Era madrugada de 12 de julho quando Bernardo Rodrigues Diegro, cacique da Aldeia Yvyju Avary, no município de Guaíra, foi acordado por um primo. O parente anunciava uma tragédia. O filho de Bernardo, Everton Lopes Rodrigues, de 21 anos, tinha sido assassinado.
Everton saiu para jogar futebol no final da tarde do sábado (11), mas não voltou para casa. Ele foi morto com requintes de crueldade. Sua cabeça e corpo foram separados e encontrados cerca de 150 metros de distância um do outro. Ambos estavam em um milharal na entrada da aldeia. No local foram encontrados uma motocicleta abandonada e um bilhete que trazia ameaças à aldeia e também à Força Nacional de Segurança (FNSP), que atua na região desde agosto de 2024.
Mais de um mês depois do crime, a família e a aldeia ainda aguardam respostas da Polícia Civil e da Polícia Federal. Ninguém sabe em que pé andam as investigações.
A família do Cacique Bernardo é da etnia Avá-Guarani e mora desde 2023 em uma retomada na Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá, no oeste paranaense. Segundo o pai, Everton era tranquilo. Morava sozinho em uma casa na aldeia, tinha uma roça e animais de criação.
“Meu filho vivia com a gente aqui na retomada Yvyju Avary. Ele tinha sua casa, vivia bem tranquilo. Não era uma pessoa de bebida, nunca foi brigado com ninguém. Queríamos saber porque aconteceu isso com ele”, questiona o cacique.
Mais de um mês depois do crime os indígenas ainda buscam respostas. “Até hoje não apareceu nada, não tem nenhuma declaração ou informação transparente da polícia. Espero que a justiça seja feita, que a PF nos traga justiça neste momento”, pede Bernardo.
O último mês foi de incertezas e muita tensão. O cacique ainda teme pela segurança de sua família e dos outros indígenas da aldeia. “Depois do assassinato do Everton ficamos com muito medo. Até carta foi deixada no local do crime, em cima da cabeça dele. Ameaçaram nossas crianças, o transporte escolar. Precisamos proteger nossas famílias, proteger nossa vida. A gente não tem coragem de sair pra rua, não consegue nem dormir”, desabafa.

A carta, deixada ao lado da cabeça de Everton, traz ameaças aos indígenas. De texto confuso, ela tenta associar o crime e os Guaranis à facção Primeiro Comando da Capital (PCC).
“Estamos dispostos para eliminar qualquer um que atravessar o nosso caminho, principalmente quem pertence ao PCC. Nós sabemos que vocês paraguaios que diz ser indígena, são aliados do nosso principal inimigo, que é o PCC. Se vocês não desocupar [sic] as terras recém invadidas, nós vamos matar mais de vocês, iremos invadir as aldeias já existentes, atacaremos os ônibus com vossas crianças dentro, queimaremos vivos. Não é uma ameaça vazia, mas, sim, recheada de ódio”, diz o documento assinado pelo “Bonde 06 do N.C.S.O.”.
A carta reivindica a autoria de outro homicídio brutal, o do indígena Marcelo Ortiz, de 33 anos, também decapitado e encontrado em março passado em uma estrada rural de Guaíra. Mas na época, a Polícia Federal prendeu três indígenas suspeitos de terem cometido o crime.
Para uma liderança Avá-Guarani da região, ouvida pelo Plural sob a condição de anonimato, associar os indígenas ao PCC é uma estratégia do agronegócio. “Eles sempre fizeram isso. Os fazendeiros da região tentam associar os indígenas ao crime organizado, para desvalorizar nossa luta e justificar a violência que sofremos. E as ameaças que fizeram nesta carta têm o objetivo de abalar emocionalmente as aldeias. Quer ameaça maior do que dizer aos pais que vai matar seus filhos, suas crianças?”, indaga sobre a promessa de ataque ao transporte escolar feita na carta.
O Plural entrou em contato com a Polícia Civil do Paraná para saber se o inquérito da morte de Everton está sob sua responsabilidade. A assessoria de imprensa respondeu apenas: "Orientamos verificar com a Polícia Federal".
Segundo o Delegado Lawrence Guimarães, da Polícia Federal em Guaíra, "a Polícia Federal entrou no caso em momento posterior ao fato, tendo em vista que a Polícia Civil realizou as primeiras diligências e somente após decisão judicial emanada da 1ª Vara Federal de Guaíra/PR, afirmando sua competência, e em consequência a atribuição da PF, é que o caso foi distribuído".
Violência crescente
As comunidades Avá-Guarani que habitam a região oeste do Paraná vivem na Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá e na Terra Indígena Tekoha Guasu Okoy Jakutinga. Ambas estão localizadas nos municípios de Guaíra, Terra Roxa e Altônia. Elas fazem parte do território tradicionalmente ocupado pelos Avá-Guarani que não foi submerso pelo reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu em 1982.

