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Sobre o onírico, o real e o imaginado em Jon Fosse

Sobre o onírico, o real e o imaginado em Jon Fosse
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Bem; na primeira parte do texto sobre Jon Fosse, falei de dois rompimentos importantes para se tentar uma leitura das obras do autor norueguês: o rompimento do tempo e o rompimento da linguagem. Falei também de dois livros traduzidos para o português, “Trilogia” e “É a Ales”.

No primeiro, principalmente para o leitor que nunca tinha lido Fosse, fica patente a técnica da escrita dele, repleta de repetições (que apontam para uma dúvida do narrador ou dessa consciência, seja lá qual for, que fala na narrativa), vai-e-vens, alternâncias, mas fundamentalmente uma escrita que coloca o personagem num local duvidoso. A segunda parte, por exemplo, faz o leitor se perguntar se a personagem está viva. Esse mesmo leitor se questiona: de onde ele fala? Personagens mortas – e que falam – são conhecidas desde a Antiguidade, mas em “Trilogia”, Fosse faz algo incrível: não bastasse a poesia e a beleza dessa fala de um jovem, a narrativa é feita de um modo a gerar a dúvida, dúvida que é importante no todo da construção ficcional de Fosse. Não há pontos finais para Fosse, tampouco uma gramática fechada das coisas do mundo.

Para quem não leu Fosse, eu aconselho começar por “Triologia”.

Leio muito que a escrita de Fosse lembra a de Saramago. Trata-se de uma comparação feita pela superfície da escrita de ambos, por assim dizer: o rompimento com as regras básicas da sintaxe. Nas línguas ocidentais cuja estrutura principal é SVO (sujeito-verbo-objeto), costuma-se separar as orações em sintagmas (trechos com certo teor de sentido: nominal, adverbial, verbal) separados ou não por vírgulas e demais pontos. Claro que, ao ler Fosse e Saramago, haverá uma semelhança de escolha textual com rompimentos desses esquemas comuns: sujeito + verbo + complementos. Mas aqui e ali as coisas se dão discursivamente de modos distintos. Talvez um leitor ou outro se lembre de William Faulkner, outro se lembrará de James Joyce. Alguém mais antenado recordará de Claude Simon. Serão várias as lembranças, mas o que a crítica se acostumou a chamar “fluxo de consciência”, referindo-se antes a um processo textual do que exatamente a um fluxo de consciência, aqui terá um sentido específico (assim como cada um dos autores citados – e outros – terá usado em seu processo de escrita, fruto de um certo modo de se pensar a contemporaneidade; não sei se Foucault teve razão e este século é deleuziano... parece que continua muito freudiano, marxista, darwiniano, a pensar). Em Fosse, o tal fluxo ora se refere a um obcecado, ora a um neurótico, ora a uma pessoa em dúvida, ora a alguém que simplesmente pensa, está pensando, se põe a pensar, como eu ou você, repetindo coisas. Tentamos, o tempo todo, afinal uma organização das coisas. Mas aí entra um detalhe nada insignificante em Fosse: como não bastasse esse fluxo primeiramente gramatical, sintático, de uso das vírgulas e das repetições, há um fluxo de coisas intercaladas, como passado e futuro, lugares distintos, desejos mesclados, o real e o imaginado e o onírico versus o que é da vigília. Bastante coisa, certo? Talvez o leitor, se já acostumado ao fluxo de “Trilogia” encontre isso mais (in)definido em “Melancolia”.

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Já em “É a Ales” essas características serão encontradas também. Mas nessa pequena narrativa, os diferentes “momentos” da vida serão encontrados intercalados (como a imagem de painéis transparentes que eu citei na parte 1) até o paroxismo. Aqui, diferentemente do outro livro, o sentido das coisas será explorado até o desaparecimento. Talvez por isso a linguagem seja tão porosa – e simples, como eu já mencionei. Eu tinha dito que o universo de Fosse é um universo pequeno, restrito, e isso encontra eco na linguagem. Os leitores de Fosse se perguntam por que ele repete tanto os nomes “Ales” e “Asle” (um, anagrama do outro?), como se houvesse apenas duas pessoas no mundo. E ele fará isso mesmo, repetindo cada vez mais as frases e os pensamentos e reencontrando situações já descritas, de modo – e aí está a beleza de sua escrita – obsessivo mas poético.

