Destruído por um tornado na noite de sexta-feira (7), Rio Bonito do Iguaçu aparece nas primeiras posições entre os município brasileiros que mais perderam Mata Atlântica nas últimas décadas. Além de ser uma das causas das mudanças climáticas, o desmatamento deixa áreas planas desprotegidas durante eventos extremos como o registrado na sexta, que deixou seis mortos, mais de 800 feridos e uma cidade com mais 13 mil habitantes arrasada na região central do Paraná.
De acordo com a plataforma MapBiomas, que reúne dados de organizações não governamentais, universidades e empresas de tecnologia, a perda de vegetação na região de Rio Bonito do Iguaçu foi de aproximadamente 60% nos últimos 30 anos. Em 1985, 56,8% de território era composto por floresta e 35,5% ocupado pela agropecuária. Já em 2024, 67,9% da área era destinada à agropecuária e a cobertura vegetal foi mantida em somente 24% .
Um levantamento da SOS Mata Atlântica também coloca o município como um dos campeões do desmatamento. Entre 1985 e 2015, segundo a entidade, Rio Bonito do Iguaçu foi a cidade brasileira que mais desmatou a Mata Atlântica. Pelo menos 24,9 mil hectares de floresta foram destruídos no período, o equivalente à área de uma capital como Fortaleza.

Barreiras para o vento
O climatologista e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Francisco Assis Mendonça destaca que áreas planas são mais suscetíveis à ocorrência de ventos fortes. A localização do município, que tem proximidade com o Rio Paraná e recebe correntes de ar frio que vêm da Argentina, também é propícia à formação de tornados – em 1959, 90 pessoas morreram em decorrência de um tornado que atingiu as regiões Centro-Sul do Paraná e Norte de Santa Catarina.
Segundo Mendonça, quebra-ventos formados por árvores ajudariam a reduzir a velocidade dos ventos. "Temos exemplos clássicos na agricultura de regiões onde foram criados os quebra-ventos arbóreos. Em uma área de produção, para que o vento não destrua tudo, foram construídas linhas de árvores no meio da plantação. Quando não tem nenhum anteparo, como uma montanha ou uma serra, o vento pega velocidade. Esse tipo de tornado só acontece em lugares planos".
Os tornados são formados a partir de grandes variações de temperatura. "Os ventos têm direções variadas, de regiões de alta para baixa pressão, mas não sopram retilineamente, acompanham as curvas do relevo e a oscilação das temperaturas", afirma o climatologista. "Quando tem uma variação muito grande de temperatura, desenvolve um movimento, porque o ar responde aos movimentos giratórios da Terra. Quando é muito intensa a variação de temperatura e pressão entre os lugares, isso vai se desenvolver de maneira muito rápida. O tornado é um fenômeno local, mas está ligado a fenômenos de maior escala, que pegam uma região maior, chamados de ciclone".
Retrocesso
Os riscos do desmatamento parecem não ser levados em conta por governantes e legisladores, que vêm aprovando leis cada vez menos restritivas, sempre com o argumento de "facilitar" os licenciamentos para produtores rurais.
Em julho, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei para flexibilizar os licenciamentos ambientais, que criou a licença por adesão e compromisso e a licença de operação corretiva, tornou a manifestação de entidades meramente opinativas e permitiu a renovação da licença com simples declaração do empreendedor. Chamado de PL da Devastação, o texto teve 63 pontos vetados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No Paraná, o governador Ratinho Júnior (PSD) apresentou um projeto anterior ao PL da Devastação. Aprovado em regime de urgência pela Assembleia Legislativa em novembro (apesar dos alertas do Ibama), o projeto praticamente inviabiliza a participação de órgãos federais no processo, institui a inexigibilidade de Licença Ambiental, a Declaração de Dispensa e licença "por adesão", com licenciamento “automático e informatizado, mediante Declaração de Adesão e Compromisso". O projeto foi repudiado por 292 entidades de defesa do meio ambiente.
"O projeto aprovado no Congresso traz uma medida absurda, deixar que o próprio proprietário avalie se pode ou não desmatar. Está colocando a raposa dentro do galinheiro", diz Francisco Assis Mendonça.
"Historicamente, os proprietários de terra desmatam porque acham que não vai ter nenhum problema. São pessoas inconsequentes. E o Congresso Nacional foi de uma irresponsabilidade com o meio ambiente jamais vista. As coisas só podem piorar".
Francisco Assis Mendonça, climatologista e professor da UFPR
Para Mendonça, cumprir o que diz o Código Florestal de 1975 seria um avanço no atual cenário. "A gente tem o Código Florestal, que ainda deixa a desejar, mas que é um avanço quando diz que 20% das propriedades devem ter mata natural, além das áreas de nascentes, dos topos de morros e de encostas. Se pelo menos isso fosse obedecido, nós evitaríamos tragédias como essa, o ressecamento de rios, a perda de lençóis freáticos. A sociedade só quer explorar e produzir".
Só 0,8% da cobertura original
De acordo com o SOS Mata Atlântica, atualmente o Paraná tem só 0,8% da cobertura natural do bioma. "De 8 milhões de hectares sobraram 60 mil fragmentados. Em oito décadas, exaurimos essa floresta, que cobria um terço do estado", diz o diretor-executivo da SPVS, Clóvis Borges. Ele destaca que o último estudo é de 2001. "Esse é o primeiro e único estudo já realizado com checagem em campo. Em média, o Paraná perde de 3 a 6 mil hectares por ano".
"Eventos extremos em geral são impactados pelo aquecimento global e pelas condições de resiliência e adaptação. Nesse segundo ponto, não somos apenas negligentes nas últimas décadas. Estamos jogando contra".
Clóvis Borges, coordenador do SOS Mata Atlântica
Ocupação do solo em Rio Bonito do Iguaçu:
Em 1985:
1. Floresta (56,8%)
2. Agropecuária (35,5%)
3. Água (7,7%)
4. Área não vegetada (0,1%)
Em 2024:
1. Agropecuária (67,9%)
2. Floresta (24%)
3. Água (7,6%)
4. Área não vegetada (0,5%)
Três tornados
O Simepar informou nesta segunda-feira (10) que três tornados que atingiram o Paraná na noite de sexta. Foram registrados ventos de até 330 quilômetros por hora. Além de Rio Bonito do Iguaçu, também foram registrados tornados em Guarapuava e Turvo. Segundo o Simepar, as condições atmosféricas reuniram três fatores que favoreceram o fenômeno: calor intenso, alta umidade e mudanças bruscas na direção dos ventos.
Ventos com velocidade entre 300 km/h e 330 km/h foram registrados em Rio Bonito do Iguaçu. Em Guarapuava, o distrito de Entre Rios foi atingido com ventos de até 250 km/h. Em Turvo, as rajadas chegaram a 200 km/h.
A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) confirmou nesta segunda que 21 pessoas seguem internadas na região. São 13 hospitalizados em Guarapuava, cinco em Laranjeiras do Sul e três em Cascavel. Segundo o Corpo de Bombeiros, não há mais buscas e resgates em andamento. A Sesa contabilizou 835 atendimentos a feridos e seis mortes – cinco em Rio Bonito do Iguaçu e uma em Guarapuava.