Jorge Guaranho será julgado nesta quinta-feira (13), dois anos e meio depois de matar Marcelo Arruda. O júri, de três dias, é um dos mais importantes que o país verá neste ano, e por um motivo simples: caso Guaranho saia solto na noite de hoje, será a prova de que a barbárie venceu o confronto contra a civilização no Brasil.
Não há qualquer razão possível, dentro de um mundo em que ainda valha a justiça, para uma possível absolvição de Guaranho. Um homem morreu e não há dúvida de que foi ele quem matou. E embora a defesa (que está no seu direito) tente alegar legítima defesa, ninguém em são consciência pode acreditar nisso.
O motivo do crime foi a intolerância. Guaranho, um extremista de direita, ficou enfurecido ao ver uma festa em que as pessoas celebravam o Partido dos Trabalhadores. Foi até lá para provocar o aniversariante, começou uma discussão e depois de ser enxotado prometeu voltar.
Não existe maior prova de premeditação: ele anunciou que voltaria. E voltou armado.
A defesa se agarra a alguns elementos para tentar provar que o crime não foi político. O principal é que Arruda, ao se ver confrontado por Guaranho, jogou um punhado de terra contra o carro do bolsonarista. Parte da terra teria acertado o olho do filho de Guaranho, no banco de trás.
Dá pra dizer que a presença da criança torna ainda mais grave tudo que Guaranho fez: o ex-policial penal foi até lá para brigar levando o filho pequeno junto.
Independente disso, fica claro que Guaranho também não agiu no calor do momento. Saiu da festa, voltou para casa, deixou o menino e pegou a arma. Se estava nervoso, teria tido todo o tempo do mundo para baixar a adrenalina e mudar de ideia. Mas não: preferiu voltar, e voltar armado.
O outro ponto a que a defesa se agarra é que quando Guaranho cumpre a ameaça e volta, o primeiro a sacar a arma é Arruda. O argumento aqui é de que o bolsonarista, portanto, estaria meramente se defendendo. Legítima defesa.
Mas não faz sentido. Foi ele quem ameaçou voltar e voltou. Foi ele quem começou a briga e prometeu encerrar o que tinha começado. Arruda, o morto, não está em julgamento aqui - mas mesmo que estivesse, faria sentido que, ele sim, ameaçado, mostrasse que tinha como se defender.
Guaranho, não. Não tinha nenhum motivo para voltar à festa, a não ser um único: queria briga, queria violência. E, sendo que voltou armado, sabe-se que a violência que ele pretendia cometer chegava a um grau extremo, como de fato chegou.
A defesa tenta dizer que foi uma briga em que os dois tiveram culpa, e que Guaranho apenas sobreviveu porque sacou mais rápido, ou porque atirou melhor. É mentira.
Um dos lados estava tranquilamente numa festa, numa celebração da vida. Se não fosse pela presença de Guaranho, a festa teria transcorrido na maior paz. O problema só existiu porque, intolerante com o ponto de vista alheio, Guaranho quis se impor, nem que fosse na base da bala.
Foi ele quem provocou a briga. Foi ele quem ameaçou voltar. Foi ele quem voltou armado. E foi ele quem matou.
Dizem que o Brasil está polarizado, o que passa longe de ser uma boa descrição. Prefiro a frase do jornalista Alvaro Borba, do Meteoro: "A verdadeira polarização no Brasil é entre quem quer ter o direito de viver e quem quer ter o direito de matar. De que lado você está?"
Eu estou do lado de quem queria viver e celebrar a vida. E se queremos que a suposta polarização não transforme o Brasil em um lugar sem lei em que os intolerantes possam sair atirando em quem bem entendam, é fundamental ver Guaranho preso pelo maior tempo possível.
Ou condenamos Guaranho, ou o país fracassou violentamente como projeto de civilização.