Na Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá vivem hoje, segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 4.171 pessoas. Sendo 3.016 pessoas no município de Guaíra e 1.085 no município de Terra Roxa.
A Terra Indígena está sobreposta por 165 fazendas. Ela ainda está sob um processo de demarcação. Porém, há uma liminar na Justiça Federal que impede seu andamento. Nos últimos anos, no entanto, as comunidades Guaranis foram retomando espaços dentro da terra identificada, ampliando as unidades locais ou retomando novas terras.
Essas ampliações e retomadas se intensificaram no final de 2023 e resultaram no aumento do território sob posse das comunidades, somando um total de 736 hectares, sendo 389 em Guaíra e 347 em Terra Roxa. Porém, ainda é uma fração mínima dos 24 mil hectares a que os Avá-Guaranis têm direito depois que suas terras foram inundadas na década de 1980.
Com as retomadas vieram os ataques promovidos por fazendeiros da região. Eles aconteceram durante vários meses de 2023, incluindo investidas feitas na véspera de Natal. Em 29 de dezembro daquele ano, plantações e barracos da comunidade foram queimados; no dia 31, duas horas antes do réveillon, novas áreas foram queimadas e um indígena foi baleado no braço.
A partir dos ataques, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) enviou para a região a Força Nacional em agosto do ano passado, mas isso não impediu que a violência continuasse. O Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC) incluiu 19 lideranças Avá-Guarani no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH).
Em outubro de 2024, no Tekoha Yvyju Awary, também em Guaíra, a liderança da comunidade foi atingida a pauladas na cabeça, tendo levado diversos pontos e inúmeras escoriações pelo corpo, por reclamar do fazendeiro que quebrou o acordo feito numa audiência com o mediador de conflito indicado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Neste ataque, até o cachorro da comunidade foi morto a sangue frio.
O relatório “Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil- 2024”, do Conselho Indigenista Missionário, destaca que no Paraná, os indígenas que mais sofreram ataques foram no ano passado foram os Avá-Guarani de Guaíra.

Acordo com Itaipu começa a reparar divida histórica
Em março de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) homologou um acordo emergencial para a compra de 3 mil hectares de terra para os Avá-Guarani da Tekoha Guasu Guavirá. A compra, no valor de R$ 240 milhões, será feita com recursos da Itaipu Binacional como forma de reparação pela formação do reservatório da usina, na década de 1980.
Segundo a Itaipu, as novas áreas serão destinadas a 31 comunidades situadas nas terras indígenas Tekoha Guasu Guavirá e Tekoha Guasu Okoy Jakutinga, distribuídas em São Miguel do Iguaçu, Itaipulândia, Santa Helena, Terra Roxa e Guaíra.
Na última semana, aproximadamente 60 famílias Avá-Guarani se deslocaram para uma área adquirida pela Itaipu dentro da Fazenda Brilhante, no município de Terra Roxa. Segundo Fernando Prazeres, Desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná e Presidente da Comissão de Conflitos Fundiários do TJ, a Itaipu monitora várias áreas ofertadas para venda na região que servirão para o assentamento de famílias indígenas. “Aguardamos a conclusão dos laudos de avaliação para darmos início às mediações. O Incra se comprometeu a entregar todos os laudos até o dia 30/08”, afirma.