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Alberto Pereira: ele até resistiu, mas se rendeu a arte

Conhecido por ser referência em arte urbana, Alberto nos contou sobre vida, carreira e o seu futuro, o descanso.

Alberto Pereira: ele até resistiu, mas se rendeu a arte
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Apesar de acreditar que, em boa parte dos casos, não existe imparcialidade no jornalismo, aqui eu já deixo claro: é muito difícil escrever sobre alguém que a gente ama. O Alberto que eu descrevo aqui, nessa abertura de entrevista, é alguém que me acolhe, escuta e dá bronca. Por fim, eu entrevistei um amigo, mas também, um artista gigante: em pesquisa, domínio, técnica e generosidade.

Não por acaso, chegamos juntos ao estúdio da Annie, no centro de Curitiba. Ele estava hospedado em casa, veio do Rio para comemorar comigo os meus 37 anos neste 2025. Marcamos essa conversa quase profissional para duas horas antes do voo que o levaria de volta. E é sempre assim: nos encontramos entre malas, festivais, baldes de cola e gargalhadas, com algumas canções do Tim Maia ou, sei lá, do Sorriso Maroto.

O Alberto é filho de um militar da Marinha. Isso fez com que ele vivesse entre cidades, transitando com a mala quase sempre pronta. Numa vida que foi entre Rio de Janeiro, Niterói, Brasília e Angra, teve uma família afetuosa (tia Solange, sua mãe, faz o melhor bolo de cenoura enquanto canta Jorge Benjor na cozinha).

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Obedeceu algumas das amarras sociais que lhe foram impostas: se formou, se casou e foi trabalhar na área de negócios. Até que um dia, colou o seu primeiro lambe-lambe. Hoje, Alberto é referência nacional quando o assunto é lambe: técnica utilizada, principalmente nas ruas, que consiste em colar papel, cartazes, mensagens em superfícies urbanas. 

Mais que isso, quem passa por seu trabalho, não fica ileso: as mensagens que as obras carregam, principalmente em relação às questões raciais, nos atravessam de maneira inteligente, voraz e, por que não, engraçada. Ou, como ele mesmo disse: como “um soco".

Trabalho de Alberto Pereira.
Estudos sobre o Invertido", de Alberto Pereira. Imagem: Reprodução.

Agora, ele só quer descanso. Aliás, agora, ele tem falado muito em descanso. Saiba porque, lendo esta entrevista:

Você é nascido no Rio, como é essa chegada ao mundo? (risos)

Eu nasci no Rio de Janeiro, especificamente no Humaitá. Só fui lá para nascer, porque já existia uma casa em Niterói, na região oceânica, que na época era uma região quase que rural, com chão de terra e pouca luz. Sou carioca, mas talvez mais niteroiense. Sou filho de um militar, do mesmo nome, então a falta de criatividade é absurda. Na real, me chamariam Gilberto, nome do meu tio que faleceu. Mas aí um primo meu que nasceu antes, nasceu exatamente no dia desse meu tio e ele virou Gilberto. Então ia ser uma falta de criatividade triplicada, porque meu avô era Gilberto, meu tio era Gilberto e eu seria Gilberto. Mas eu virei Alberto mesmo. Meu pai é oficial da Marinha, minha mãe é uma professora do primário, aposentada precocemente. E professora dona de casa. E mãe, obviamente. E tenho uma irmã oito anos mais velha, a Sylvia.

E como é que foi essa criação, por um militar?

Foi tranquilo, acho que meu pai guardava muito do militarismo dele pro espaço de trabalho. Eu, como um homem, acho que não sofri muitas coisas que minha irmã sofreu, por conta de um machismo, né!? Mas ao mesmo tempo que meu pai tinha e tem as questões dele, sempre foi um pai muito amoroso e presente na medida do possível. Eu acho que eu peguei a parte fácil, porque minha irmã pegou as viagens dele. Ele me conheceu quando eu tinha dois meses, quando ele voltou da Antártica. Por isso nasci em fevereiro e fui registrado só em abril. Mas eu já peguei a fase que ele estava mais fixo em algum quartel ou comandante de navio. A única vez que ele viajou e ficou, sei lá, um mês e meio fora, foi a vez que eu sonhei que ele estava me abandonando. Acordei chorando e a minha mãe até falou, “ah, você pegou a fase fácil e tal". Meu pai se aposentou como capitão de mar e guerra, significa que é a penúltima patente antes de você ser almirante.

