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Em carta aberta, Toni Reis rebate vídeo de bolsonaristas sobre "ideologia de gênero"

Pré-candidatos atacam Grupo Dignidade e prometem "denunciar" emendas legais ao Ministério Público

Em carta aberta, Toni Reis rebate vídeo de bolsonaristas sobre "ideologia de gênero"
Toni Reis, fundador do Grupo Dignidade / Foto: Agência Senado
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O fundador do Grupo Dignidade, Toni Reis, divulgou uma carta aberta para rebater o vídeo em que o vereador de Curitiba João Bettega (PL) e o advogado criminalista Jeffrey Chiquini fazem uma "denúncia" sobre a presença da "ideologia de gênero" em escolas do Paraná. No vídeo, os dois prometem "denunciar" ao Ministério Público o repasse legal de recursos para atividades de inclusão em escolas.

Segundo os apoiadores do ex-presidente e condenado Jair Bolsonaro, o livro "Transformar", classificado por Chiquini como uma "desgraça", está sendo distribuído em 11 escolas estaduais, que não tiveram seus nomes divulgados. Bettega citou o Grupo Dignidade, que teria recebido R$ 1 milhão via emendas parlamentares.

Paranaenses, vocês sabiam que nós não estamos a salvos (sic) da ideologia de gênero nas nossas escolas?
Jeffrey Chiquini, advogado

Eles responsabilizaram os deputados federais Carol Dartora (PT-PR), Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Luciano Ducci (PSB-PR) pelas emendas. Além dos parlamentares e do grupo Dignidade, não faltaram ataques à UFPR e à Itaipu. Chiquini prometeu "expurgar esse lixo do PT e da esquerda do nosso Paraná". Para Bettega, Toni Reis é "um LGBT que foi homenageado, inclusive, na Câmara de Curitiba, uma homenagem proposta também pela esquerda".

"Os pais simplesmente matriculam os filhos nas escolas, os filhos recebem esses materiais, e os pais, às vezes, nem sabem que os filhos tiveram acesso a esse tipo de literatura (sic)."
João Bettega, vereador

Por fim, Bettega diz que revelará os nomes das 11 escolas para quem entrar com contato pelo WhatssApp, por meio de um link disponibilizado nos comentários – o que pode caracterizar uma boa estratégia para armazenar contatos e promover disparos de propaganda eleitoral em massa durante a campanha.

Pré-candidatos Chiquini e Bettega só divulgam os homes das escolas para quem mandar mensagem no WhatsApp (Reprodução)

"Ideologia de gênero" não tem definição

Em carta aberta divulgada nesta terça-feira (9 de junho), Toni Reis afirmou que as emendas citadas são legais e estão disponíveis no portal da transparência do governo federal.

Reis, que é doutor em Educação, disse que a expressão "ideologia de gênero" sequer é reconhecida como teoria ou doutrina.

De modo geral, a expressão é utilizada para atribuir aos movimentos LGBTI+, feministas e de direitos humanos a intenção de destruir a família, enfraquecer as religiões ou impor comportamentos às pessoas. Não reconhecemos essa descrição na realidade dos movimentos sociais que acompanhamos e dos quais participamos.

O ativista lembrou que a violência contra a população LGBTI+ não é abstrata e pediu honestidade no debate público.

Peço apenas que o debate público seja conduzido com honestidade intelectual, respeito às pessoas e compromisso com os fatos verificáveis. Divergências são legítimas; a desinformação, a distorção dos fatos e a desqualificação pessoal não fortalecem a democracia.
Toni Reis

Carta Aberta a João Bettega e Jeffrey Chiquini

Prezado João Bettega, pré-candidato, prezado Jeffrey Chiquini, pré-candidato,

Assisti atentamente ao vídeo produzido por vocês e ao qual tive acesso no sábado, 6 de junho de 2026. Seu conteúdo foi analisado sob os aspectos político, jurídico, institucional e pessoal. Por essa razão, decidi responder de forma pública, respeitosa e transparente — valores que orientam minha trajetória de vida e minha atuação em defesa dos direitos humanos.

Tenho 62 anos de idade e há mais de 43 anos dedico minha vida à sociedade civil organizada. Minha caminhada começou em Curitiba, no Paraná, e se estendeu por todo o Brasil, bem como por espaços internacionais de promoção dos direitos humanos.

