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Eliana Brasil e a defesa do fazer manual como ferramenta de resistência e ancestralidade

Artista conta como se "construiu" em Curitiba e fala sobre a relação entre etnia, origem social e arte

Eliana Brasil e a defesa do fazer manual como ferramenta de resistência e ancestralidade
Eliana Brasil. Foto: Annie Libert
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Quem vê a força do vermelho no seu trabalho ou a firmeza com que Eliana Brasil conduz uma performance, não imagina que ali viveu uma menina que perdeu a mãe cedo e demorou pra se encontrar. Tudo é construção e reconstrução, claro. E assim foi com ela, pedra por pedra.

No dia desta entrevista, aliás, foi com uma pedra em uma mão e linhas e agulhas em outra, que ela chegou ao centro da cidade, na hora marcada para nosso encontro. Eliana falou baixo durante as nossas duas horas de conversa. Um tom que não mudou, nem quando entrou em temas difíceis. Mas o olhar, esse eu vi mudar algumas vezes, e ele diz tudo: a força que ela carrega é o que transforma tudo ao seu redor.

Lá no passado, em Belo Horizonte, cresceu numa casa de estranhos, apesar dos laços sanguíneos. Demorou pra entender, que às vezes o amor é duro, vem em forma de comida na mesa. Foi num centro de assistência, que ela também chama de "creche", onde aprendeu a bordar e costurar. Afinal, quem não tem quase nada, precisa ter um ofício para sobreviver, - pelo menos é isso que ensinaram pra ela.

Aos 13, circulou classificados no jornal de domingo e saiu atrás do seu primeiro emprego. Foi bordadeira numa fábrica de enxovais: fronha por fronha para ganhar seu primeiro salário. Depois, pra se virar, seguiu o destino de todas as mulheres da família que a antecederam: foi ser empregada doméstica.

Foto: Annie Libert

Quis mais, lutou muito. Como vendedora de comércios, melhorou a sua vida e aos poucos, conquistou o seu direito de escolha, ou a liberdade. Decidiu, por influência de uma amiga, se mudar para a Curitiba que lhe venderam: bonita, limpa, uma terra de novas oportunidades. E foi assim, pelo menos enquanto ela morava e circulava pelo centro da cidade.

Conheceu um amor que a acompanha até hoje e que também transformou sua visão, porque lhe apresentou outro território. Era década de 90, o bairro do Sítio Cercado estava apenas começando nesta década onde passou por uma grande urbanização com a implantação de programas habitacionais populares, com a criação do loteamentos para famílias de baixa renda.

Com dois filhos pra criar, foi através de cursos populares, onde aprendeu a pintar painéis de festas infantis. Por quase 10 anos, as princesas e super heróis da Disney eram seu universo artístico. As pessoas próximas já haviam reparado: “Eliana, você é uma grande artista", ouviu da amiga. Também ganhou um livrinho pequeno, com obras de Pablo Picasso, que guardou por um tempo, junto com seus sonhos, numa gaveta.

Mas quando a gente nasce com a arte não há fuga. Criou os filhos até terem tamanho suficiente para fazerem seus próprios achocolatados. Passou no vestibular em Artes Visuais em 2014, na Universidade Federal do Paraná. Entendia pouco no começo, ouvia muito. Trabalhava em escalas malucas para conseguir conciliar maternidade, renda e estudo.

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“Dentro da universidade, fui entendendo que aquela Eliana que pintava, que desenhava, que esculpia de maneira lúdica e por prazer, já não existia mais. Porque tinha essa coisa de se construir. E eu construí essa Eliana Brasil que existe hoje a partir dessa formação acadêmica", conta.

Foi através da compreensão e do acolhimento dos movimentos negros, onde se encontrou e se estabeleceu. Entendeu sobre ancestralidade. Se envolveu com o movimento de mulheres negras e entendeu seu corpo como suporte político. Decidiu estudar a fundo: afinal, onde estão as mulheres negras na arte? Descobriu a obra de Rosana Paulino, e talvez, mais importante que isso, conheceu a artista Claudia Lara: identificação à primeira vista. 

Nunca, em hipótese alguma, largou a linha e as agulhas. Eliana os segura e defende sua obra e sua técnica, como sinal de resistência. Quer agora, seguir serena como o fluxo de um rio.

Essa criança já tinha algum vínculo, alguma relação gestual e manual como você tem hoje?

Eu tenho uma história um pouquinho pesada, porque eu venho de um lar que eu demorei pra entender que lar era aquele. E, portanto, demorei também a me entender enquanto indivíduo, enquanto ser humano. Eu fui criada por uma tia materna, a irmã mais velha da minha mãe. A minha mãe faleceu quando eu tinha dois anos de idade. E quando isso aconteceu, ela e essa minha tia estavam sem se falar. Então, eu não tinha contato nenhum com tia e os filhos e nem eles comigo. E fui morar nessa casa, que era uma casa totalmente estranha. E não tinha presença paterna e quando eu fui me dando conta, até onde a minha memória vai, próxima dos quatro ou cinco anos, me vejo num lugar que eu não sabia qual era aquele, que pessoas eram aquelas. Eu só tinha entendimento que era aquela mulher que me levava pra  creche todo dia de manhã, me pegava de tarde, me levava pra casa, e nessa casa, eu tomava banho, comia alguma coisa e dormia. E no outro dia, a mesma rotina. Na escola, eu criava imaginários quando as pessoas vinham me perguntar ou pra me relacionar com aquele ambiente. Criava situações e nunca era quem eu era, porque eu nem sabia quem eu era, de fato. Criava historinhas como se fosse uma composição de um gibi. Eu me lembro, por exemplo, de uma cena na escola: eu fiz um desenho com dois sóis, um sol em cada ponta, bem bonitinho, uma composição equilibrada. Se tem um sol, tem que ter outro em outro lugar. Uma paisagem ali com uma casinha. E a professora me chamou muita atenção, porque da onde que eu tinha tirado aquele segundo sol? E eu não sabia responder. Dentro desse universo de não respostas, fui até mais ou menos uns 10 anos de idade. Até entender que aquela mulher que me levava e me trazia, era irmã da minha mãe e eu chamava ela de tia.