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Não teve uma coisa rígida, nunca?

Eu acho que meus pais deixavam tudo muito solto, na real. Se eu fosse meu próprio pai, eu ia ser mais rígido do que ele, porque era solto em relação ao colégio, por exemplo. Eu acho que a parte mais rígida era em relação a ele me obrigar a continuar no judô. Teve uma época que eu estava querendo desistir, que era meio puxado, mas ele forçou. Mas não era rígido com horário de estudo, com horário pra voltar pra casa. Agora, com a minha irmã, horário pra voltar pra casa, a gente tinha mais rigidez. Ou então eu que acompanhava. Eu ia ao pagode, no bar. Eu com 10 e minha irmã com 18. Cansei de ir em barzinho, em show.

Imagem da série Negro Nobre, de Alberto Pereira.

E como você era na escola, assim, você lembra? Se você era introvertido, se você era treteiro, se você era conversador?

Acho que tive fases. Até a quarta série, eu acho que eu tinha um equilíbrio entre ser em alguns momentos mais introvertido e outros mais extrovertido. Mas eu era o garoto da sala que desenhava. Tava ali na média. Equilibrado. Na quinta série isso foi por  água abaixo. Eu virei o não querido. Porque eu nasci no Rio, fui pra Niterói, fiquei dois anos lá e a gente foi pra Brasília. Aí a gente voltou e foi para Angra. Tudo por causa da Marinha. E aí depois de Angra, fomos pra Niterói. Depois de Niterói pra Brasília de novo. Nisso, eu estava na quinta série e me botaram no colégio Batista, que era o colégio que a minha tia dava aula de religião. Era um colégio que eu fiquei meio revoltado, porque era muito certinho, tudo era sobre Jesus e o Pokémon que eu gostava era coisa do diabo. E tinha um controle de ser a minha tia que tava ali, né? Basicamente, eu tocava terror em tudo e todos. Num conselho de classe, minha tia soube e contou pro meu tio. Meu tio ficou meses me ameaçando. Era uma assombração. E aí foi talvez, o pior ano. Foi o ano que eu comecei a tirar nota baixa e tal.

Olhando agora, tantos anos depois, você já se via uma criança artista?

Eu não me via uma criança artista, mas hoje eu sei que eu era, porque eu comecei a me soltar mais, num equilíbrio entre a zoeira e o respeito na aula. Teve uma vez que eu apresentei a turma inteira cantando Balão Mágico e rimando, eu tinha 13 anos. Depois de mais velho eu recebi mensagem de amigo, que eu guardo o print dele me falando “interessante como você já era um artista e comunicador dentro de sala". Ele estudou comigo com 13 ou 14 anos. Esse era o Joe. Tinha também uma coisa de imitar os professores, imitar colegas. Então, acho que tinha isso, uma coisa mais... Minha mãe fala que eu sou espirituoso.

Foto: Annie Libert.

Você se formou em técnico em design e depois em publicidade. Como você foi abandonando um pouco essas amarras mais formais, até se entender como um artista?

Eu só chutei o balde, na real. Não lembro do momento que eu falei, por exemplo, “ah, agora eu vou me vestir da maneira que eu quero, vou trabalhar com o que eu quero". Não foi assim. Eu acho que aos poucos, as situações começaram a me incomodar e eu comecei a perceber que talvez eu fosse uma pessoa infeliz. Nessa época eu estava trabalhando no jornal O Globo, na área de negócios. Eu ajudava o jornal a vender propriedade digital ou experiência do jornal no iPad, pensando em produtos e demandando para um designer e para a área de tecnologia. Fazia reuniões com empresas como a Samsung, com a Apple e com a Microsoft. Era um negócio bem executivo mesmo. E isso começou a mudar e eu comecei a ter uma vida dupla, porque eu conheci o lambe-lambe e às vezes produzia algumas coisas e saia pra colar na rua.

Você se lembra qual foi o seu primeiro lambe?