Ao longo dessa trajetória, procurei aliar a experiência prática ao estudo permanente. Sou graduado em Letras, Pedagogia e História, tendo iniciado recentemente uma nova graduação em Filosofia. Possuo especializações em Sexualidade Humana e Administração de Conflitos, mestrado em Filosofia, doutorado em Educação e dois pós-doutorados em educação, um voltado à legislação e diversidade e outro às políticas públicas.

Menciono essa trajetória acadêmica não como argumento de autoridade, mas porque ela ajudou a moldar minha forma de compreender o mundo. Aprendi que divergências devem ser enfrentadas por meio do estudo, da análise crítica, da ciência, da filosofia e da arte da argumentação, sempre com disposição para o diálogo e respeito às evidências.

Ao longo dessas décadas, dialoguei com pessoas dos mais diversos campos ideológicos, religiosos e partidários. Sempre acreditei que a democracia se fortalece pelo debate respeitoso, pela convivência com as diferenças e pelo compromisso com os fatos.

Ao longo de mais de quatro décadas de ativismo, tive a honra de colaborar na criação, fortalecimento e apoio de dezenas de organizações da sociedade civil em todo o Brasil. Minha vida pública sempre foi pautada pela transparência. Moro há mais de três décadas no mesmo apartamento em Curitiba, mantenho uma vida simples e todas as minhas atividades institucionais podem ser acompanhadas por meio das organizações das quais participo e das minhas redes sociais.

Nunca busquei enriquecimento, privilégios ou benefícios pessoais por meio da militância social. Minha motivação sempre foi contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e respeitosa com todas as pessoas.

Sobre a atuação jurídica do movimento LGBTI+

Sim, participamos de ações judiciais e de processos na condição de amicus curiae perante o Supremo Tribunal Federal. Continuaremos utilizando todos os instrumentos democráticos e constitucionais disponíveis para defender direitos fundamentais e questionar normas que entendemos incompatíveis com a Constituição Federal.

Essa atuação ocorre dentro dos princípios da legalidade, da ética, da transparência e do Estado Democrático de Direito. Recorrer ao Poder Judiciário não representa qualquer irregularidade; trata-se de um direito assegurado a todas as cidadãs e todos os cidadãos brasileiros, bem como instituições da sociedade civil.

Da mesma forma, continuaremos apresentando propostas legislativas, dialogando com parlamentares de diferentes partidos e defendendo que as leis sejam construídas dentro dos marcos constitucionais.

Sobre os recursos públicos e a transparência

Também considero necessário esclarecer informações que foram apresentadas de forma incorreta no vídeo.

Todas as emendas parlamentares destinadas às instituições das quais participo foram executadas dentro das normas legais e podem ser verificadas nos mecanismos oficiais de transparência do Governo Federal.

Os recursos recebidos tiveram objetivos claros e públicos, voltados à promoção da cidadania, da empregabilidade, da inclusão social, ao combate à violência, ao enfrentamento da discriminação, à prevenção do discurso de ódio e à promoção dos direitos humanos.

Temos absoluto compromisso com a integridade, a transparência e a correta aplicação dos recursos públicos. Em um Estado Democrático de Direito, a fiscalização e o controle social são fundamentais, razão pela qual todas essas informações estão disponíveis para consulta pública.

Acredito que uma sociedade democrática se fortalece quando o debate público é baseado em fatos verificáveis, honestidade intelectual, transparência institucional e responsabilidade com a verdade.

Sobre a chamada "ideologia de gênero"

A expressão "ideologia de gênero" é amplamente utilizada no debate político e ideológico, mas não possui reconhecimento consolidado na produção científica contemporânea como uma teoria ou doutrina específica. Em minha trajetória acadêmica, tenho estudado criticamente a origem e o uso desse conceito.

De modo geral, a expressão é utilizada para atribuir aos movimentos LGBTI+, feministas e de direitos humanos a intenção de destruir a família, enfraquecer as religiões ou impor comportamentos às pessoas. Não reconhecemos essa descrição na realidade dos movimentos sociais que acompanhamos e dos quais participamos.

Sou católico apostólico romano. Minha fé foi construída pelos ensinamentos recebidos de minha mãe e de minha avó e continua sendo uma dimensão importante da minha vida.

Ao longo dos anos, dialoguei com lideranças religiosas de diversas correntes e participei de debates públicos com representantes de diferentes visões religiosas de mundo. Sempre procurei defender minhas posições com firmeza, mas também com respeito e disposição para o diálogo.

