Um banner sobre atendimento gratuito a pessoas com suspeita de Covid-19 rodou as redes sociais nesta terça-feira (23), depois de ser divulgado no site oficial do Programa de Voluntariado Paranaense (Provopar). "Acha que pode estar com Covid? Não perca tempo! Agende uma consulta gratuita", é o que diz a arte, assinada com logomarca do Provopar. A ação tem o apoio de um grupo de médicos a favor do que chamam de "tratamento imediato" contra Covid-19, o que envolve medicamentos como Cloroquina e Ivermectina, ainda sem comprovação científica contra a doença.
No banner há a indicação de um endereço para estas consultas, que devem ser presenciais. O local indicado, na rua 21 de Abril, no Alto da Glória, em Curitiba, é atualmente uma Clínica Médica de Estética, conhecida como Instituto Longevité. Ao ligarmos, fomos informados que ela pertence ao médico Jucenir Marques, ginecologista, que cedeu parte do espaço para que estes novos atendimentos clínicos aconteçam.

O médico não foi localizado pelo Plural, mas está entre os mais de dois mil profissionais de todo Brasil que, em fevereiro deste ano, assinaram o Manifesto do Movimento Médicos Pela Vida. Eles defendem o tratamento precoce com uso de "correta combinação de medicações como hidroxicloroquina, ivermectina, bromexina, azitromicina, zinco, vitamina D e anticoagulantes".
Segundo a presidente do Provopar, Carlise Kwiatkowski, a iniciativa conta com 17 médicos voluntários e tem a intenção de ajudar. "Nossa intenção é promover consultas ambulatoriais para ajudar as pessoas que necessitam de uma consulta e não têm onde recorrer", diz.
Questionada sobre a prescrição de medicamentos para tratamento precoce, como cloroquina e ivermectina, ela disse que o Provopar não pode intervir na relação entre paciente e médico. "O tratamento é individualizado de acordo com a necessidade de cada paciente. Não temos como interferir na vontade do paciente e na liberdade de prescrição de cada médico", afirma.
Segundo a assessoria do Provopar, quando questionada se os medicamentos seriam distribuídos de forma gratuita, a intenção é "correr atrás de suprimentos solicitados pelos médicos". Sobre quais seriam os suprimentos, responderam que são "os que forem necessários para o atendimento imediato".
Médicos, engenheiros e advogados
Um dos idealizadores do "Centro de Atendimento Imediato", o médico José Jacyr Leal Júnior - que também assinou o manifesto nacional a favor do tratamento precoce - já tinha declarado em suas redes sociais, no dia 8 de março, que - apesar de ser ginecologista e obstetra e não ter atendido até então casos da Covid - estava, a partir daquela data, abrindo horários em seu consultório para atendimento, "orientação e fornecer a receita com os medicamentos do tratamento precoce".

Procurado pelo Plural para falar sobre o novo local de atendimento, ao ser questionado quem eram os demais voluntários, Jacyr informou que são médicos, engenheiros e advogados. "Um grupo de homens com experiência de vida já importante, que querem ajudar pessoas que estão sofrendo."
Ele garantiu que foi o grupo quem procurou o Provopar. "Nós pedimos ao Provopar que nos ajudassem a organizar este desenho de atendimento gratuito, com medicamentos que são indicados mundialmente", afirma Leal. Ele explica que o objetivo é dar atendimento para pessoas que queiram o tratamento que ele chama de "imediato". Além disso, afirma que há pessoas que não se sentem atendidas em outros locais. "O Centro é para pacientes que não se sentem atendidos e queiram o tratamento. Aliás, o Conselho Federal de Medicina liberou a autonomia dos médicos", recorda.
Apoio em dinheiro
Hoje, em sessão remota da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), o ex-secretário de Saúde do Paraná, agora deputado estadual, Michele Caputo afirmou que a Provopar tem pedido dinheiro em apoio ao tratamento precoce. "A Provopar entrou nesta, pedindo dinheiro para as pessoas. Primeiro é importante esclarecer que a Provopar não tem mais nada a ver com o Governo do Paraná", afirmou. "Se você é empresário e cidadão e quer ajudar, ajude as entidades assistenciais que estão com muita dificuldade, ajude aqueles que já têm trabalhos de anos e precisam manter pessoas que estão em situação vulnerável."
Para o deputado, que afirmou estar dando seu depoimento também como profissional farmacêutico, os medicamentos citados são os maiores causadores de intoxicação em todo mundo. "A diferença entre a dose que salva e a que mata é bastante pequena", disse. "No pior momento da pandemia, onde morrem mais de três mil brasileiros e com pessoas morrendo nas filas, a gente ver recrudescer esta questão do kit covid, algo que estava restrito à relação médico/paciente, agora está sendo comercializada, inclusive com outdoors", concluiu.
O Plural mostrou que outdoors espalhados por Curitiba, que tinham mensagem de apoio ao tratamento precoce, tiveram que ser retirados por ordem do Ministério Público. A justificativa é de que o tratamento contar Covid não tem comprovação científica.
Sem resposta
O Conselho Federal de Medicina (CFM), com sede em Brasília, foi procurado pela reportagem e questionado sobre o tratamento precoce, porém, não respondeu até a publicação desta matéria.
O Plural tentou contato com o médico George Silva Muniz, anestesiologista, também idealizador do Centro de Atendimento Imediato. Apesar de não constar como assinante do manifesto a favor do Tratamento Imediato, Muniz faz parte de um outro grupo de 300 médicos que, no ano passado, entregaram uma carta à Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) solicitando maior difusão do tratamento de pacientes na fase inicial da Covid-19, além de maior distribuição e acesso de medicamentos como a hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina e ivermectina. Até o fechamento da reportagem, porém, Muniz não retornou ao Plural.