"Te pago 20% a mais, mas você abre um CNPJ." A frase virou rotina em processos seletivos de tecnologia, comunicação, saúde e serviços. A promessa parece boa: sem o desconto do INSS na fonte, sem imposto de renda mordendo o contracheque todo mês, o valor que cai na conta é maior. Mas a pergunta que quase ninguém faz com uma calculadora na mão é simples: quanto a mais, exatamente, uma proposta PJ precisa oferecer para de fato compensar a troca?
A resposta curta é que não existe um número único. Ela depende, e muito, de quanto se ganha.
CLT ou PJ: quanto realmente compensa?
Preencha o salário de uma proposta CLT e o faturamento de uma proposta PJ. A calculadora estima o valor líquido anual de cada uma — já com 13º, férias, FGTS e impostos — e mostra o ponto de equilíbrio.
Carteira assinada
Benefícios (opcional)
Pessoa jurídica
Custos e provisões (opcional)
No Anexo III (Fator R) o pró-labore precisa ser ≥ 28% do faturamento. O INSS de 11% incide sobre o pró-labore, limitado ao teto.
Evolução acumulada em 5 anos
Quanto cada contrato acumula ao longo do tempo, com reajuste anual e o rendimento do FGTS somado ao lado CLT.
Valor líquido acumulado (R$) — anos
O lado CLT inclui o saldo do FGTS com rendimento; os valores PJ são o líquido recebido, antes de qualquer investimento. Se o profissional PJ investir o que sobra, o resultado dele melhora. A multa de 40% do FGTS não entra aqui (só é paga em caso de demissão).
Estimativa para fins de comparação. Usa tabelas de INSS e IRRF de 2025 (vigentes em 2026) e do Simples Nacional (Anexos III e V). 13º e férias líquidos são aproximados. Não considera ISS fora do Simples, distribuição de lucros isenta específica, nem particularidades de cada contrato. Consulte um contador antes de decidir.
O piso vai de 4% a mais de 40%
Para chegar ao chamado "ponto de equilíbrio" — o faturamento em que o PJ recebe, líquido, o mesmo que um CLT leva para casa no ano —, é preciso somar tudo o que a carteira assinada entrega além do salário: 13º, férias com o terço constitucional, o depósito mensal de 8% do FGTS e os descontos de INSS e Imposto de Renda que reduzem o líquido. Do outro lado, o PJ paga o imposto do Simples Nacional e os honorários do contador.
Rodando esse cálculo faixa a faixa, com as tabelas vigentes em 2025, o resultado é uma curva que desce:
| Salário CLT (bruto) | Valor líquido/ano (CLT) | Faturamento PJ para empatar | Quanto a mais |
|---|---|---|---|
| R$ 1.518 (mínimo) | R$ 21.576 | R$ 2.179/mês | +43,5% |
| R$ 2.500 | R$ 35.273 | R$ 3.393/mês | +35,7% |
| R$ 3.000 | R$ 41.907 | R$ 3.981/mês | +32,7% |
| R$ 5.000 | R$ 64.009 | R$ 5.941/mês | +18,8% |
| R$ 8.000 | R$ 93.906 | R$ 8.591/mês | +7,4% |
| R$ 15.000 | R$ 173.160 | R$ 15.653/mês | +4,4% |
| R$ 20.000 | R$ 229.918 | R$ 20.980/mês | +4,9% |
Simulação com Anexo III do Simples, honorários de contador de R$ 250 e sem benefícios adicionais. O FGTS foi contado como valor que pertence ao trabalhador.
O piso — o menor prêmio necessário — fica em torno de 4,4%, e aparece na faixa dos R$ 15 mil. Não é coincidência: é o ponto em que o faturamento anual ainda cabe na primeira faixa do Simples (alíquota de 6%) e, ao mesmo tempo, o Imposto de Renda já corrói uma fatia grande do salário CLT. Acima disso, o percentual volta a subir, porque o faturamento entra em faixas mais caras do Simples.
Na ponta oposta, quem ganha um salário mínimo precisaria faturar mais de 40% a mais como PJ só para empatar. O motivo é aritmético: nessa faixa, o CLT quase não paga imposto, então quase todo o salário é líquido — e ainda ganha 13º, férias e FGTS por cima. É muito difícil de superar.
Por que o número real é sempre maior que esse piso
Aqui está a parte que as propostas costumam esconder: o ponto de equilíbrio é só o começo da conta. Ele mede empate de dinheiro no bolso, mas ignora tudo o que a carteira assinada oferece e que não vem em forma de salário. É o caso da multa de 40% do FGTS paga em uma demissão sem justa causa e do seguro-desemprego, ao qual o PJ não tem direito. Também entram nessa conta as férias e o 13º garantidos por lei — afinal, o PJ que quiser "tirar férias" simplesmente deixa de faturar naquele mês —, além da licença médica, da licença-maternidade e da estabilidade em situações previstas em lei.
Há ainda a questão da previdência, já que o pró-labore mínimo do PJ recolhe pouco para a aposentadoria e o resto fica por conta da disciplina de cada um. Por fim, pesa a imprevisibilidade: o cliente que atrasa, o contrato que não renova, o risco de ficar sem nada de um mês para o outro.
Nada disso entra na tabela acima — e é por isso que contadores e planejadores financeiros costumam recomendar um prêmio bem maior do que o empate matemático. Na prática, para a maioria dos assalariados nas faixas mais comuns (entre R$ 2.000 e R$ 5.000), o piso de segurança para uma troca fazer sentido gira entre 20% e 35% a mais — e sobe se a proposta CLT incluir vale-refeição, plano de saúde ou participação nos lucros, benefícios que também precisariam ser replicados do próprio bolso.
E o tempo joga a favor de quem?
Há ainda um efeito de longo prazo que surpreende. Simulando cinco anos, com reajustes anuais dos dois lados, o PJ que começa exatamente no ponto de equilíbrio tende a abrir uma pequena vantagem com o passar do tempo — não porque ganhe muito mais, mas porque o FGTS rende cerca de 3% ao ano, menos do que os reajustes salariais. A "poupança forçada" da CLT, que parecia uma vantagem, cresce mais devagar que o resto.
A conclusão não é que PJ é melhor ou pior. É que a comparação honesta não cabe em uma frase de proposta. Quem ganha menos precisa exigir muito mais para trocar a segurança da carteira por um CNPJ. Quem ganha mais tem uma margem de manobra maior — desde que aceite abrir mão da rede de proteção.
Faça a conta do seu caso: a calculadora interativa abaixo compara qualquer salário CLT com qualquer proposta PJ, mostra o ponto de equilíbrio e projeta a evolução dos dois contratos em cinco anos.
Metodologia: os cálculos usam as tabelas progressivas de INSS e Imposto de Renda de 2025 (vigentes em 2026) e o Simples Nacional (Anexo III). O ponto de equilíbrio considera 13º, férias mais um terço e FGTS como valor que pertence ao trabalhador, sem benefícios adicionais e com custo de contador de R$ 250 por mês. São estimativas para comparação; cada contrato tem particularidades que só um contador avalia caso a caso.