Minha vivência religiosa não é apenas uma declaração de identidade. Eu e meu esposo, David Harrad, batizamos nossas três crianças na Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, em Curitiba. Na ocasião, recebemos uma correspondência do Vaticano parabenizando nossa atuação em defesa da dignidade humana e da cidadania. Essa manifestação foi tornada pública e pode ser consultada por quem desejar conhecê-la.

Minha experiência de fé me ensinou que o respeito à dignidade humana, a solidariedade e o amor ao próximo são valores que fortalecem a convivência democrática e a construção de uma sociedade mais justa.

Sobre as famílias

Gostaria ainda de registrar um aspecto importante da minha vida pessoal, frequentemente ignorado por aqueles que tentam construir narrativas sobre quem sou.

Sou casado há 36 anos com David Harad. Nossa história é baseada nos mesmos valores que sustentam milhões de famílias brasileiras: amor, compromisso, responsabilidade, solidariedade e cuidado mútuo.

Por essa razão, sempre fui um defensor intransigente de todas as formas de família. Respeito profundamente a família tradicional curitibana, paranaense e brasileira, assim como as múltiplas configurações familiares presentes na sociedade contemporânea.

Segundo estudos de pesquisadores da família e da antropologia social, entre eles Petzold, existem dezenas e até centenas de configurações familiares identificadas em diferentes culturas e períodos históricos. Independentemente da forma que assumam, acredito que todas as famílias que promovam afeto, proteção, responsabilidade e dignidade merecem respeito e reconhecimento.

O que jamais pode ser tolerado, em qualquer modelo familiar, é a violência, o abuso, o abandono ou qualquer forma de violação da dignidade humana.

Defender diferentes formas de família não significa atacar a família tradicional. Ao contrário, significa afirmar que toda família baseada no respeito, no cuidado e na responsabilidade merece proteção.

Sobre a violência contra pessoas LGBTI+

Diversas pesquisas nacionais e internacionais demonstram que pessoas LGBTI+ continuam sendo vítimas de preconceito, discriminação, bullying e violência.

Essa realidade não é abstrata para mim. Quando criança e adolescente, fui chamado de "viadinho", "bicha" e outros termos ofensivos. Sofri humilhações, agressões e exclusões. Cresci no interior do Paraná e conheço profundamente o sofrimento causado pelo preconceito.

Talvez quem nunca tenha vivido essa experiência tenha dificuldade em compreender a profundidade dessas marcas. Mas elas existem e continuam atingindo milhões de brasileiros.

Quando participamos de atividades educacionais em escolas, universidades e instituições públicas, não estamos ensinando orientação sexual ou identidade de gênero às crianças. Estamos apresentando dados, pesquisas e reflexões sobre cidadania, respeito às diferenças, combate ao bullying e prevenção da violência.

Nosso objetivo é simples: contribuir para que nenhuma criança ou adolescente precise enfrentar o sofrimento que tantas pessoas da minha geração enfrentaram.

Sobre as medidas cabíveis

As pessoas e instituições mencionadas no vídeo estão avaliando os fatos e decidirão, de forma autônoma, quais providências consideram adequadas.

Em uma democracia, divergências devem ser tratadas pelos meios legítimos previstos em lei. O Poder Judiciário existe justamente para garantir que situações de agravo pessoal ou institucional sejam analisadas com imparcialidade, respeito ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal.

Considerações finais

Reafirmo minha disposição permanente para o diálogo democrático. Continuarei defendendo a democracia, os direitos humanos, a liberdade religiosa, a liberdade de expressão, o respeito às diferenças e a dignidade de todas as pessoas.

Desejo que o processo eleitoral transcorra dentro dos princípios da ética, da responsabilidade e do compromisso com a verdade.

Antes de concluir, gostaria de reafirmar um princípio que sempre orientou minha trajetória pública.

Não peço que todos concordem com minhas ideias, minhas posições ou minhas convicções. A pluralidade de opiniões é parte essencial da democracia.

Peço apenas que o debate público seja conduzido com honestidade intelectual, respeito às pessoas e compromisso com os fatos verificáveis. Divergências são legítimas; a desinformação, a distorção dos fatos e a desqualificação pessoal não fortalecem a democracia.

Que possamos construir um ambiente político em que prevaleçam os argumentos, a ética, a verdade, o respeito mútuo e a vontade soberana do povo brasileiro.

Atenciosamente,

Toni Reis

Professor e Doutor em Educação

Ativista de Direitos Humanos

Fundador do Grupo Dignidade e da Aliança Nacional LGBTI+

Cidadão Honorário de Curitiba

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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