
A notícia da morte de Dalton Trevisan começou a circular na noite de segunda. Por motivos que não vêm ao caso, nós aqui no Plural sabíamos mais ou menos o dia a dia do declínio da saúde do velho, sabíamos que aquilo não demoraria a acontecer. Mantivemos tudo em sacrossanto silêncio. E eu só me lembrava da "Canção do Exílio" que Trevisan escreveu, prevendo um show de horrores quando a morte chegasse a ele.
em Curitiba a morte não é séria um vereador gaiato já te muda em nome de rua ao menos fosse de mulheres da vida nem pensar no necrológico o Wanderlei já imaginou ó santo Deus não o Wanderlei sem contar a sessão pública dos onze positivistas oficiada pelo grão-mestre Davi nessa hora você desiste da própria morte em Curitiba é que não dá o Silvio iria filmar tua vida melhor não ter vivido dirá o Edu que foi teu amigo de infância antes nunca ter tido infância muito menos amigo tudo faça para não morrer em último caso que seja longe de Curitiba
Dito e feito. Começou com a correria de jornalistas atazanando as pessoas próximas a Dalton enquanto ele ainda dava o último estertor. Os realmente íntimos (tão poucos) se viram a um só tempo tendo que lidar com a perda do amigo e com a fúria sanguinária de quem queria cliques.
Um repórter de fora não entendeu nada da reclusão de Trevisan e publicou que haveria velório aberto. Correu-se atrás do velório inexistente. Ficou claro o que Trevisan queria quando de repente seu nome sumiu dos registros funerários (uma caridade do prefeito?): queria silêncio sobre ele naquele momento. Mas não. Nenhuma delicadeza foi possível.
Seguiu-se a longa fila de gente se dizendo amiga de um homem que teve pouquíssimos amigos. Apareceram os políticos que nunca leram Dalton nas redes sociais chorando hipocritamente por sua morte. E, para horror do morto, Ademar Traiano decretou um minuto de silêncio pelo passamento do escritor.
Aqui no Plural, só publicamos o obituário escrito lindamente pelo Irinêo Baptista Neto depois de todo mundo ter dado a notícia. De propósito. Lembramos o tempo todo a lição de Dalton sobre si mesmo: a obra é que era importante, não o homem. Ele nunca quis ser uma persona pública, nem nunca foi.
Acabei publicando a "Canção do Exílio" porque acho que, nesse momento, é o que temos de lembrar sobre o escritor e o que ele nos ensinou sobre nosso provincianismo. Mas se ele mal arranhou tudo isso que nos cerca em décadas da mais fina literatura, não vai ser agora...
Ficam os livros, que segundo ele era o que interessava. E são muitos, e são incrivelmente bons. Deixemos o homem em paz, era assim que ele queria. E vamos ver se lembramos de ler o que ele deixou. Há muito ali para aprendermos sobre nós.
Benett

Amanhã tem mais.