Pular para o conteúdo

A fila da casa própria encolheu por 12 anos em Curitiba — e explodiu sob Pimentel

A reconstrução da lista de espera da COHAB entre 2012 e 2026 revela uma fila que só diminuía — de 86,6 mil para 33 mil inscritos, ao longo das gestões Ducci, Fruet e Greca. Até a gestão Eduardo Pimentel invertê-la em 71% num ano e meio. E, mandato após mandato, ela ficou mais pobre

A fila da casa própria encolheu por 12 anos em Curitiba — e explodiu sob Pimentel
Moradia popular na Caximba. Foto: Tami Taketani/Plural

Reconstrução histórica da fila da COHAB de Curitiba de 2012 a 2026, comparando gestões e faixas de renda.

Habitação · Curitiba · investigação de dados

A reconstrução da lista de espera da COHAB entre 2012 e 2026 revela uma fila que só diminuía — de 86,6 mil para 33 mil inscritos, ao longo das gestões Ducci, Fruet e Greca. Até a gestão Eduardo Pimentel invertê-la em 71% num ano e meio. E, mandato após mandato, ela ficou mais pobre.

Entrar na fila da Companhia de Habitação Popular de Curitiba (COHAB) sempre foi apostar numa espera longa. Mas quão longa, e para quem, nunca esteve reunido num único lugar: o total de inscritos vive numa página que só mostra o presente, e as convocações estão espalhadas em centenas de PDFs mensais. Juntando essas fontes — e medições da fila desde 2012 —, dá para remontar a trajetória da lista de espera por moradia popular ao longo de quatro gestões.

O desenho é nítido: por mais de uma década, a fila só encolheu. No primeiro ano e meio da gestão Eduardo Pimentel, disparou. E, olhando quem está nela, a lista se tornou progressivamente mais concentrada nas famílias de menor renda.

Pico — ago/2012

86.636

fim da gestão Ducci

Mínimo — jul/2024

32.947

fim da gestão Greca II

Hoje — jul/2026

56.909

gestão Pimentel

Variação sob Pimentel

+71%

em ~18 meses

01Uma fila que só diminuía

No pico da série, em agosto de 2012, no fim da gestão Luciano Ducci, a fila tinha 86.636 inscritos ativos. Sob Gustavo Fruet (2013–2016) e nos dois mandatos de Rafael Greca (2017–2024), a lista só encolheu, até o piso de 32.947 em julho de 2024. Então veio a virada.

Cada ponto no gráfico é uma medição do total de inscritos ativos, registrada ao longo do tempo a partir da página pública da fila. A cor marca a gestão no poder; os trechos tracejados são períodos sem medição.

Total de inscritos ativos na fila da COHAB-CT, 2012–2026. Trechos tracejados = interpolação entre medições distantes (sem dados em 2013–2014 e 2020–2023).

Boa parte da redução nas gestões anteriores não significa, necessariamente, que as famílias foram atendidas. A fila passa por recadastramentos periódicos que eliminam inscrições vencidas — quem não renova some da lista. Já o salto recente, para 56.909 inscritos, coincide com a abertura da pré-inscrição online, que facilitou novas entradas. São leituras que a COHAB precisa confirmar.

02Quanto a fila mudou por ano de gestão

Greca governou oito anos (dois mandatos) e os demais, bem menos — então a variação total engana. Corrigindo pelo tempo, a média por ano reordena a história: Fruet esvaziou a fila mais rápido (–8.690/ano) do que qualquer mandato de Greca; Greca só reduziu mais no acumulado por ficar mais tempo no cargo. E Pimentel é o único que a fez crescer — a um ritmo de +23.550 por ano.

GestãoJanelaVariação totalPor ano

Média por ano = variação total dividida pelos anos da janela de dados. Greca I+II somados: –3.172/ano em 7,4 anos. O ritmo de Ducci (–11.469/ano) vem de uma janela de só 5 meses e é o menos confiável; o de Pimentel cobre 12 meses cheios.

No acumulado, Greca aparece como quem mais “desafogou” a fila: as maiores baixas totais da série (–14,5 mil e –15,2 mil) foram dos seus dois mandatos. Mas isso se explica pela permanência no cargo — oito anos. Medido por ano, o ritmo de Greca foi mais lento (–4.264 e –5.612 por ano) do que o de Fruet, que reduziu a lista em –8.690 por ano no período com dados. Pimentel, na direção oposta, engrossa a fila a +23.550 por ano — cerca de três vezes mais rápido do que qualquer antecessor conseguiu esvaziá-la.