Obra de Eliana Brasil. Foto: Divulgação

E não tinha afeto?

Não tinha afeto. Só tinha esse compromisso de cuidar. Então, tinha cuidado. Na verdade, hoje eu entendo muito do meu trabalho, essa coisa de tecer, de costurar, de fazer esses bordados e entrelaçamentos, vêm dessa convivência com essa figura matriarcal, porque não tinha afeto, não tinha o olhar, o abraço, a palavra, o gesto. Mas tinha esse cuidado e o zelo de não deixar faltar o alimento. Não era fácil, ela era doméstica, analfabeta e tinha que parar sempre no meio do caminho, porque as escolas que eu passei na minha infância e adolescência, nunca foram perto de casa. Belo Horizonte não é uma região plana como esta. A gente descia no meio do caminho, de um ônibus e ela me deixava nessa escola, que era uma instituição de proteção, de amparo à criança. Dali, descia novamente pra avenida e pegava outro ônibus pra ir pro trabalho. Descia no centro da cidade de Belo Horizonte. E andava mais uns 40 minutos. De tarde, fazia o mesmo caminho pra me levar pra casa. Hoje, eu entendo que dentro disso tinha muito afeto, tinha aquele instinto de proteção, que é o que eu costumo escrever, costumo falar desse instinto de proteção materna de proteger a prole, a família. E a maneira de cuidar dela, de dar amor, talvez tenha sido essa. Eu fui uma criança extremamente solitária, não entendia o mundo, não tinha as respostas necessárias, no tempo necessário para poder me construir como um indivíduo. Com isso, muitas coisas foram ficando pra depois. Entendi algumas coisas muito tempo depois. E ainda hoje, eu sigo nessa busca de tentar me compreender.

E nessa instituição onde você foi criada, quais foram seus primeiros contatos com a questão das manualidades?

Nessa instituição onde eu fui criada, eu entrava de manhã e saia de tarde. Nesse período da manhã, a gente desenvolvia atividades manuais voltadas para meninos e para meninas. Tinha uma coisa muito interessante dentro daquele espaço. Que era a divisão do espaço mesmo sem muros: as meninas ficavam de um lado e os meninos do outro. Mas tinha uma coisa ali que era muito curiosa, que ninguém passava de um lado para o outro. Mas era a maneira como a gente era educado. As meninas tinham as atividades manuais de meninas, a gente aprendia a fazer crochê, tricô, bordado e costura. E os meninos lá no território deles, aprendiam as atividades para meninos, que eram marcenaria, joga-bola, futebol. Nesse espaço, comecei a desenvolver essas atividades. E depois ia para casa com esses materiais que a gente recebia, que sobravam. Então, isso aqui de estar com isso na mão (mostra as agulhas e linhas) faz parte da minha infância. Porque era o que eu fazia. Essa criança, que não tinha outra criança para brincar em casa, que só tinha esses adultos, estava sempre tecendo, sempre fazendo crochê, sempre mexendo com fio de alguma maneira, desde os 7, 8 anos. A gente fazia os bordados, as aulas de corte e costura, flores em papel. Durante toda a minha infância, eu lembro de mim, nos momentos que estou em casa, sempre fazendo crochê. Era um passatempo, uma distração, uma ocupação. E era uma brincadeira. Nunca tive um objeto específico que eu estava fazendo. Estava só tecendo. Sempre crochetando. Quando aquilo tomava alguma forma, eu entendia o que poderia ser aquilo. Pode ser uma roupinha para uma boneca. Pode não ser nada. Vou desmanchar e fazer de novo.

E depois dessa primeira infância, você continuou a viver com essa tia em Belo Horizonte?

Eu vivi com essa minha tia até os 13. Mas o meu primeiro emprego com carteira assinada, foi aos 13 anos, quando saí da instituição e fiz um portfólio bonitinho, um caderninho de desenho humilde, com uns bordadinhos colados. Coloquei aquilo embaixo do braço e fui me oferecer nas confecções. Na época, eram os anúncios de jornais de vaga de emprego e a gente passava o domingo circulando as folhas. Na segunda-feira, com 13 anos, eu me lembro que eu sai pra procurar emprego. Eu achava que eu era uma bordadeira profissional e fui contratada. Durou poucos meses, mas foi importante para mim. Eu bordava enxovais. Praticamente só roupa de cama, um jogo de quatro peças com lençol, virol e as fronhas, de ponta a ponta, com motivos florais e inúmeras cores. Era bastante coisa. Tinha que estar concentrada oito horas por dia, sem parar. Eu tenho hoje ainda uma máquina, que é com aquele pedal. Era aquele tipo de máquina que a gente usava na época. Então tive essa experiência de CLT aos 13. Mas pra mim ela não conta exatamente como experiência CLT, porque ela está muito mais dentro do universo de entendimento de quem eu era e de arte.