Lembro, foi um trabalho que é uma latinha de sardinha do metrô. Era uma época que eu ia trabalhar de metrô e eu ainda estava na faculdade quando comecei no O Globo e aumentaram o preço da passagem. Também tive uma matéria no Senai que se chamava Mídia Impressa e o exercício final era fazer um lambe. E algum tempo depois, eu fui à uma exposição que tinham lambes de artistas como o Raul Zito, que hoje em dia é amigo e parceiro de trabalhos. Eu  fiquei maluco quando vi aquilo e tempos depois, vim aqui pra Curitiba, para um encontro que se chama N Design e  fiz uma oficina com o Vital Lordelo, que fazia os lambes da tatuagem que eu tenho aqui. “Há coragem é sempre agora.” Depois eu tive um hiato de uns três anos, até começar a fazer colagem, de fato, digital, pensando como um trabalho. E eu ia  compartilhando com meus chefes do O Globo, com as pessoas que estavam ali comigo, do meu lado. Não sei, eu acho que talvez por conta disso, desse emprego, eu consigo transitar muito bem nos ambientes. Eu consigo ser um bom executivo. E eu era um bom funcionário. E comecei a crescer lá dentro, até que teve uma demissão em massa em 2015 e eu fui o único que fiquei com mais três pessoas na equipe. E aí eu já tava nesse movimento de arte e tal, né? De fazer as coisas. Nisso, eu já estava casado, já tava com dreads no cabelo, já tava com a roupa rasgada. Tava virando um artista. Já tinha a série do Negro Nobre desde 2014.

Você é filho de pai e mãe negros. Você teve esse letramento racial em casa?

Não, mas minha mãe sempre usou essa frase: “Eu sou uma neguinha de qualidade besta”. Eu acho que ela nunca parou pra pensar em relação a isso. E ela sempre fala de uma memória que ela tinha comigo e com a minha irmã, da casa lá de Itaipu, que  tinha um murozinho baixo e ela estava com um carrinho e alguém chegou e pediu pra ela chamar a patroa. Ela sempre falou isso, então nunca foi uma dúvida, né? De que, sim, somos pessoas pretas. Meu pai tem uma leitura muito estranha, eu não sei como meu pai se lê, nunca perguntei isso pra ele também. Mas meu pai, talvez ele até tenha uma possibilidade, dependendo do ambiente que ele tá, mas minha mãe nunca foi uma dúvida. E a família da minha mãe inteira é uma família preta. A família do meu pai, a minha avó é meio portuguesona. Meu avô tinha uma mistura doida. Ele mais velho agora, tá parecendo esses peruanos. É uma mistura de preto com indígena, com português. Desde criança, lembro de episódios de colégio, quando eu chutava a barriga de um moleque porque falava algo ofensivo em relação a raça e eu devolvia com chute. E adolescente, nossa, aí o bagulho era pesado, porque chamavam de tiziu, tição, macaco ou volta pra senzala.

Qual era o seu sentimento em relação a isso, era de revolta ou de choro?

Não, eu acho que eu tentava passar por cima. Era um constrangimento, mas que fingia que levei na brincadeira, tentava desviar e acabei ficando muito tenso. Depois eu comecei a dar apelido pra todo mundo, pra tentar controlar essa situação e tentar me blindar. Mas era ofensivo, ficava chateado, mas tentava administrar, porque se assumisse e ficasse muito incomodado ou demonstrasse, aí a galera ia pesar mais. Tem muito dessa situação em que você faz graça com a coisa para reverter a situação. Então eu meio que fazia isso.

Foto: Annie Libert.

Você acha que o seu trabalho faz isso?

Talvez. Em alguns momentos, sim. Em outros, não. Em outros é meio que um pé na porta, mas eu acho que eu sempre tem uma coisa da acidez e que recente, tem ido pro humor. Mas ao mesmo tempo, um soco. Quando comecei a entender esses caminhos, comecei a fazer arte. Então, eu fazia caricatura da galera ou então comecei a tocar violão, que foi uma maneira também de desviar dessa coisa da negritude em si. O violão era uma coisa que as pessoas deixavam de falar “Alberto, volta pra senzala”e canalizava pra uma coisa da música. O violão foi uma estratégia Depois, a roupa virou um caminho, com uma maneira diferente de me vestir. Eu fui traçando artifícios e quando eu cheguei nos 16, 17, eu já acompanhava referências pretas, já procurava por isso numa busca ativa. 

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E o seu primeiro trabalho sobre a questão racial, foi a série Negro Nobre?