Não posso deixar de mencionar, também, o processo pelo qual passamos quando tentamos reconstruir uma situação de memória. O que reconstruímos não é mais o vivido e sim uma sensação, uma lembrança, uma construção mental, e – dizem – talvez uma invenção. Se tentamos reconstruir algo muito antigo ou um sonho, teremos uma bruma. Essa bruma é quase literal em “É a Ales”.

Numa viagem que fiz passei parte dela com outra viajante, uma alemã, que conhecia uns cem países. Perguntei a ela o que todo mundo me pergunta: do que gostei mais nas viagens. Ela me respondeu: “os fiordes”. Eu perguntei o porquê. Ela disse: “porque não vi nada no mundo, nem as florestas densas, nem os desertos, nada, tão melancólico”. Essa sensação me veio – e falo como leitor comum aqui e não como estudioso – quando li Fosse pela primeira vez. Não à toa o primeiro livro que li dele chama-se “Melancolia”. Fiordes, sonhos, a noite, a bruma, a lembrança, a dúvida: excelentes chaves para você ler Fosse.

Vários personagens de Fosse são artistas, em particular pintores. Em “Melancolia”, Fosse narra um dia de surto do pintor norueguês Lars Hertevig, quaker como ele, que vai estudar na Alemanha. Esse dia de surto terá consequências severas no futuro de Hertevig. Então, Fosse escreve “Melancolia II”, que junta depois num livro só. Sim: não é mentira o que lemos de Fosse por aí; há muito de autobiográfico nas obras dele, mas esqueça qualquer traço de sofrimento engrandecedor.

Bom que o leitor se acostume a isso. A história de outro pintor aparece em sete pequenos romances, separados primeiramente em três ou quatro tomos, agora reunidos com o nome “Septologia”, sua obra mais ousada, bonita e extensa. As grandes questões humanas para Fosse aparecem ali: o amor sensual, as relações com o outro, o medo, a loucura, o sem-sentido das coisas, a busca de um sentido para elas. Esse “monstruoso” livro termina sem ponto final, e isso é muito simbólico em Fosse. Se o leitor procurar por saídas, soluções fechadas, desfechos acabados, bom que procure um romance policial tradicional que tenha um assassino bem definido.

Já me perguntei por que razões um pintor e não um escritor... Talvez porque haja proximidade entre esses dois artistas, talvez porque ele não quisesse falar de seu ofício ou talvez porque na pintura realista a dúvida seja mais visível do que na escrita. Eu francamente não sei.

Não vi ainda uma investigação da obra de Fosse pelo viés da religião, mas é algo curioso perceber que suas personagens estão sempre numa busca não exatamente das coisas físicas. Então, finalizo com uma frase bastante hermética do grande mestre de Fosse, Eckhart: “o tempo é o que impede que a luz nos alcance. Não há obstáculo maior para Deus do que o tempo”. Ambígua como seus incríveis relatos. O tempo como uma das grandes questões de Fosse. O tempo como uma das grandes dúvidas humanas: sabe aquela dúvida que volta e meia pode nos abater, que é “e se tivéssemos seguido outro caminho, como seria?” Fosse traz esse questionamento colocando possibilidades, assim como ele coloca as personagens, volta e meia, frente a um espelho fazendo a seguinte pergunta: “quem é esse?” Seremos um arremedo dos nossos antepassados? Seremos mais do “outro” do que pensamos? Somos um eco de nós mesmos, repetindo atitudes e situações?

Há muitas coisas que não vemos, mas que “sabemos” existir (falarei disso melhor quando tratar de “Solenoide”). Há a força gravitacional, a atração entre ímãs, o próprio vento, que “vemos” por objetos que se movem, etc. Esses mistérios estão presentes na obra de Fosse. Espero que “Septologia” ganhe uma bela edição brasileira.

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