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Céline e “A vida e a obra de Semmelweis”

“Uns vão súditos, e voltam cidadãos”

Céline e “A vida e a obra de Semmelweis”
Louis-Ferdinand Céline. Foto: Reprodução
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Céline poderia ter contato a história de um médico sanitarista do modo mais simples: fulano nasceu em tal data, morreu aos tantos anos e fez isso ou aquilo, descobriu que lavar as mãos podia salvar vidas, etc. Mas não. Céline é Céline, o “maldito antissemita”, o “anti-Proust”. Já explico isso. Ele é também conhecido por ser “o revolucionário”.

A certa altura da narrativa, Céline se autodenomina “biógrafo”. É a contrapartida de alguém como Lucien Febvre chamar para si a nomenclatura “artista”. (Aqui, roubo descaradamente uma citação de Hervé Mazurel na abertura de História das Sensibilidades.) E creio que a partir daí muita coisa se possa discutir sobre esse livrinho. Temos aqui um escritor biógrafo em oposição a um historiador artista.

Este texto sobre a vida (ou parte da vida) de Semmelweis, teria sido a tese de formatura de Céline no curso de Medicina. Não convém comparar uma tese dos tempos de Céline na faculdade de Medicina com as teses de hoje... O texto provavelmente tenha vido a lume em 1922 ou 1924 (há diferença de datas). Obviamente, não podemos pensar nas teses brasileiras, como mencionei, justamente porque o texto, hoje, é escrito com normas bastante chatas e rigorosas e que fazem de um cidadão um doutor. Ali, já aparece o sujeito que deixa de ser Louis-Ferdinand Destouches para ser Louis-Ferdinand Céline, ou melhor, Céline. É o texto de um sujeito que tem a capacidade incrível de escrever algo que possa ser chamado de literário. Algumas características da linguagem do escritor francês já aparecem: as frases quebradas, curtas e de efeito, um modo de lidar com a história, o registro oral do francês, o uso de aforismos a partir dos quais ele constrói a história toda, e a narrativa sobre um personagem de modo a mirar não exatamente na vida dele mas o que ela representa. Céline fala menos da grande – e triste – descoberta de Semmelweis (lavar as mãos pode salvar vidas – e ele percebeu isso no dia a dia de uma maternidade) e mais do que ela lhe trouxe como resultado de vida: raiva, desprezo, ódio, inveja, vingança. Eis o ponto onde aflora o futuro escritor: sua ácida visão das coisas do mundo e da relação entre sujeitos.

O meio acadêmico (o do saber em geral, o do saber “oficial”) é igual em todo lugar, porque o saber é manipulado por sujeitos humanos, simples assim. Talvez só mude o endereço. Outro dia, neste mesmo espaço, escrevi sobre o livro de John Williams, Stoner, em que faço alguns comentários sobre as veleidades do meio acadêmico. Num certo momento da narrativa (não esqueça que é uma tese de conclusão de curso), Céline, sem medo de escândalo, escreve que um certo médico até acreditava que lavar as mãos pudesse salvar mulheres, mas passou a não as lavar simplesmente para, ao ver mortas as mulheres, atrapalhar Semmelweis, então seu superior.

Este tipo de observação vai berrar alto em De castelo em castelo.

Ocorre também que A vida e a obra de Semmelweis não é apenas uma tese de fim curso de Medicina. Podemos imaginar que num curso de Medicina – e ainda a área de Céline era a Medicina sanitária – o interesse de uma tese seria pelo modo como um médico húngaro, que foi completar os estudos em Viena, percebeu, após muitas observações e levantamentos numéricos, que a limpeza salvava vidas, muitas vidas. Mas Céline esmiúça outras situações, grande parte do cenário do que viria a ser o império austro-húngaro, as diferenças culturais, as diferenças de mentalidades (entre médicos húngaros, austríacos, franceses, italianos, ingleses), o modo antiquado e conservador de se praticar a medicina, pendendo mais para uma discussão sobre miasmas e fantasmagorias do que propriamente para um discurso científico (o que viria a ser o que chamamos, claro, de ciência médica), as situações de inveja, perseguição, poder no meio médico, nas faculdades, nos hospitais, no seio do poder público. Não citei em vão Mazurel logo acima: a escrita de Céline nesse livrinho pequeno lembra a dos historiados das sensibilidades: elas ajudam a entender (ou investigar, pelo menos) uma época.