Olha, eu tenho um monte de desenho, na real. Porque eu desenhava personagens de black power. Me lembro muito do Ícaro Silva, quando ele fazia Malhação e foi uma referência estética pra mim. Posso considerar que eram trabalhos, né? Embora eu não estivesse pensando profissionalmente, era uma maneira de me expressar, Mas profissionalmente, sim, o Negro Nobre foi o primeiro. Eu sabia que era uma parada que estava pegando uma cultura muito pop, sabia que ia dar um efeito. E deu. Na época, consegui matéria no O Globo e a galera começou a replicar pra outros lugares. Então eu fiz minha primeira exposição vendendo camisas e a partir disso, a fazer muita colagem. Esse projeto melhorou muito tecnicamente, porque eu tive que dominar luz, proporção, manipulação digital. E eu fazia como uma máquina, fazia todo dia. Nesse início, eu tava ainda no Globo e um pouco tempo depois eu pedi demissão, pra ir pra um trampo que eu ia ganhar muito menos, mas que eu ia ter ali meio período para canalizar pra arte.

Nesse período, você entendeu que queria ser artista?

Não entendi, mas eu tinha vontade de. Eu não sabia muito o que eu estava fazendo, mas eu sabia que eu não queria fazer o que eu tava fazendo no Globo. Sabia também que eu queria me expressar mais artisticamente, mas eu tinha um pensamento ainda relacionado a design. Então eu trabalhei lá numa startup que durou dois meses e fui demitido. Depois fui dirigir Uber e fazia uns freelas de design. E tinha essa vontade que eu não entendia muito bem se era ser artista, porque também não sabia como eu ia ganhar dinheiro. Falei “como é que eu vou fazer? Já saiu em matérias de jornais, já tem um instagram que eu tô começando a movimentar, mas como é que eu faço dinheiro a partir disso?". E eu não fazia ideia, eu nem me considerava artista. Mas o Instagram estava resolvendo, estava dando bastante seguidores, estava começando a atingir muitas pessoas e eu fazia muito contatos para buscar espaços. E eu não fui direto pro lambe, porque era caro e eu estava desempregado, era casado, fazendo Uber. Então, assim, foi lento o processo até eu fazer o lambe-lambe em maior escala. 

"Jesus Pretinho", trabalho de Alberto Pereira. Imagem: Reprodução

E quando você se entendeu o artista, depois disso?

Também é uma resposta que eu não tenho, assim, tipo que nem uma régua, né? Agora passou dos 30 centímetros e agora eu sou artista. É porque hoje em dia é muito fácil, sei lá, quando eu vou num consultório e me perguntam qual a minha profissão? “Ah, artista”. Hoje eu sei que eu me sinto muito confortável e eu não tenho dúvida quanto a isso. Mas eu não lembro o momento que eu transgredi, assim, essa coisa porque por várias vezes ainda em terapia é uma questão pra mim, por todas as questões da profissão, da relação com a família e também da sobrevivência enquanto um artista.

E quando você começa a lidar com o lambe-lambe de fato? 

Em 2016, quando fui demitido e encontrei o Vital. Ele foi pro Rio e deixou alguns lambes comigo e eu fiz o Uber particular para ele: levei no aeroporto e busquei. Eu já tinha muitas ideias, porque eu passava muito tempo dirigindo e ficava pensando no que eu ia fazer. E eu me separei e voltei pra casa dos meus pais. Eu estava fodidaço de grana e colando papel às vezes. Acho que eu estava até anestesiado, não tinha muita ideia do que estava acontecendo na vida. E talvez o papel tenha sido uma terapia. Meus pais obviamente não entenderam nada. Eu estava seguindo toda a linha deles e aí daqui a pouco estaria divorciando e colando papel na rua. Não sei se eles pensaram que eu tinha ficado maluco mesmo. Porque tem esquizofrênicos na família. Mas, por muitos anos, eles acharam que era uma brincadeira ou que era uma grande aventura. Mas, hoje em dia, eu percebo que embora eles achassem isso, eles sempre estavam nas exposições, sempre marcando presença e eu reconheço isso. Mas na época eu não reconhecia, achava que estava todo mundo muito contra.

Desde o começo da sua história com o lambe, você é um articulador. Foi por isso que você decidiu fundar a Lambes Brasil?