Você lembra o que você fez quando recebeu seu primeiro salário de bordadeira e sensação de ganhar seu próprio dinheiro?

Isso é tão importante. Foi muito bacana, foi maravilhoso. Mas ali, com 13 anos, eu já achava que eu era uma adulta. Eu via todo mundo em volta, trabalhando. Eu cresci num ambiente de adultos que só trabalhavam. Lembro que eu levei esse primeiro salário para essa minha tia, porque eu já poderia contribuir em casa. Dos 13 anos em diante, eu fui morar com a minha avó. Não fiquei muito tempo nessa empresa. A empresa faliu uns meses depois.

E depois, você saiu de casa? Arrumou outro trabalho?

Depois eu fui morar com minha avó. Eu já era adolescente, estava naquela fase de me rebelar. E me mandaram viver com meu irmão mais velho dos 15 até os 18. Dos 18 eu já era adulta. Ouvi “vai seguir teu caminho. Você já deve se tornar independente”. Eu tinha que trabalhar e me manter. Então fui conhecer pessoas, amigos e amigas, para a gente poder dividir aluguel. Fui trabalhar como diarista para poder ter alguma renda e pagar essas despesas. E daí comecei a trabalhar como diarista, como empregada doméstica, porque todas as mulheres da minha família foram empregadas domésticas. Para mim, foi o caminho mais óbvio pra poder seguir nesse entendimento de autossustento. Aí passei um tempo buscando me entender, como essa pessoa adulta que trabalha e como que vem esse dinheiro. E depois passei como operadora de caixa numa panificadora, depois sou operadora de caixa numa loja de eletrodomésticos. Aí, nessa loja de eletrodomésticos, eu passei pra vendedora numa rede grande de eletrodomésticos. O salário começou a ser substancial, eu já recebia um bom dinheiro, eu já era muito feliz, porque eu era independente, auto suficiente, eu tinha dinheiro pra fazer o que eu quisesse, mas eu não tinha casa, eu não tinha lar, né? Eu morava aqui, morava ali, morei com minha tia, depois morei com minha avó, depois morei com meu irmão, depois morei com amigos. Nesse período eu fui morar um tempo com meus padrinhos. Eu não tinha esse lugar fixo. Eu acho que família, casa e lar, é a nossa base, né? Você precisa ter isso minimamente pra poder se estruturar. E eu não tinha, estava ainda nesse lugar de tentar descobrir qual que é o melhor caminho.

Foto: Annie Libert

Esse tempo todo, você crochetava e bordava. Você já pensava em arte?

Eu tinha essa relação muito forte, muito profunda com os fios, até esse período que eu fiquei como bordadeira. Aí depois desse momento, eu entrei em crise de tentar também descobrir como seguir em frente, morando com um, morando com outro, e essa coisa da arte, essa coisa lúdica, inclusive do desenho, - eu desenhava muito quando era criança, - tudo isso ficou em off. Foi engavetado. E durante todo esse tempo também que eu estava tentando trabalhar pra poder me manter. E museu, galeria, contato com artistas, não existia.

Eu queria entender quando é que a arte apareceu na sua vida?

A arte apareceu pra salvar mesmo a minha vida. Porque eu nunca tive essa comunicação em casa. A minha tia que me criou, essa mulher guerreira, que cuidava de toda a família e que nem sequer estudou, não me levava pra fazermos  um passeio cultural. Ela nem tinha esse tempo. E as outras mulheres da. Essa era a minha referência de adultos, de mulheres da minha família. E nessa escola onde eu passei essa infância, o que a gente aprendia não era arte. O que a gente aprendia eram atividades para subsistência. As crianças aprendiam algum ofício para quando estivessem na fase adulta, pudessem ter algum início de caminho para sobreviver. A arte entra na minha vida quando eu já estou adulta e começo a me relacionar com outras pessoas que vêm trazendo os seus universos. Ela vem muito mais pela literatura do que pelas artes visuais, trocando ideias com pessoas incríveis que passaram pela minha vida, trazendo poesia, trocas que nos somam. A música, a MPB, veio com luaus. Minas não tem praia, mas tem as suas cachoeiras. A gente ia acampar e ficar tocando violão. Não canto, nem danço e nem toco, mas eu sou ouvinte. Mas a arte, de fato ela só vai entrar na minha vida aqui, depois que eu me mudo pro Paraná.

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E como foi essa mudança?

