Às vésperas de completar dois anos de pandemia de Covid-19, Curitiba vive um novo surto da doença com alta recorde de casos ativos e velhos problemas nos dados abertos. A principal: o alto índice de positividade nos testes de Covid-19. Neste mês de janeiro ele chegou a 41%, o maior valor desde o início da pandemia. A princípio esse valor indica que a cada 10 testes feitos, 4 deram resultado positivo. Especialistas, no entanto, apontam para uma análise mais reveladora.
"É o principal indicador que precisamos acompanhar", explica o coordenador da Rede Análise Covid, Isaac Schrarstzhaupt. Especialista em modelagem de dados, ele descreveu em artigo da Rede o índice de positividade como o "placar" da pandemia. No futebol, diz, "temos muitos indicadores, mas o padrão é o GOL. Basta ligarmos a televisão e olharmos para aquele pequeno placar no cantinho da tela e pronto. Sabemos o que importa a respeito do jogo. Depois, com calma, podemos acompanhar e, aí sim, entender quem teve a maior posse de bola, quem errou menos passes, quem aproveitou melhor as chances de gol. Mas o placar é aquele que imediatamente passa para quem está assistindo qual é a situação que mais vai afetar o jogo ao seu final".
O índice de positividade teria a mesma função. No entanto, desde o início da pandemia este tem sido um indicador negligenciado. Segundo Schrarstzhaupt, podemos interpretar o índice da seguinte forma:
"Positividade baixa: (de 1% a 2%): Neste caso, estamos em relativo controle da infecção, sabemos onde estão os casos, e temos de isolar os positivos e também seus contatos, para manter a positividade baixa;
Positividade em alerta (de 3 a 5%): Neste caso, percebemos que o surto está aumentando, e é necessário, além de um isolamento dos positivos e seus contatos, uma restrição mais firme em atividades que possam gerar risco".
Mas e quando o índice está muito acima de 5%? "Estamos testando pouco". Isso quer dizer que estamos deixando casos leves e assintomáticos sem acompanhamento das autoridades da saúde e potencialmente transmitindo para outras pessoas.
Mas quantos testes seriam necessários? Antes de mais nada é preciso melhorar os dados disponíveis. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informa que 1.013.692 testes PCR-RT e 160.177 antigeno foram realizados na cidade. "Este total inclui o sistema público e privado, no entanto alguns laboratórios que enviam resultados diretamente ao Ministério da Saúde via RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde) não estão compilados neste total", detalha.
A página, no entanto, só apresenta o total por mês sem diferenciar o tipo de teste e sem disponibilizar os dados em formato aberto (ou seja, quer quiser obtê-los para análise tem que usar alguma estratégia para raspá-los da página). O ideal, segundo Schrarstzhaupt, era contabilizar só os exames PCR-RT, que são o padrão ouro no diagnóstico da Covid.

Além disso, a SMS informa quantos testes foram feitos para 100.000 com base no total de exames, e não por mês em que eles foram realizados.
E quantos exames deveriam ser realizados? Muito mais do que está sendo feito. Neste mês de janeiro Curitiba realizou 516 exames para cada milhão de habitantes. Em Portugal, por exemplo, são feitos 23.779 a cada milhão de habitantes por dia, dos quais 3.467 têm resultado positivo (14%). Nos EUA, são realizados 7.003 testes por dia para 1.000.000 de habitantes com 30% de índice de positividade.
"Ao testar bastante, descobrimos onde estão os casos positivos, inclusive os assintomáticos. Ao isolar estas pessoas e seus contatos, acabamos reduzindo a taxa de transmissão, e diminuindo os novos casos. Ou seja: quanto mais testes, menos casos", aponta Isaac.
E em Curitiba? Fizemos um total de 35.675 testes (PCR-RT e antígeno) nos primeiros 12 dias de janeiro, que são os dados disponibilizadas pela SMS, dos quais 14.627 tiveram resultado positivo. Esse total já é superior ao de testes realizados durante todo mês de dezembro de 2021 (33.289), quando o índice de positividade era de 8%. Hoje, sem testes suficientes pessoas contaminadas continuam circulando na rua, em escritórios, transporte coletivo transmitido a doença e colocando em risco pessoas que ainda não se vacinaram - principalmente crianças.
O que precisaria ser feito? Para Isaac a "ação imediata é aumentar os testes juntamente com o fechamento de atividades não essenciais para controle da taxa de transmissão".