Há um trechinho que me chamou a atenção pela sutileza: numa região em que o alemão era língua franca (mais que o francês, por exemplo), os colegas de Semmelweis (de nome germânico) desprezavam seu sotaque “magiar” (húngaro). Seus colegas austríacos deviam odiar tudo que não fosse germânico: húngaro, eslavo, urálico, báltico, latino...). Nesses momentos, Céline é grande porque constrói com muito pouco vocabulário todo um cenário portentoso e repleto de significados.

Daí, podemos nos perguntar se A vida e a obra de Semmelweis é uma biografia. É uma tese de uma época bem definida (anos 1920), é um escrito “romanesco” (ao modo de um romance, ou ao menos o que se convencionou chamar disso), é um texto historiográfico também, mas mesclado. Temos um médico a falar de outro médico, e de um modo tão particular, que a vida dos dois se confunde às vezes. Céline, aqui e ali, ao falar de Semmelweis, parece falar dele mesmo. Em verdade, não há tanta distância entre os dois – e no meio do caminho Pasteur realiza importantes estudos sobre microrganismos, sendo seguido, por exemplo, por médicos ingleses. Mas os estudos de Pasteur, infelizmente, não alcançaram Semmeweis, ou vice-versa. Este morreu pobre, esquecido, numa situação de dar pena.

E, ao longo dessa escrita por si só revolucionária, se acreditarmos que em Céline temos um anti-Proust, há detalhes incríveis. Céline percebe que grande parte das conquistas médicas (e eu nem diria “de seu tempo”) advém de necessidades da guerra. É o homem mutilado da guerra que precisa ser tratado, afinal. É o homem destruído pela guerra que precisa de penicilina e próteses. É o jovem que volta parcialmente cego que necessita de óculos específicos ou tapa-olhos dignos.

Na busca de Semmelweis, ele tem à disposição números, que são, basicamente, coisas frias: tantas pessoas morreram numa ala do hospital; tantas viveram após medidas básicas de higiene; tantas pessoas morreram no verão, outras tantas no inverno; tantas morreram em Viena e outras tantas em Turim, e por aí vai. Mas, estruturalmente falando, em se tratando do como ele constrói textualmente isso, temos algo, veja você, parecido com o romance policial tradicional, em que pistas vão sendo lançadas, sem o poder do acaso e sim como estratégia de escrita.

Ao mesmo tempo, Céline se coloca como Semmelweis, que também teria escrito uma tese de formatura pouco convencional. Temos, então, duas teses: a tese de Céline e a tese de Semmelweis, temos os estudos de Céline e os estudos de Semmelweis, temos as dificuldades do primeiro, mais veladas, e as do segundo, mais abertas e clarificadas.

Este é o mesmo Céline que escandalizará meio mundo com Viagem ao fim da noite, com Morte a crédito, e com os textos antissemitas que fizeram dele, em muitos terrenos, um maldito. É o mesmo Céline que, depois da guerra, precisa fugir e transforma sua fuga num livro ácido, repleto de ironias e raiva, venenoso, que é De castelo em castelo. E foi justamente este texto que resgata o homem Céline (que dizia de si mesmo que não era um homem de ideias e sim um homem de estilo). Dos escritores que conheço, Céline é o que mais vive uma montanha-russa, de subidas e decidas em termos de paixões e refutamentos.

Sim, sei o quanto Céline é polêmico, mas também sei o quanto sua escrita é memorável. Não creio que nas grandes livrarias as três obras citadas aqui sejam encontradas atualmente (as três com tradução de Rosa Freire d’ Aguiar), mas em sebos você pode encontrá-las. Mas corra: as edições de Céline viram coisa de colecionador.

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