Eu mudei pra cá em 97, com 24 anos, porque eu tinha uma amiga de Minas que já estava morando aqui e ela me chamava todos os anos, desde o primeiro ano que ela chegou: “vem morar aqui, você vai se apaixonar, Curitiba é linda, o sul é maravilhoso".  E eu fui protelando de vir, até que finalmente, eu vim a passeio de férias e por alguma razão, eu me encantei. Ela me vendeu essa ideia de um lugar maravilhoso e eu cheguei já com esse marketing, né? Eu cheguei, eu olhei em volta e pensei, “nossa, é mesmo, que lugar incrível". E lá em Minas, eu não tinha essa estrutura desse lar fixo. Eu tinha um trabalho, esse trabalho que me remunerava muito bem naquela época, mas não tinha esse lar. Essa amiga morava nas imediações da Praça Osório e ela chegou aqui com uma mochila cheia de camisetas que ela expunha na Praça Osório, camisetas com estampas políticas, umas críticas ou algumas frases irreverentes e que faziam muito sucesso. Ela começou a vender em praça pública e fez muito sucesso. Daí ela abriu uma, duas, três, quatro, cinco lojas. Ela tinha essa visão de que Curitiba era maravilhosa, como uma terra das oportunidades.

E você chegou aqui e deu de cara com o que?

Eu cheguei aqui e eu dei de cara com essa realidade mesmo. Com uma cidade bonita, que de fato, é. Quando você chega em Curitiba pelo centro, você tem realmente uma cidade que encanta. E até hoje assim, vem essa ideia de que Curitiba é linda, com seus pontos turísticos, com ônibus que levam os turistas pra poder mostrar como a cidade é linda. Eu dei de cara com essa XV de Novembro que é uma rua realmente bonita, com a Osório, que de fato encanta quem chega. Tinha um olhar de turista. Daí eu me mudei pra cá, a gente morava no Edifício Tijucas e comecei a trabalhar como vendedora no shopping, numa loja de roupas e esse primeiro ano foi bem bacana. Fiz novos amigos, encontrei pessoas com uma cabeça diferente e sem vínculo familiar.  Comecei a construir uma identidade, porque eu tinha muitos problemas de identidade e com essa minha família, que eu não conseguia me relacionar, faltava afeto. Eu só fui entender essa outra Curitiba, que hoje eu consigo enxergar e me relaciono de maneira totalmente distinta, com o tempo. E com muito tempo, porque os meus primeiros anos aqui, eu ainda circulava pela cidade, pelo centro da cidade, que é onde eu morava, onde eu ocupava espaço com esse olhar ainda encantado, esse olhar de turista. A gente frequentava o Largo da Ordem e o chamava de quintal. A gente conhecia todas as pessoas que circulavam pelo centro e isso era muito maravilhoso. Essa virada de olhar, eu chamo de virada de chave, foi quando eu me mudei para a periferia, porque daí eu conheci meu companheiro, em 98, e algum tempo depois a gente decidiu comprar um terreno em uma região periférica, onde a gente vive até hoje, que é no Sítio Cercado. A gente comprou em 99 e no ano de 2000, nos mudamos para lá. Eram ruas de terra, com valetas a céu aberto e muita gente chegando do norte, do oeste do estado e de fora do Paraná. Era uma outra realidade, totalmente diferente de tudo que eu já tinha vivido até então. Eu continuava trabalhando no centro de Curitiba e fazia esse exercício, esse movimento de ir e vir todos os dias. Fui me dando conta dessa cidade. Eu estava grávida.

Obra de Eliana Brasil. Foto: Divulgação

E essa cidade que você descobriu, como ela é?

Essa outra Curitiba é uma cidade que vende essa imagem de UM LUGAR maravilhoso, perfeito, inteligente, verde e comecei a me dar conta que essas eram narrativas oficiais, que não entregam a realidade de fato, porque a grande maioria da população não vive essa realidade. A grande maioria vive com inúmeros problemas. Eu fui entendendo isso, a partir do momento que eu fui me entendendo como uma artista. E que posição essa artista deveria tomar nessa cidade que nega suas origens, que nega quem de fato esteve aqui e quem de fato colaborou para construir esse lugar? Quando eu cheguei nessa cidade, me percebi como uma mulher negra, porque nos espaços onde a gente circulava, tinham pouquíssimas pessoas negras. Eu era uma das poucas presenças entre um grupo de amigos e nos lugares. Isso me incomodava, mas não me fazia pensar sobre isso. Eu não estava alerta à essa situação. Fui me entendendo como mulher negra muito tempo depois, quando eu entrei na universidade e busquei o curso de Artes.

E como foi depois, essa vida com os filhos nascendo e você estabelecendo essa nova noção de afeto e de lar?

Eu não estava trabalhando. Então eu começava a pensar no que fazer para poder ter dinheiro, ter renda. Eu quebrava a cabeça. Na época, a Fundação de Ação Social tinha uns cursos bem interessantes e estavam oferecendo um de produtos alimentícios e de artigos para festas, que era pintura de painéis, cenários e esculturas de boneco de isopor. E eu olhei para aquilo e tinham passado muitos anos desde aquela época que eu desenhava e que eu gostava de pintar. E eu tinha o Cairo nascendo, tinha o Danilo já com 3 anos e fazia as festinhas deles. Decidi cursar, para fazer as festas dos meus filhos e ainda ganhar um dinheiro com isso. E fui fazer esses cursos, ao mesmo tempo que comecei a trabalhar com isso. Então, eu decorei festas por muito tempo. Durante 10 anos, montei até empresa e tinha um salão de festas. Com isso, voltei a desenhar, voltei a pintar. Recriava os cenários da Disney e na época era o auge das princesas e as festinhas todas com esses temas.

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Você encara isso hoje como quase uma instalação artística?

