Quando uma árvore está no caminho de uma obra, existe uma alternativa ao corte: o transplante — retirar o exemplar com as raízes e replantá-lo em outro lugar, mantendo a árvore viva. Em Curitiba, a “capital ecológica”, essa alternativa é rara a ponto de quase não existir.
Levantamento do Plural com as autorizações de corte e poda julgadas pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) entre 2019 e 2026 mostra a proporção: foram 13.413 árvores liberadas para corte contra 639 para transplante — uma razão de 21 para 1. Dito de outro jeito: para cada árvore que a cidade se dá ao trabalho de mudar de lugar, outras 21 vêm abaixo.
Corte × transplante
Árvores autorizadas em toda a série. Cada quadrado = uma árvore para cada 100 autorizadas.
Fonte: SIMA/Prefeitura de Curitiba. Análise: Plural.
A opção sequer entra na conversa na maioria dos casos. Das 4.362 decisões com parecer detalhado, apenas 58 mencionam transplante — cerca de 1,3%. No mesmo conjunto, o corte aparece em 2.524. O transplante não é o plano B: é a exceção da exceção.
Nem nos anos de pico
O desequilíbrio se mantém ano a ano. Em 2024, o melhor ano para o transplante de toda a série, a SMMA autorizou mover 398 árvores — enquanto liberava o corte de 4.991. Em 2025, a distância voltou a se abrir: 217 transplantes contra 5.213 cortes.
Árvores autorizadas por ano: corte × transplante
A barra do transplante quase some ao lado da do corte — e essa é a história.
Fonte: SIMA/Prefeitura de Curitiba. Contagem padronizada a partir de 2023; 2026 até julho. Análise: Plural.
Quando acontece, costuma ser por causa de obra grande
O punhado de transplantes que sai do papel está, com frequência, ligado a grandes obras públicas: de cada cinco decisões que citam a técnica, uma menciona expressamente viabilizar intervenções como o BRT Leste/Oeste ou o corredor Inter 2. São casos em que a própria magnitude e o custo da obra parecem justificar o esforço de preservar as árvores — algo que raramente se estende ao pedido de um lote particular.
Há exemplos de que é possível. Numa das maiores operações do tipo, a Secretaria autorizou o transplante de 71 árvores nativas de pequeno porte, cortando apenas 8 exóticas invasoras — o inverso da regra geral. Mas são pontos fora da curva.
O transplante não é solução mágica: mudar uma árvore adulta de lugar é caro e nem sempre ela sobrevive. Ainda assim, é a ferramenta que o próprio município lista como alternativa ao corte — e que, pelos números, praticamente não tira da gaveta.
Como apuramos — Os dados vêm do sistema SIMA da Prefeitura de Curitiba, de publicação obrigatória desde 2020 (Lei Municipal 15.376/2019), coletados em 2026. Os números de corte e transplante são extraídos do texto das decisões e, portanto, representam um piso: só entram as autorizações cujo parecer informa a quantidade, e a contagem padronizada existe de 2023 em diante. Não estão incluídas remoções em via pública pela Central 156 nem quedas e emergências.