A crise das Lojas Americanas e a pandemia de Covid-19 fizeram mais duas vítimas entre as empresas tradicionais de Curitiba. A Barion e o Frigorífico Juliatto estão em recuperação judicial. Juntas, as duas empresas têm quase R$ 80 milhões em dívidas.
A recuperação judicial é um instrumento legal que permite, com respaldo da justiça, a renegociação de dívidas e a suspensão de execuções de dívidas vencidas. Quando aceito pela Justiça, o pedido de recuperação é acompanhado pela indicação de um administrador judicial e um plano de recuperação.
Com 65 anos, a Barion foi fundada em 1960 como uma distribuidora de doces na rua Trajano Reis. Em 1971, a empresa ampliou os negócios e passou a fabricar chocolates. Na mesma época criou um de seus principais produtos, o pão de mel. Na década seguinte, surgiu mais uma marca registrada da Barion: os tubetes de wafer.
Natural de São José dos Pinhais, o Frigorífico Juliatto foi fundado em 1967. Nas décadas seguintes, a empresa expandiu a atuação de Curitiba e região para outros estados como São Paulo, Rio de Janeiro.
Investimento às vésperas da pandemia
Em 2019, o Frigorífico Juliatto fez empréstimos para expandir a produção e passar a distribuir produtos em contratos com grandes varejistas como Makro, Condor, Carrefour, Wallmart, Muffato. A implantação começou pouco antes da declaração do Covid-19 como pandemia.
"Ocorre que meses após o início da implementação de aludida estratégia comercial, eclodiu a Pandemia de Covid-19 (em meados de março de 2020), ocasionando impactos diretos nas atividades do Frigorífico Juliatto que, apesar da essencialidade de sua atividade econômica oriunda da produção de alimentos, manteve-se em operação com restrições legalmente impostas".
Relato incluído no pedido de Recuperação Fiscal
A empresa teve dificuldade para fazer as entregas de produtos para os supermercados e acabou com problemas de caixa, aumentando o endividamento.
No pedido de recuperação, a empresa declarou R$ 45.613.072,00 em dívidas. O pedido foi deferido em 21 de janeiro de 2025 e prevê um plano de recuperação de 20 anos, com amortização anual de 2% das dívidas nos primeiros cinco anos. As medidas aprovadas pela Justiça são:
• Concessão de prazos e condições especiais para pagamento das obrigações
vencidas ou vincendas;
• Equalização de encargos financeiros indexados sobre o saldo das dívidas;
• Aumento do capital social com integralização dos bens imóveis operacionais,
ressalvados os limites das garantias fiduciárias válidas, mediante constituição de
alienação fiduciária parcial;
• Dação em pagamento ou novação de dívidas, com ou sem constituição de
garantia de terceiros (sócios);
• Venda parcial de bens;
• Constituição de sociedade de propósito específico para adjudicar, em
pagamento dos créditos, ativos da Recuperanda ou de terceiros;
• Criação de cláusulas de credor colaborativo com objetivo de fomentar a
operação pós pedido de recuperação judicial;
• Captação financeira de recurso para aquisição de matéria-prima;
• Redução de custos e despesas;
• Reestruturação dos setores de controladoria e pricing
Crise da Americanas e outras falências
Na Barion, a crise da Americanas e a recuperação do Dia Supermercado agravaram os problemas de caixa da empresa, indica o pedido de recuperação judicial feito em fevereiro de 2025. O início dessa fase aconteceu em 2023, quando começou o processo de recuperação das Americanas.
A fábrica era fornecedora das duas empresas e como consequência do processo de recuperação de ambas, teve adiado o pagamento dos produtos fornecidos, estimado em R$ 2,6 milhões. Além disso, outros R$ 600 mil de produtos que seriam entregues às empresas deixaram de ser vendidos.
Na pandemia a Barion lançou um site de e-commerce da marca, o que teria ajudado a manter o desempenho das vendas de forma satisfatória.
"Os anos de 2021 e 2022 foram impactados por altos valores dos insumos, dificultando o repasse de preço ao consumidor final, especialmente para uma empresa de médio porte, que acaba sendo pressionada de um lado pelos grandes fornecedores e, do outro, por clientes maiores", relata a empresa.
O pedido de recuperação veio depois da empresa registrar R$ 22 milhões de prejuízo em 2024.
Com 331 funcionários, a empresa estima em R$ 34,4 milhões o volume de dívidas a serem renegociadas. Segundo o relatório da administradora judicial, a empresa tem somente R$ 4 mil em dívidas trabalhistas. A maior parte das dívidas é de credores sem garantia. Outros R$ 2,4 milhões são com micro e pequenas empresas.
O que acontece com as empresas?
Sob recuperação judicial, as empresas passam a ser geridas por um administrador indicado pela Justiça e devem seguir o plano de recuperação aprovado pela Justiça. O administrador também publica regularmente um relatório atualizando o andamento da recuperação e publica editais para a realização de leilões de quitação de dívidas.
Por lei, o plano de recuperação estabelece uma fila de prioridades no pagamento das dívidas. As dívidas trabalhistas, por exemplo, são prioridade.