Hoje sim. E as pessoas falavam: “nossa, tudo o que você faz é lindo. Você é uma artista". E eu nunca tinha me visto como artista e nem escutado falar sobre “o que você faz é arte". E eu respondia: “gente, parem de falar isso, eu nem sei o que é arte, nunca entrei numa galeria, nunca entrei num museu". Mas foi vindo uma sementinha…Primeiro dessa retomada de voltar a desenhar, voltar a pintar e entender que aquilo me deixava plena. Esse tempo de qualidade, esse tempo de ateliê, quando a gente está com a gente mesmo, envolvida, - e o tempo passa e você nem percebe. Eu conseguia virar horas. Preciso estar sozinha para conseguir me concentrar e fazer coisas. Mas nesse período, eu ainda não pensava em estudar, não pensava em futuro, só na produção. Como eu já tinha interiorizado a produção artesanal como meio de subsistência, que eu aprendi lá atrás, eu acho que minha cabeça estava mais naquele lugar de produzir para poder ter uma renda e viver daquilo. Aí um dia uma amiga maravilhosa, também da literatura, me disse que eu era uma artista, que precisava aprender, estudar e saber  um pouco mais sobre arte. Então ela me deu um livro de um artista que ela gostava muito, o Picasso, pra poder me incentivar. Me deu aquele livrinho pequenininho, com algumas representações dos trabalhos dele e eu fiquei com esse livro guardado como uma lembrança do que ela falou. E esse momento marcou e mais tarde comecei a pensar "vou mesmo estudar, porque lá atrás, em BH, eu queria, mas eu não tinha condições". Na época, eu pensava em fazer um curso de História, mas entrar numa universidade pública, era impossível. Ainda nem existia sistema de cotas, os cursinhos pré-vestibulares eram caríssimos. Eu me lembrei que lá atrás, quando eu era ainda aquela menina tentando me conhecer, tinha muita vontade de fazer um curso superior. Eu lembro que eu cheguei a me matricular num curso pré-vestibular, um pouco antes de mudar pra Curitiba, e eu consegui pagar acho que três meses. Depois, isso ficou enterrado por muito tempo. Eu nem me lembrava mais de tudo isso que eu queria, dessas pretensões da minha juventude. Mas daí eu retomei e com meninos já quase independentes, o Danilo com 10 pra 11, o Cairo com 7, já fazia o seu próprio achocolatado, eles já estão preparados pra poder ficar sem a mãe por um tempo. E nesse período eu conheci a Kenya Coqueiro, acho que é muito importante falar dela sempre, porque ela foi um divisor de águas, uma mulher negra com os pés no chão, consciente de quem é, filha de uma super mãe, militante, ativista, que é a Edna Coqueiro. A Kenya já tinha uma visão muito nítida de quem ela é e do que ela queria. Na época, ela já falava desse futuro de mulheres negras conectadas, da importância da beleza negra, da estética feminina negra como arma política. A gente tinha essas trocas potentes e sonhávamos com um dia entrar na universidade, criar algo, fazer um movimento para a gente poder trabalhar juntas e encontrar essas mulheres negras. Depois, a Kenia conseguiu entrar em psicologia na PUC e depois ela foi para a Federal. Eu entrei no ano seguinte, no curso de Artes Visuais na Federal, em 2014, com esse propósito de estudar artes para poder entender a história da arte, para poder entender quem é essa Eliana que todo mundo dizia que era artista, mas eu não me via como essa mulher artista. E para, finalmente, me tornar, então, essa artista com essa possível potência de transformar esse meio.

Você lembra a sensação do primeiro dia de aula?

Lembro. Lembro do primeiro dia e me lembro de todos os dias dentro da universidade. E, para mim, foi um pouco traumático. Eu não tenho nada romantizado em relação ao curso superior, porque eu entrei dentro do curso universitário 20 anos depois que eu me formei no ensino médio. E uma garotada super antenada na turma. Eu sabia quem era o Picasso porque uma amiga me apresentou. Mas, até então, eu nem nunca tinha entrado ainda num espaço de exposição. Eu ainda não conhecia museu. Eu ainda não tinha esse relacionamento que todo mundo ligado às artes visuais, ou hoje, pelo menos ali dentro daquele espaço de universidade, tinha. Eu ficava muito à parte de todas as conversas e muito atenta também. Eu estava ali o tempo todo, muito ouvinte, prestando atenção em tudo. E naquele não lugar, sabe? Tipo, “nossa, eu estou aqui”. Estava ouvindo, mas não estava entendendo. Estava ouvindo, mas ouvindo algo que eu lamentava desconhecer. Hoje, por exemplo, a minha relação com o De Artes (UFPR) é uma relação de amor e de dor. Esse amor por finalmente ter conseguido chegar e ter também conseguido me manter dentro do curso e finalizar o curso. Porque por muito tempo, por muitas vezes, eu pensei se eu deveria continuar. E foi bem aí que eu comecei a entender de fato como para a gente, para a gente mulheres e mulheres negras, as coisas são muito mais difíceis. Aí eu olhava para a Kenya, que teve que abandonar o curso, e ela era tão senhora de si e não conseguiu se manter dentro do curso, exatamente porque também era uma mulher periférica, mãe, com suas crianças pequenas e que precisava trabalhar para se manter como transista. Eu consegui me manter no curso, só porque nesse período eu trabalhava no plano de saúde no horário noturno. Era uma escala que me favorecia a ter tempo livre durante o dia. É um curso também que segrega, né? Como é que você faz um curso durante o dia se você precisa trabalhar? Eu tinha uma casa e outros trabalhos que eu fazia para poder complementar a renda. Eu não tinha a mesma disponibilidade e disposição que os meus colegas e as minhas colegas tinham de utilizar os espaços da universidade, laboratórios sensacionais, laboratórios de escultura, da própria pintura. Quando eu cheguei no curso, eu achei que eu ia me tornar uma exímia pintora, porque eu já pintava meus painéis de festa. E uma exímia escultora, que pensava “vou fazer esculturas de tudo que é material e vou sair daqui uma superprofissiona”. Mas, quando eu cheguei na universidade, outras questões começaram a surgir, mais subjetivas, como ver esse lugar que eu ocupava na sociedade e todos esses atravessamentos. Dentro da universidade, fui entendendo que aquela Eliana que pintava, que desenhava, que esculpia de maneira lúdica e por prazer, já não existia mais. Porque tinha essa coisa de se construir. E eu construí essa Eliana Brasil que existe hoje a partir dessa formação acadêmica.