Acho que a Lambes Brasil é, sem dúvida, um rolê que todo mundo que faz arte urbana conhece. Não só do lambe, mas do grafite também. Eu sabia o que estava fazendo porque eu fiz a Lambes usando tudo o que eu tinha aprendido no O Globo: de captação, de lista de e-mails, de entender o público e tal. Eu pensava que se sobrasse dinheiro. eu poderia fazer contatos, viajar e conhceer essa galera que também cola papel, porque eu me sentia muito sozinho falando do lambe no Rio. E esse banco de dados era ótimo, porque eu sabia de todo mundo, de todo o Brasil, que fazia lambe. Sobrava uma grana, viajava, colava, conhecia, trocava informação. Eu não me pensava que ia virar o que é hoje. Eu criei a plataforma, mesmo que eu não pensasse artisticamente sobre sistema de arte, de posicionamento, de pesquisa artística. Eu só estava fazendo e pensava muito mais como publicitário. E cara, eu saí espalhando,acho que o volume de la,be que colei de 2016 a 2018, talvez tenha sido um volume três vezes maior do que eu colei de 2019 até hoje. Eu tava na rua todo dia, o tempo inteiro. Todo o dinheiro que eu ganhava, eu imprimia. Tinha o dinheiro sobrando. Eu saía e viajava e tal. Ficava em qualquer lugar, na condição que fosse. Mas tava fazendo, tava colando.

Foto: Annie Libert.

E depois veio o trabalho do Jesus Pretinho, qual você acha que é o motivo dele ser tão conhecido? 

Por algum motivo ele tem aí uma energia, né? Que ele vai caminhando sozinho. Acho que ele já causa um impacto visual. Só o fato de ter uma Maria branca e um bebê preto. É estranho, né? Possivelmente se fosse uma mulher preta com um bebê preto, ele ia passar batido. E é uma imagem que é religiosa, ela passa uma coisa, uma força. E ao mesmo tempo, ele caminha nesse lugar do carinho e da porrada. É muito singela, mas ao mesmo tempo é uma crítica. E ele já esteve em tudo quando é lugar: já parou de almoço, de feijoada, até entrar na igreja. Ou numa parede e um monte de gente dormindo embaixo. As pessoas protegem o lambe na rua. Ao mesmo tempo, as pessoas dão um outro sentido pra ele.

Que sentido tem pra você?

Eu acho que pra mim é um grande portal. Mas eu não sei, penso mais como uma questão de algo que é sagrado no sentido da cor. E acabei reparando que tinha várias referências do que é o Jesus Pretinho num inconsciente. Eu já fazia Negro Nobre e já botava gente preta em todo lugar. E aí eu vi aquele quadro e falei, “pô! Vou botar esse bebê aqui”. E foi isso. Não foi "nossa, isso vai ser uma grande obra". Só que aí, quando eu colei, eu achei forte. Achei que teve um impacto e decidi fazer vários deles. Isso faz dez anos, né? Num total, já foram 7.800 reproduções que estão no mundo.

Você acha que essa quantidade de lambe se encaixa na pira que alguns artistas urbanos têm de dominar os espaços?

Ah, eu acho que de início pra mim era uma terapia. Era bom sair colando e eu não tenho essa pira de pichador, de artista urbano e de dominar os espaços e de estar em tudo quanto é lugar. De fato, eu não tenho. Eu tenho muito mais uma pira de domínio intelectual, da ideia fazer parte, de passar uma mensagem. Estar em tudo quanto é lugar, eu acho até meio vazio, talvez uma carência mesmo, uma necessidade de ser visto. Primeiro que eu comecei a fazer lambe, e o lambe, às vezes, não é nem considerado dentro de um grupo de pichadores e de grafiteiros. Eu também não parto de um cenário de escassez na vida. Sou uma pessoa de classe média alta, só que de uma família preta. Então, é sempre um não-lugar, né? Nunca almejei, também, essa carência de dominar os espaços. Não é uma parada que me pega. Mas eu acho que pra um cara que é um pichador ou pra um grafiteiro, que é lá do Capão Redondo de São Paulo, por exemplo, e que passa perrengue e que a brisa dele e a raiva dele, ele desconta numa lata de spray, botando o nome dele e ganhando ali um respeito, isso tem um valor. Não é um no meu caso. Eu já tive muito um pensamento de “Ah, eu quero fazer parte da história da arte”. E eu já me desfiz desse pensamento. Eu quero só ter uma graninha no bolso, ter a possibilidade de comer bem, de viajar. E, porra, viver de boa. Toda vez que eu vejo alguma pessoa preta, num espaço principalmente de arte, essa pessoa vai ser ceifada em algum momento, Tem uma ascensão e tem uma queda. É um movimento natural, também, das coisas. E eu prezo muito pelo equilíbrio. Não quero esse caminho. Já não pratico esse caminho em relação ao tipo de trabalho que eu faço. Eu acho que pra mim, é só sobre ter uma vida confortável, sem chamar grandes atenções. Aí, às vezes, faço um trabalho que chama mais atenção e depois me recolho, fico lá no meu cantinho. Obviamente, por conta das coisas que faço, elas reverberam e de algum modo, me torno uma referência. Mas, mais pelas coisas que desenvolvo e troco com outras pessoas. E menos sobre mim, uma única pessoa. Até porque, ninguém faz nada sozinho. 