03Em que faixa cada gestão cresceu

Entre quem se inscreveu em cada gestão e segue na fila hoje, a composição por faixa de renda revela o essencial: toda gestão cresceu, sobretudo, na Faixa Urbano 1 — a de menor renda. E essa concentração aumentou.

Faixa a faixa, o movimento fica explícito:

  • Ducci (até 2012): a composição mais equilibrada da série — a Faixa 1 respondia por 55,1% dos inscritos daquele período que ainda esperam.
  • Fruet (2013–2016): Faixa 1 em 56,4%, com a maior fatia de Faixa Urbano 2 de todas as gestões (27,4%).
  • Greca I (2017–2020): a concentração na Faixa 1 sobe de forma gradual, a 57,8%.
  • Greca II (2021–2024): o salto — a Faixa 1 atinge o ápice da série, 66,1%, enquanto as faixas de renda mais alta (3 e 4) minguam a 9,1% e 1,4%.
  • Pimentel (2025–2026): a Faixa 1 recua levemente a 63,9%, com pequena retomada da Faixa 3 (10,7%) — mas é a gestão que mais engrossou a base.
A fatia da Faixa Urbano 1 na fila subiu de 55% (inscritos até 2012) para 66% na gestão Greca II. Em números absolutos, é onde cada gestão mais engrossou a fila: Pimentel somou 15.424 pessoas dessa faixa que ainda esperam, e Greca II, 12.001 — contra 5,7 mil e 4,2 mil na Faixa 2. A lista de espera por moradia popular em Curitiba ficou, ano a ano, mais pobre.

04Quem é chamado — e quem fica

Foram 56.982 convocações entre set/2020 e jul/2026 (36.959 inscrições distintas). Mas 21.521 já convocados seguem na fila ativa de hoje — e o padrão é desigual: 72% dos inscritos da Faixa Urbano 3 na fila já foram chamados alguma vez, contra apenas 20% da Faixa Urbano 1, a mais numerosa. A base da pirâmide é a que menos chega ao fim da fila.

Convocações por mês (set/2020–jul/2026). Pico de 5.821 em novembro de 2025.

O ritmo das convocações também é irregular: houve uma seca no primeiro semestre de 2025 — janeiro registrou apenas 120 chamados — seguida do maior mês da série, novembro de 2025, com 5.821 convocações. Entender por que os chamados se concentram em certos meses, e como se distribuem entre os empreendimentos, é uma das pistas que os dados abrem para a reportagem.

05Até 38 anos de espera

No extremo da fila, o tempo se mede em décadas. Das pessoas que se inscreveram em 2010 e ainda estavam na lista em 2020, 674 continuam à espera hoje — 16 anos depois de entrarem. A inscrição ativa mais antiga é de 1988. Enquanto isso, a base recém-chegada engrossa: só as gestões Greca II e Pimentel colocaram mais de 27 mil pessoas de menor renda numa fila que, para muitos dos que já estavam nela, nunca chegou ao fim.

Como esta reportagem foi produzida: O tamanho histórico da fila foi registrados a partir de 52 capturas da página pública da fila de 2012–2025, cada uma expondo o total de inscritos; complementado pelos arquivo de dados abertos da Prefeitura (nov/2020) e por coleta direta em julho de 2026.
Convocados: 150 PDFs de classificados mensais publicados pela COHAB (set/2020–jul/2026), sistematizados em 56.982 registros.
Faixa de renda e grupos: fila ativa atual (56.909 inscritos) por ano de inscrição e faixa; atrito medido contra o snapshot de 2020.
Ressalva: quedas podem refletir recadastramentos, não só atendimento; a composição de filas passadas não pode ser reconstruída a partir dos dados disponíveis.
Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

Todos os artigos

Gostou desta reportagem?

Considere pagar um café para Rosiane Correia de Freitas e apoiar o jornalismo independente do Plural. Aponte a câmera do seu banco para o QR Code ou faça um Pix de qualquer valor para a chave abaixo.

32885173000120

Mais em Curitiba

Ver todos

Mais de Rosiane Correia de Freitas

Ver todos

De nossos parceiros