Foto: Annie Libert

Você gosta da Eliana que você construiu?

Eu gosto dessa Eliana que foi construída. Acho que eu precisei desses 40 e tantos anos para poder finalmente me entender, achar um lugar, encontrar um território, um chão para pisar e entender que chão é esse. Porque por muitos anos, por muitas décadas, eu caminhei sem entender quais vias eram essas, que estrada era essa. Hoje, eu faço esse caminho do tecer, porque esse tecer me leva lá no passado. Eu me entendo mais hoje como uma construção que é circular do que linear. E fazer esses entrelaçamentos que faltaram, vai preenchendo espaços vazios. Gosto dessa Eliana que existe hoje, porque eu consigo me entender sem fantasia. Eu passei muito tempo me fantasiando ou vivendo de um imaginário que eu fui criando e compondo na minha infância, na minha inocência, para poder sobreviver mesmo. Mas se essas histórias criadas não existiam, o que existia, então? Ao longo dessa caminhada, eu fui entendendo essa Eliana. Por exemplo, você perguntou se eu tenho lembrança da minha mãe e eu fiquei pensando, porque eu tenho a sensação, hoje, que eu vejo essa mãe, que eu vi essa mãe, que eu ouvi a voz dessa mãe, mas não, né? Eu não tenho essa memória real. Mas eu tenho um sentimento, uma convicção de que esse afeto, que essa voz que esteve ali presente por um tempo, ela ainda é presente. Ela ainda existe. O rosto que eu vejo por meio das fotografias que ainda existem dela, ele se dá nessa memória que também não deixa de ser uma memória inventada, mas é uma memória que hoje faz parte do meu livro.

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Você lembra quando você criou o primeiro objeto de arte? Não o que você não estivesse fazendo era arte, mas o que era considerado arte dentro da universidade?

Sim, hoje ainda existe, porque ele é um círculo contínuo, que é o trabalho que eu faço com o crochê e que ele circula sobre ele mesmo. E ele passou a existir nessas idas e vindas do trabalho para a faculdade, da faculdade para casa, dentro do ônibus, sem ter o que fazer, eu tinha fios comigo e ia tecendo e tecendo, e tentando achar respostas para muitas coisas. Por exemplo, se eu precisei fazer uma pintura, que pintura que eu vou fazer? Não consigo fazer pintura nenhuma. E eu estava ali, crochetando. Aí um dia, eu olhei para aquilo e falei assim, “nossa, cara, aqui tem cor, aqui tem materialidade, aqui tem um objeto de arte e eu vou levar isso aqui para apresentar e discutir com o professor de pintura”. E levei para poder provocar uma análise daquele objeto. E eu tive a devolutiva que aquilo não era pintura, e que se aquilo era pintura, eu tinha que fundamentar. Mas, daí, esse trabalho existe até hoje porque ele me fez voltar lá atrás, naqueles trabalhos todos que eles começaram do nada, e ia crescendo, e eu fui entender que esse trabalho tinha relação com outro, à medida que eu ia crochetando e vendo ele se desenvolver, circulando, e crescendo sobre ele mesmo.

Você considera que é um trabalho político?

Sim, totalmente político. Ele tem um atravessamento político, sim, claro, porque ele vem com essa relação do fazer, que começa com uma coisa da construção artesanal, mas que vem para um campo de discussão, de resistência. Eu vi esse trabalho muito nesse lugar da resistência, porque ele foi descoberto nesse momento de se manter dentro de um curso superior e da possibilidade que me deu de me entender. E eu tive que defender esse trabalho para poder apresentá-lo como um trabalho de arte. Mas foram várias etapas dentro da universidade. Lá dentro, também chegamos a criar um coletivo de artistas negros, que foi o Africanitude, que eram jovens artistas, estudantes do De Artes. E, com esse coletivo, fomos convidados para poder montar uma exposição no Memorial de Curitiba. Eles ofereceram o espaço, mas não tinha estrutura e nem segurança. E a gente decidiu que faria uma intervenção com uma performance só, numa única noite, onde cada um segurava o seu próprio trabalho. Já que a gente precisava providenciar suportes, os suportes seriam nossos próprios corpos. Então tivemos essa construção com esses artistas, jovens artistas.