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Você não acha que é legal ser referência? Você sabe que é referência, certo?

Sim, sim. Ah, eu acho que é legal, num sentido de possibilitar que alguém se espelhe em você.  Mas essa coisa de cultura de fã e eu acho muito doido, acho bem nocivo mesmo e não curto. Mas a referência é legal. Até porque, comecei a fazer porque eu tive outras referências de que era maneiro me expressar. Acho que esse espaço é maneiro, mas quando transita para uma parada meio doentia, de “ah, eu sou muito seu fã", isso eu acho completamente estranho, porque te desloca de um lugar de horizontalidade. Ser referência está numa coisa, de “eu respeito o teu trabalho, tua trajetória".

Foto: Annie Libert.

E você tem um trabalho mais atual, que é o Pele de Rua. Que é um trabalho abstrato. Como é que é sair de um trabalho que é escrachadamente político, ligado à questão racial, e fazer um trabalho abstrato?

Eu ainda equilibro com a outra série, que são os Estudos Sobre o Mundo Invertido, porque um me deixa pensando demais até sair a imagem e o outro eu só transfiro a sobra das coisas, que é quase que o processo de colar um lambe também. Acho que no mundo que a gente vive hoje, talvez isso seja muito mais político do que o outro, porque é sobre descanso visual, e o que a gente vive o tempo inteiro, é a hiperconexão. É muito estímulo. Então, talvez isso de pensar a rua, de transpor a rua para uma tela e ficar pensando em textura, seja tão político quanto fazer uma imagem que tenha uma figuração. Para mim, descanso é uma questão social. E eu tenho pensado muito sobre, até porque, eu sinto necessidade de descansar. E eu gosto muito de não fazer nada. E também é uma coisa de repensar a cidade, de pensar os espaços da cidade e colocar uma sensibilidade nesses espaços. Então, tem esse lance da pele. Mas eu estou, que nem um louco, pegando coisas da rua. Estou com uma placa em casa e também com aquele, - lá no Rio a gente chama de “gelo baiano”, - eu não sei o porquê, mas chama... Aquele bagulho amarelão, que divide os espaços urbanos. E isso tudo tem sido material de trabalho. Estou transgredindo esse lance de ser só o papel. Estou pensando na rua de uma maneira mais ampla e num sentido de conforto visual, de algo que é interessante visualmente. Eu acho que isso é político também. Mas eu não deixo de fazer o outro, né?

E desde quando você tem se dedicado a esta série dos Estudos Sobre o Mundo Invertido?

Desde a pandemia. Em 2020, eu comecei a meio que mudar, porque eu estava muito incomodado de ficar nesse lugar de só ser chamado para falar sobre questões raciais. Até porque, existem muito mais questões do que só a cor da minha pele. E aí eu comecei a pensar, nessa relação da rede e das bolhas. E aí comecei a achar esses caminhos, num momento que eu estava muito mal de trampo e de grana. Estou desde 2021 nessa pira, que também é sobre a minha falta de carisma em relação à rede social. O trabalho fala sobre como a  nossa vida tem sido muito mais virtual do que presencial. E sobre como a gente não consegue largar da tela. É uma pesquisa sobre o consumo do tempo, as idolatrias, as fake news, os fãs e o vício que isso gera.  É basicamente sobre vício e o quão isso influencia na nossa vida e agora tá chegando o nosso descanso. Fiquei muito tempo focado nisso da conexão, e fiz uns experimentos com vídeo. E aí eu comecei a fazer os trabalhos que vão num caminho oposto, que falam diretamente sobre descanso. Fiz um lambe ano passado, que eram duas mulheres pretas numa rede, descansando. É aí comecei a escrever sobre a necessidade de descansar, do descanso como protesto. Então é sobre a nossa relação com o ambiente digital e com o ambiente físico

Tem alguma coisa que você não fez e que gostaria muito de fazer?

