O deputado federal e ex-governador Beto Richa (PSDB-PR) gastou em média R$ 4,7 mil por mês desde 2023, quando teve início a atual Legislatura, com o aluguel de veículos. Um total de R$ 152.942,86 referente a locações foi reembolsado de forma legal pela Câmara dos Deputados. Todas as 26 notas desde o início do mandato foram emitidas pela Cotrans, empresa de Curitiba que também presta serviços para a Prefeitura e que foi contratada pelo tucano em suas campanhas.
Das 26 notas reembolsadas pela Câmara, nove dizem respeito ao aluguel de um modelo definido apenas como “SUV passeio completo 4 portas”. Outras nove dizem respeito à locação do modelo Toyota Corolla Cross; cinco são relativas ao aluguel de “veículo passeio 1.0”; duas ao modelo Volkswagen Tinguan 4 portas 2.0; e uma ao aluguel de um Jeep Commander Limited 4.0. Os modelos 1.0 foram locados em cinco meses deste ano, de fevereiro a junho – quando também foram registrados aluguéis de SUVs (também foram emitidas duas notas em setembro de 2024).
Veja os valores a cada mês:
2023
Julho - R$ 5.500,00
Agosto - R$ 5.500,00
2024
Janeiro - R$ 6.500,00
Fevereiro - R$ 6.500,00
Março - R$ 6.500,00
Abril - R$ 6.500,00
Maio - R$ 6.500,00
Junho - R$ 6.500,00
Julho - R$ 6.500,00
Agosto - R$ 6.500,00
Setembro - R$ 4.800,00
Setembro - R$ 2.600,00
Outubro - R$ 8.000,00
Novembro - R$ 8.000,00
Dezembro - R$ 8.000,00
2025
Janeiro - R$ 8.000,00
Fevereiro - R$ 8.000,00
Fevereiro - R$ 942,86
Março - R$ 8.000,00
Março - R$ 2.400,00
Abril - R$ 8.000,00
Abril - R$ 2.400,00
Maio - R$ 8.000,00
Maio - R$ 2.400,00
Junho - R$ 8.000,00
Junho - R$ 2.400,00
Relação antiga
A relação de Richa com a Contrans vem ao menos desde 2004, quando o tucano concorreu à prefeitura de Curitiba pela primeira vez. Na campanha daquele ano, o tucano destinou R$ 50 mil à empresa. Em 2008, quando Richa foi reeleito prefeito, a Cotrans recebeu R$ 368.825,69 da campanha do tucano.
Richa foi eleito governador pela primeira vez em 2010 e as locações durante a campanha somaram R$ 1.229.954,41 (foi o terceiro maior gasto do então candidato); reeleito em 2014, o tucano destinou R$ 216.602,50 ao aluguel de veículos da Cotrans; em 2018, quando disputou uma vaga no Senado, foram gastos R$ 22.906,61; e em 2022, quando Richa foi eleito deputado federal, o valor foi de R$ 7.812,33. Os dados estão disponíveis no Divulgacand, o sistema de divulgação de contas eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O foco da Cotrans é no fornecimento de frotas para empresas e órgãos públicos, e não a locação de individual de veículos. Por meio de sua assessoria, Beto Richa informou que não comentaria o assunto.
Contratos com a Prefeitura
A Cotrans presta serviços à prefeitura há três décadas e os contratos foram alvo de questionamento por parte de vereadores no início da década de 2010. No ano passado, segundo o portal da transparência da Prefeitura de Curitiba, a empresa recebeu um total de R$ 65.594.073,22. Neste ano, foram R$ 41.147.395,86.
Neste ano, o prefeito Eduardo Pimentel (PSD) prorrogou o contrato da Fundação de Ação Social (FAS) com a Cotrans, como mostrou matéria publicada pelo Plural em abril. O contrato de 2023 era no valor R$ 17,89 milhões e recebeu um novo aditivo em 2 de abril de 2025, no valor de R$ 18,55 milhões.
Condenação administrativa
Em outubro de 2022, o Tribunal Administrativo do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) condenou a Cotrans por formação de cartel na licitação para o aluguel de equipamentos e veículos para o programa Patrulha do Campo, durante o primeiro governo de Beto Richa.
A investigação foi um desdobramento da Operação Rádio Patrulha, que envolveu a celebração de acordo de leniência com a empresa Ouro Verde. A operação conduzida pelo Ministério Público do Paraná investigava um suposto esquema de pagamento de propinas para desvio de recursos do programa Patrulha do Campo, desenvolvido pelo governo para recuperar estradas rurais.
De acordo com a investigação, foram adotadas condutas anticompetitivas entre 2011 e 2014, no primeiro governo de Richa. O objetivo seria reduzir a competição da licitação promovida pela Secretaria de Estado da Infraestrutura e Logística e pelo Departamento de Estradas e Rodagens do Paraná (DR-PR). A empresa foi multada em R$ 17 milhões e ficou impedida de firmar contratos com o poder público por cinco ano.
Richa chegou a ser preso, em setembro de 2018, mas foi libertado logo em seguida por ordem do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em outubro, ele e outras 12 pessoas viraram réus – entre elas o seu irmão, Pepe Richa, que era secretário de Infraestrutura e Logística.
Em março do ano passado o ministro do STF Dias Toffoli declarou nulos os processos contra Beto Richa (PSDB). Além dos processos decorrentes da operação Rádio Patrulha, foram anulados referentes às operações Quadro Negro, Integração e Piloto.
Pagamentos legais
Os reembolsos feitos pela Câmara dos Deputados são legais e fazem parte da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap), a que cada deputado tem direito para custear gastos diversos. O Plural está fazendo um levantamento dos gastos dos parlamentares e na quarta-feira (23) mostrou que o presidente do PL no Paraná, Fernando Giacobo (PL), destinou mais de R$ 1 milhão a três empresas que funcionam no mesmo endereço em Francisco Beltão, no Sudoeste do Paraná.
Neste ano, segundo o portal da transparência da Câmara, Beto Richa obteve o reembolso de R$ 173.439,75 referentes à cota parlamentar, que foi instituída em 2009 e unificou as verbas indenizatórias. Os deputados têm até 90 dias para apresentar a documentação que comprova o gasto e os valores do reembolso são depositados na conta do parlamentar em até três dias.
Além da Ceap, os deputados federais têm direito à verba de gabinete, no valor de R$ 133.170,54 por mês, para a contratação de até 25 secretários parlamentares, que trabalham para o mandato em Brasília ou nos seus estados de origem. O total de verba de gabinete gasto por Beto Richa neste ano foi de R$ 461.910,54, de acordo com os dados do portal da transparência da Câmara.