Outra é a origem do dinheiro, que está documentada em quatro pontos independentes:

O que os dados públicos não mostram é o empenho por fonte de recurso — de qual receita da educação sai —, porque a despesa não é itemizada.

Mais que um professor temporário

A gratificação de R$ 5,5 mil mensais paga a cada militar — adicional à aposentadoria — supera a remuneração de boa parte dos professores da rede. Um professor temporário ganhou, em média, R$ 4,7 mil por mês em 2025, e o vencimento-base de um concursado é de cerca de R$ 3,4 mil. A comparação entre a valorização dos militares e a perda salarial do magistério foi tema de reportagem anterior do Plural.

Como apuramos: Os valores vêm dos arquivos de remuneração individual do Poder Executivo do Paraná (Portal da Transparência → Pessoal → Remuneração), de janeiro de2021 a dezembro de 2025, cruzados com o cadastro funcional pelo código devínculo. Os militares dos colégios foram identificados pelo quadro funcional CMEIVe pelos cargos "Militar Voluntário Monitor" e "Militar Voluntário Diretor", lotados na Seed; o gasto de cada ano é a soma exata dos doze meses. A ausência do programa no orçamento foi verificada nas Leis Orçamentárias de 2021 a 2026 e na Consulta Detalhada da Despesa (fonte SIAF), órgão 41 – Educação, até o nível de subelemento. As contratações e uniformes constam do Demonstrativo de Execução Física e Financeira de 2024 (ação 8466). Todos os documentos são públicos.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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