Pô, já colei num telhado. Já colei no chão. Já colei no Egito. Agora não sei o que eu quero fazer, eu acho que a gente vai descobrindo enquanto vai fazendo. Mas eu tenho tido vontade de fazer coisas que transpassam o lambe. Na ultima ida ao Egito, por exemplo, fiz essa coisa que era mais de performance. Então, tem coisas que tão indo pra um outro caminho. Mas o que eu quero mesmo é viver sossegado. Viver sossegado, ter dinheirinho no bolso. Comer bem. Acho que as minhas ambições são mais essas do que de um grande trabalho.

Você tem um trabalho favorito?

Não. Ah, obviamente o Lambe do Jesus Pretinho me levou pra muitos lugares. O Lambe lá da Aurora, que é minha cachorra, colada no chão em Brasília, me levou também pra muitos lugares. Todos esses feitos, como o do João Cândido, que foi na raça mesmo, porque não tinha grana, são trabalhos que eu tenho uma gratidão por mim mesmo de ter insistido em fazer. Mas não acho que eu tenha um super preferido, não.

Foto: Annie Libert.

Queria perguntar sobre como é ser um artista agenciado? Você é agenciado pela agência de artistas Aborda, como isso funciona?

Antigamente, era numa relação direta com a Carol, que é a dona da agência, porque A Aborda cresceu muito nos últimos cinco, quase seis anos. Basicamente, ela é uma pessoa que tem contatos comerciais e entradas nos espaços. E ela escolhia artistas que ela achava que poderiam conduzir a trabalhos interessantes. Eu vi que o Diego Mouro estava fazendo parte e mandei uma mensagem pra ela. Falei, “e aí, tudo bem? Ó, eu sou o Alberto, faço essas coisas com o lambe. Já fiz um monte de trabalho por conta própria e eu quero trabalhar contigo”. Então a gente ficou três meses assim, pensando, negociando. Basicamente, ela tem esses contatos e ela tenta captar trabalho. E eu também tenho uma busca muito ativa, então eu também tento. O resultado desse trabalho, é que ela auxilia no processo de negociação, de fechamento de orçamento, de quanto a gente vai receber. Eu fico levemente blindado em relação a isso, porque eu dou pitaco também em relação a grana, porque eu acho que existe uma diferença muito grande entre um artista da Aborda que pinta e um artista da como eu, que sou o único que faz lambe. A gente entra nesse bem bolado, negocia. Quando rola o trabalho, um percentual vai pra ela, o restante fica pra mim. E vamos pro próximo. Hoje em dia tem uma estrutura de comunicação. Tem uma leve estrutura de produção, dependendo do tipo de trabalho. Às vezes eu mesmo produzo. E falta assessoria. Eu não tenho uma relação de amizade cotidiana com a Carol, de falar sobre as coisas do dia a dia, temos muito mais trocas profissionais. Mas eu tenho intimidade com ela. Eu aviso de situações da minha vida porque eu tenho um casamento com ela, basicamente. Então tem essa relação engraçada de intimidade e profissionalismo. E ao mesmo tempo não intimidade. Mais que isso, eu acho que a gente tem uma coisa em comum: que é uma coisa de sermos honestos e leais um ao outro. Então, se eu ganhar a Mariola, eu vou lá dar o meu percentual da Mariola pra ela. E vice-versa. Eu já vi muitos artistas entrando e saindo da Aborda. Eu e a Priscila Barbosa somos os mais antigos. Talvez a Luna Bastos também. Então, a gente entende uma maneira de trabalhar, se respeita e dá certo. Dentre os artistas, eu tenho consciência de que eu sou uma pessoa ali dentro, que é valiosa pra ela. Porque eu tenho esse trânsito doido, entre fazer o trabalho agora pra Iza, mas estar no IMS ao mesmo tempo. E poucos têm esse trânsito. Talvez eu e a Luna só. Curiosamente, os artistas pretos, né? E às vezes é isso, tem que fazer um Uberzinho. Já tem aí uns três anos que eu não faço. Mas eu era muito teimoso também em relação ao trabalho, a não fazer esses lambes comerciais. Então, hoje em dia, precisa colar? Manda pra mim que eu colo! E tem me ajudado a equilibrar a grana.

Mas você ainda tem tesão de fazer esses trampos comerciais, né?

