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Tradutor lança versão "rejuvenescida" de Romeu e Julieta

Tragédia clássica de Shakespeare sai pela Antofágica em nova tradução de Rodrigo Tadeu Gonçalves, da UFPR

Tradutor lança versão "rejuvenescida" de Romeu e Julieta
Rodrigo Tadeu Gonçalves, tradutor da nova edição de Romeu e Julieta. Foto: Tami Taketani/Plural
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O texto está todo lá. E os mais conservadores não precisam ficar preocupados: os versos estão devidamente metrificados e rimados, quando é o caso. Mas, sim, a nova edição de "Romeu e Julieta", que está saindo pela Antofágica, tenta rejuvenescer Shakespeare para as novas gerações.

A ideia não é fazer os adolescentes falarem como personagens de hoje, mas sim permitir que os leitores atuais consigam ter um caminho mais acessível para a mais famosa tragédia amorosa de todos os tempos. Quem ficou responsável pelo trabalho foi Rodrigo Tadeu Gonçalves, que já tem no currículo traduções de Ovídio, Sêneca e que agora brinca nas horas vagas com a "Eneida", de Virgílio.

Leia abaixo a conversa que ele teve com o Plural sobre o livro.


A Antofágica tem esse ímpeto de fazer traduções e edições que atraiam um público mais jovem para os clássicos. Você tentou "rejuvenescer" o texto shakespereano?
Sim, busquei rejuvenescer o texto, e não somente por recomendação da editora. Temos traduções maravilhosas dessa peça, desde Onestaldo de Pennafort e Carlos Alberto Nunes a Bárbara Heliodora e Francisco Botelho. Se era para fazer mais uma, quis fazer algo mais novo, mais fresco. Às vezes busquei um tom bem contemporâneo para a linguagem do núcleo mais cômico, que fala em prosa, com novos jogos de palavra, gírias atuais, piadas de quinta série (que, a meu ver, caracterizam muito bem o humor de Romeu e seus “parças”). Naturalmente, houve negociações com os profissionais incríveis da Antofágica, para não passar do ponto. Mas algumas ousadias foram bem aceitas, como o uso de tu/vós para as passagens em verso e você/vocês para as passagens em prosa.

A gente sabe que às vezes é impossível traduzir tudo que existe no original. E chega aquela hora em que você tem que escolher entre a clareza do sentido e a forma. Qual costuma ser tua opção?
Privilegio a forma, mas não a forma pela forma. A forma e o sentido andam juntos, e no geral as minhas traduções não buscam somente dizer o que diz o texto de partida, mas fazer o que ele faz. O texto de Shakespeare é ao mesmo tempo teatro e poesia. Então pensei sempre em escrever poesia em português que pudesse ser colocada no palco como poesia, matar dois coelhos e tal. Não sei se consegui, mas estava sempre com o ouvido aberto pros versos e rimas.

Você cita no teu texto o "Shakescleare", que é uma espécie de tradução do Shakespeare para inglês moderno. Achei bacana deixar claro para o leitor que, dada a dificuldade de um texto de quatrocentos anos, mesmo alguém que é acadêmico da área e tradutor profissional recorre a esse tipo de ferramenta.
O Shakescleare é para o público anglófono, né? Se eles precisam, como não precisaríamos? Temos que lembrar que mesmo as edições mais abalizadas hoje em dia atualizam o texto, e não só na ortografia e na pontuação. Há abismos entre o inglês de hoje e o dos “originais”. Não me furtei a consultar diversas edições, comentários, notas e outras traduções para chegar a essa minha versão. O tradutor que diz trabalhar sozinho, sem a tradição, a meu ver, está deixando de lado a chance de entender, inovar e fazer seu melhor trabalho. As definições mais antigas de filologia, ainda na antiguidade clássica, incluem “entender”, “explicar” e “transmitir” como partes fundamentais do trabalho com o texto literário.

Qual é o sentido maior de termos novas versões de Shakespeare, e especificamente de Romeu e Julieta, hoje? Para quem e para que serve esse texto? É mais para ser lido ou serve também para encenações? Você se preocupou em ser um texto "montável"?
Um clássico, como o intraduzível de Barbara Cassin, é um texto que nunca cessamos de (não) traduzir. Há várias traduções excelentes da peça, mas ela não para de nos dizer coisas. Novas traduções atualizam o texto, e também envelhecem. Em meu caso, o propósito era duplo: traduzir como literatura e como teatro. Então, espero, sim, que seja encenável. E espero que seja compreensível, mas não como uma adaptação. Temos o costume de adaptar os textos para o palco, como se as traduções fossem literatura e o que vai para o palco tivesse que necessariamente passar por uma operação intersemiótica, de transferência de mídia. Mas há grupos que trabalham muito bem com a poesia em cena, e, para ficar com exemplos locais, cito a companhia Iliadahomero de Octavio Camargo, que encena a tradução mais difícil de Homero, a de Odorico Mendes, e a Ana Rosa Tezza da Ave Lola, que, em sua maravilhosa encenação de “Sonho de uma noite de verão”, colocou os decassílabos de Bárbara Heliodora em cena muito belamente.

Vem mais por aí?
Acaba de sair meu segundo Sêneca pela editora Goya, depois das "Metamorfoses" de Ovídio pela Penguin. No momento, estou trabalhando na "Eneida" de Virgílio, ainda em busca de uma editora.

Serviço
Lançamento de "Romeu e Julieta", de Shakespeare
Tradução de Rodrigo Tadeu Gonçalves
Editora Antofágica
Casa Pagu (Rua Benjamin Constant, 400)
Quinta (3), a partir de 19h
Show da banda Pecora Loca

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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