Você acha que foi a primeira vez que você teve essa noção de coletividade negra?

Foi. De empatia e de entender pessoas que estão passando pelas mesmas coisas. Foi tudo dentro da universidade. E foi também, quando eu comecei a questionar quem sou eu nesse lugar, de sobrevivente. Eu comecei a olhar para o meu redor e me senti muito insegura, muito sozinha como estudante. Comecei a procurar outras mulheres artistas, outras mulheres negras na cidade, olhar para outras mulheres negras. Eu conhecia apenas a Kenya, que fazia esse diálogo político, a mãe dela e algumas outras mulheres negras ali no meu bairro. Mas só! E tive necessidade de dialogar com essas outras mulheres que ocupam espaços de diálogo dentro da cidade, de formação política, enfim. Aí eu encontrei a Rede de Mulheres Negras em 2016 ou 2017 e passo a participar das reuniões com esta rede. Finalmente, eu consigo ter chão para me entender como uma mulher negra  e consigo entender a importância dessa representação política de ser uma mulher negra dentro do curso universitário e que pode utilizar esse corpo como ferramenta, não só como suporte, mas como ferramenta política de diálogo. E a minha pesquisa para poder terminar o curso é a partir disso, a partir de encontrar essas mulheres e pensar: “mas cadê as mulheres negras na arte?” Já tinha essa discussão na época e já tinha um levante no mundo todo e no Brasil, principalmente por meio da voz da Rosana Paulino. Aí no Paraná, fui pesquisar no Google e não tinha nenhuma referência de artista negra. Na minha cabeça, no meu entendimento, não tinha nenhuma artista negra consolidada produzindo arte ou pensando arte no Paraná. Foi quando eu conheci a Cláudia Lara. Fui apresentada a Cláudia, não porque ela era uma artista negra, mas como ela era uma artista que tinha contato com Ida Hannemann de Campos, porque eu queria fazer um trabalho sobre Ida. Me passaram o contato da Cláudia e eu vi os trabalhos dela primeiro, antes de ver a imagem daquela mulher. Vi os trabalhos dela pelo Facebook e ela fazia essa mescla de pintura e bordado muito parecida com as cores e com o que eu estava fazendo. Marcamos o encontro para levá-la na casa da Ida e quando a Cláudia chegou e eu olhei para aquela mulher negra, imediatamente eu lembrei das imagens dos trabalhos dela, aquela cor, aquela textura, aquela vibração. E pensei, “gente, como não tem artista negra? Como eu acreditei que não tinha artista negra?". E desde que entrei naquele carro e a conheci pessoalmente, a gente nunca mais parou de falar sobre essa presença ou essa não-presença de artistas negras na arte e porque ela nunca havia sido citada para mim, como uma artista negra. A partir daí, a gente criou o coletivo Ero Ere. Foi um coletivo que não está ativo. Ele existe, sabe? Mas ele não está ativo, porque depois da pandemia cada um foi seguindo os seus próprios caminhos.

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Eliana, me fizeram essa pergunta uma vez e foi bem reveladora. Então acho que eu tenho que fazer pra você: qual é a importância do fio vermelho? Por que o vermelho na sua obra?

São dois motivos. Primeiro, essa simbologia do vermelho mesmo, com o sangue e esse sangue que conecta, no caso, a toda a ancestralidade que eu não tive e que eu fui descobrindo e entendendo ao longo dessa caminhada. Então, ele é muito significativo no sentido de fazer esse caminho de volta. É como esse percurso do cordão umbilical que vai voltar lá, para poder encontrar essa rede importante que é a sanguínea. Nesse caso, de conhecer e reconhecer essas mulheres que compõem a minha base familiar. Conhecer essas mulheres outras que eu não conheci e que vêm antes. A minha própria mãe que eu não conheci e todas as mulheres negras que vieram antes e que foram chão para que eu estivesse aqui hoje. E o outro ponto é o quanto é doloroso e o quanto vem de sangue derramado, construir essas identidades. São as cicatrizes. Aí esse fio vermelho vem nesse sentido de mostrar o quanto o quanto dói. Isso eu apresento de alguma forma nesses trabalhos que apresentei na Galeria Ponta de Fuga, que é esse vermelho bordado num tecido transparente. Porque não tem como esconder a transparência do tecido ali. Ele vem com esse sentido de não ter como a gente disfarçar e construir, por exemplo, um rosto, um sorriso bonito. A gente tem que ter um ideal de mulheres negras lindas que se veem belíssimas independente do olhar que vem de fora. Mas o quanto é doloroso mesmo essa construção, porque tem um tanto de dor ali. A gente não recebe por herança essa consciência de que somos mulheres belas. De alguma maneira, isso é construído ou isso é recebido de uma outra mulher que vai afirmar pra você “olha, você é linda, teu cabelo é lindo, tua pele é linda, independente do que você escutar na escola”. Hoje, eu tenho essa percepção que é preciso a gente ensinar para as nossas meninas, porque elas não vão aprender sozinhas que a autoestima não vende graça pra gente. De alguma maneira, tem esse atravessamento também, que por meio da dor e esse vermelho vem nesse sentido. Não recebemos por herança essa consciência de que somos mulheres belas. Hoje, eu tenho essa percepção de que é preciso a gente ensinar pras nossas meninas. No caso desse trabalho, que é Matriz em Movimento, ele também fala da agulha que atravessa esse tecido, fura esse tecido e deixa essas marcas, que simbolicamente são as marcas que a gente traz com a gente.