Ah, sim. Eu acho foda, pô. A gente sempre tá muito pirando na nossa própria pesquisa, que é muito mais íntima. E esses trabalhos comerciais são uma maneira de abrir o caminho pra uma pessoa que não tem nenhum tipo de relação com arte e olha ali e fala, “porra, maneiro”. E pode conhecer ali, uma outra linguagem. Eu acho a maior brisa errada esse lance de artista ficar preso na própria pesquisa. Eu acho inclusive, que fazer essas coisas comerciais te dá algum tipo de material pra você colocar na sua própria pesquisa, porque é troca. Você tá tendo ali uma troca. Acho que, na real, isso é só enriquecedor e ainda faz uma grana boa. 

Você acabou de fazer o trabalho do novo álbum da cantora Iza. Queria saber como é que foi o seu trampo com ela e como é que foi esse convite, você foi brifado? É um trabalho supercomercial, mas também tem muito de você lá nele, né?

Fui super brifado, porque tinha uma direção criativa da equipe da Iza. Que é uma galera muito foda. O Indy eu conheci agora, mas eu sei que tem a Nídia Aranha por trás. Teve uma parada de ter uma direção, um briefing um pouco complicado. Porque a ordem é muito complicada de comunicação. Eu tava numa experiência anterior que eu tinha feito do KayBlack antes, e aí eu acho que só rolou da Iza, porque rolou do KayBlack. E foi papo de três dias que veio o convite: “você precisa fazer o lambe". E eu fiz. Da Iza era o lançamento e tinha uma revelação da capa e tinha toda uma referência. Me mandaram um monte de referência. “Ah, é uma mistura de Egito com Etiópia, com Reggae”. Só que aí falaram muitas referências e na hora de eu produzir, eu produzi um primeiro. E falaram, “não, não é nada disso. Tem muito elemento. A gente quer uma coisa mais contemporânea". Eu falei, “vocês querem o quê? Minimalista? É só a cor e os elementos?". Aí facilitou o trabalho, porque eu entendi o que eles queriam. Então, basicamente teve uma direção em relação à cor, em relação à possibilidade de elementos que tinha. Então talvez tenha alguma coisa minha, porque foi uma colagem. Mas eu não tive muita autonomia nesse sentido de criação. Eu achei até melhor quando me brifaram bem e falam “tem que ser assim", porque aí eu já resolvi em um dia. Tive que resolver em algumas horas. E a parte divertida foi colar, né? Eu não sei se passou por ela, se ela viu, se ela não viu. Mas a gente já trabalhou junto. Foi a terceira vez. Embora a gente não seja próximo, estudamos juntos.

Agora, pra finalizar a notícia de última hora, você acaba de ter um espaço no Morro do Palácio, em Niterói. Por que o Morro do Palácio e o que você tá esperando desse espaço?

Nossa, você acabou de me fazer pensar numa coisa que eu não tinha pensado. Que eu vou dormir lá já que eu aluguei (risos). Então, eu e o Davi Baltar, a gente já tem esse desejo há alguns anos. Basicamente, a gente pensou num espaço pra produzir, mas como a gente já tem uma ligação com as pessoas do Palácio, da pra fazer cursos e aulas. A relação com o Palácio é muito aleatória. Veio por conta da primeira residência artística da Lambes Brasil que produzi lá, a Cuíca. Não veio porque eu sabia sobre o Palácio, embora eu conhecesse o Morro, mas eu não tinha nenhum tipo de relação direta. Aí me falaram de um cara chamado Josemias, que conhecia tudo por lá. E comecei a falar com o Josemias, que é fotógrafo e um líder da comunidade, e a transitar e entender a história do lugar. Hoje em dia é um espaço que eu me sinto em casa. Me recebem muito bem e me puxam pras coisas. E eu acho que vai ser muito saudável. Eu quero fazer muita coisa do Pele de Rua, porque eu tenho necessidade de reciclar as folhazinhas em casa. Então vai ser um espaço que eu vou conseguir produzir papel e fazer coisas maiores, porque cada um vai ter um quarto, vai ter o tanque e tudo mais. Acho que vai ser um espaço de experimentação, um espaço pra trocar também com o Baltar no dia a dia, porque a gente já tem uma troca assim de anos, mas não tem um convívio de produção e sempre quando a gente tá junto, vem muita ideia, vem muita reflexão sobre as coisas. E de chamar a galera também, né? Pra pensar junto e tal. E pô, primeira vez tendo um espaço. Eu ainda não fui, porque eu tava viajando. Ele só me mandou a foto das duas chaves, assim.

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