A eleição de 2026 no Paraná, mantidas as coisas mais ou menos como estão, será entre uma disputa interna da direita. Nunca houve clima para lulismo por aqui, e agora ainda menos: o bolsonarismo fez aflorar instintos que até então eram (discretamente, ou nem tanto) mantidos abaixo da superfície, e o resultado foi que a direita - tradicionalmente forte - se tornou ainda mais imbatível. À exceção de ser derrubada pela direita ainda mais extrema.
Em 2024, foi o que se viu em Curitiba, quando Eduardo Pimentel quase foi derrotado por não ser visto como suficientemente à direita. Veja bem: o sujeito é neto de Paulo Pimentel, ligado a Ratinho, ex-coordenador de campanha de Bolsonaro. Mas viu surgir no último instante uma candidatura de tons fascistas que quase o derrubou.
Qual foi o antídoto de Pimentel contra a ultradireita? Nas entrevistas, nos debates, começou a dizer que ideologia não era algo tão importante. "Ideologia não coloca comida na mesa de ninguém, não coloca remédio na prateleira do posto de saúde", dizia ele. Cristina Graeml, a adversária, que de fato vivia de um discurso ideológico vazio contra um comunismo inexistente, não teve como ganhar disso.
Há um truque por trás desse discurso: o que Pimentel estava dizendo era que, sim, ideologia importava, e ele era igualmente bolsonarista. Tinha currículo para isso (embora currículo e bolsonarismo pareçam palavras estranhas uma à outra). O que o diferia de Cristina era que ele, além de radical contra a esquerda, também tinha algo a mais na cabeça. Sim, ele era capaz de aderir a alguém tão radical quanto o capitão, ninguém se enganasse. Mas era (no fundo se tratava disso) menos tosco.
A campanha, àquela altura, já era dominada pelo marqueteiro de Ratinho Jr. (PSD), o argentino Jorge Gerez. E, se deu certo para Eduardo, por que não para o governador? Se você reparar, não há uma entrevista recente em que Ratinho não use uma frase decorada que diga basicamente isso. "O povo não quer essa brigaiada." Ou então: "Eu não perco tempo brigando, o povo não me paga para brigar".
Às vezes, repete quase ipsis literis a frase cunhada para a campanha do pupilo: "Ideologia não põe comida na mesa da dona Maria". Ou uma variante: "Imagina a dona Maria, que levanta às cinco da manhã, pega três ônibus para ir trabalhar e ainda quando chega em casa tem político brigando na televisão".
A mensagem é clara. Ratinho é igualmente capaz de radicalismos. Esteve com Jair até os 45 minutos do segundo tempo e jamais questionou as evidentes tentativas do ex-presidente de solapar a democracia. Em seu governo, a Polícia Militar já matou 2,3 mil pessoas e o governador parece, como Tarcísio de Freitas (Republicanos), não estar "nem aí".
O recado, porém, é que ele sabe que muita gente cansou mesmo desse bolsonarismo estridente. E portanto ele precisa fazer um discurso duplo: para os que seguem fãs do fascismo tropical, seu currículo já diz tudo. Para os demais, precisa se disfarçar. Em entrevista recente, chegou a dizer que se considera, pasmem, de "centro-direita". Se essa é a direita mais próxima do centro, imagina a mais distante.
Há um elemento a mais nessa equação: Bolsonaro, na eleição do ano que vem, não só continuará inelegível como deve estar preso. E a cada semana que passa, se descobrem novos escândalos que, convenhamos, qualquer alma mais ou menos sã sabia que ocorriam naquela família bizarra.
E não são só Eduardo e Ratinho. O neocentrismo de ocasião também ganhou a adesão de Alexandre Curi (PSD), que em vídeo nas redes sociais, como pré-candidato ao governo, disse, vejam só, que "não perde tempo com briga ideológica". Como Ratinho e Eduardo, quer apenas saber de comida na mesa do paranaense.
Alguém aí deve ter acesso à pesquisa qualitativa que fez surgir todo esse novo (e um tanto suspeito) espírito moderado de nossa direita. Agora é ver se um radical como Paulo Martins (Novo) ou a própria Cristina Graeml (agora no Podemos), não terá como atropelá-los com um discurso mais abertamente radicalizado.