E o Entre Pedras e Ruínas foi a sua primeira performance? Como é que você acabou migrando para performance?

Não, não foi a primeira, não. A performance veio também no curso de Artes, quando eu já tinha esse entendimento total de que o meu corpo era político, que eu poderia usar esse corpo como ferramenta. Pensei na timidez, pensei na insegurança, e mesmo assim, fui colocar esse corpo em movimento. Me espelhei nas mulheres da Rede de Mulheres Negras que fazem esse movimento dentro desses espaços de disputa de poder, os Conselhos.. Mas ao invés de ir pra esses espaços políticos, eu decidi usar o que eu tenho. E qual ferramenta que eu tenho? Eu tenho o meu corpo e eu tenho a arte. Então eu começo a colocar o meu corpo na rua, eu vou ter essa coragem de usar o meu corpo como meio de diálogo.

A primeira performance foi na abertura da exposição Ero Ere: Negras Conexões, que foi a primeira grande exposição do coletivo que a gente formou depois que eu conheci pessoalmente a Cláudia. A primeira foi no Museu Paranaense, e olha como as coisas se conectam, porque a gente fez três exposições super importantes no em 2018 e descobrimos que era importante a gente se colocar como mulheres negras, artistas do movimento. Éramos eu, Cláudia Lara, Fernanda Castro, Kenia Coqueiro, Lana Furtado, Lourdes Duartes e Walkyria Novaes. Foram essas sete primeiras mulheres que começaram esse movimento de se juntar. A gente conseguiu fazer três exposições importantíssimas simultâneas no mês de novembro, em espaços importantes e que tiveram muita mídia, teve muita publicação.

Foto: Annie Libert

Você se incomoda pelo fato de ser em novembro (Mês da Consciência Negra)?

Muito, muito, muito, muito, tanto em novembro, como em julho. Eu sempre falo sobre isso. No ano seguinte, conseguimos uma exposição no MAC, no mês de julho, que é o Mês da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e a gente conseguiu essa janela, esse espaço para a gente expor lá, porque eu estava na época no Conselho de Igualdade Racial, e junto ao Conselho e a Secretaria de Cultura na época e a Secretaria de Justiça, a gente fez uma força-tarefa para poder criar uma agenda cultural no mês de julho. A gente conseguiu um espaço com a diretora do MAC na época, a Ana Rocha, para levar essa exposição lá para dentro do museu. Se não fosse essa agenda do julho, a gente, com certeza, não conseguiria, e se não fosse essa força-tarefa toda, a gente também não conseguiria. E por quê eu falo isso? Exatamente por conta dessas datas emblemáticas e de agendas que se abrem nesse período do ano. Durante todo o restante, é como se não existisse essa produção. Eu espero que mude, hoje a gente tem um diálogo muito maior sobre isso, mas ainda assim, no mês de julho e no mês de novembro explodem os convites e durante o restante do ano não se fala muito sobre isso. Então, quando foi a abertura da exposição no MAC, que é um museu de grande visibilidade, não desmerecendo os outros espaços que a gente dispôs no ano anterior, tudo isso repercutiu muito, e estávamos todas nós, muito felizes, e todas as outras artistas muito eufóricas com a data que a gente já havia conseguido. Foi uma grande conquista, e de fato era: mulheres negras expondo pela primeira vez reunidas num museu de visibilidade. Mas aquela euforia toda começou a me incomodar e comecei a pensar:  “poxa, mas o que realmente, de fato, a gente está comemorando? O que se comemora num momento como esse?". Era uma noite de abertura de exposição, mas e as outras mulheres, que espaços ocupam? Qual que é a importância dessas mulheres nessa sociedade paranaense, nessa sociedade curitibana que até então negava essa existência? E isso me fez abrir essa crítica e criar essa performance que se chama Carne Nobre, e que depois foi premiada pelo 67º Salão Paranaense, do próprio MAC.  Fiz essa performance justamente discutindo essa existência, essa presença.

E essa pedra que você trouxe hoje?

Eu acho que estou num momento de assentar. Acho que tem muito a ver com essa pedra que eu trouxe, que foi o presente que eu recebi. É uma pedra retirada do leito de um rio que é sereno, o rio Nhundiaquara.É aquele rio extenso,ele é largo. E quero entender essa serenidade, de olhar para esse leito, olhar para essas pedras, olhar para dentro, tem muito a ver com espiritualidade também, que é um momento de construção espiritual, de entender a proteção, a orientação. Então estou muito nesse momento de entender esse Ori. Então tem a ver com essa pedra, com esse círculo que existe nela. Quando eu ganhei essa pedra, o senhor que me deu, falou “olha, tem um olho nela”. Mas ele mostrou de longe, eu não conseguia ver. Aí veio, me entregou. Fiquei vendo esse movimento circular e pensando em todas essas construções que eu venho trazendo também, que são circulares. De ir e voltar, ir e voltar. Então faz sentido entender esse movimento como linear, né? Que só segue em frente. Estou nesse momento de aceitar as coisas, entender esse leito do rio que segue sereno. E tudo acontece no seu tempo.

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