
Muita coisa mudou na relação dos brasileiros em geral com os povos indígenas. Quarenta anos atrás, quando eu estava na escola, o 19 de abril, “Dia do Índio”, era a comemoração de algo quase folclórico: umas pessoas que imitávamos colocando uma pena na beça e dançando em roda em rituais tirados de faroestes. Enquanto isso, Baby Consuelo cantava no rádio que em tempos primordiais “todo dia era dia do índio”.
E, sem que nos déssemos conta, áreas pertencentes àqueles povos (que nada tinham de folclóricos) estavam sendo inundadas e, sob o governo militar, acontecia um verdadeiro fratricídio do Oiapoque ao Chuí - a marcha para o interior era seguida de investimentos maciços em desenvolvimento, com usinas e estradas que exigiam deslocar povos e aniquilar culturas.
Hoje os povos indígenas seguem alvo de uma política de negação de direitos e de opressão. Estão aí o Marco Temporal e a bancada ruralista que não deixam essa afirmação soar exagerada. O que mudou, talvez, seja a percepção que o país tenha sobre esses temas. Ou, pelo menos, parte do país.
A série de reportagens sobre o genocídio do povo Xetá no interior paranaense, publicada pelo Plural ao longo da semana, é um exemplo dessa mudança. O repórter Rodrigo Matana, que fez o trabalho pela Agência Escola da Universidade Federal do Paraná, cresceu com outro tipo de visão.
Leia as reportagens da série
Setenta anos após genocídio, povo Xetá segue sem reparação
Reencontro de sobreviventes reergueu povo quase exterminado
Governadores, empresas e café contribuíram para quase extermínio dos Xetá
Um legado político e econômico construído sobre o genocídio
Novas gerações dão continuidade à luta
Algumas mudanças parecem perfumaria, como usar “indígenas” ao invés de “índios”, ou rebatizar a data para “Dia dos Povos Originários”. Se ficar nisso, sim, de pouco adianta. Mas aparentemente isso é consequência de uma longa reflexão feita pelo país e que tem na escola e na mídia seus mensageiros.
A imprensa tem sua parte nisso, a academia também. E o Plural tem imenso orgulho de estar em parceria contínua com universidades, e especialmente com a UFPR, para publicar esse tipo de relato.
No caso da série Resistência Xetá, tudo nasceu da leitura de uma tese de doutorado. A Agência Escola, que faz justamente o trabalho de traduzir e disseminar a produção acadêmica, se empenhou em estudar o assunto e o resultado foi um aprofundamento que levou a reportagem a campo, a entrevistas com especialistas e à procura dos descendentes e sobreviventes do genocídio.
Mais do que isso, os textos mostraram que a população alvo de governos estaduais, empresas e de cafeeiros, nunca teve qualquer tipo de reparação pelo que sofreu.
O 19 de abril precisa ser sempre um dia de reflexão sobre os milhões de homens, mulheres e crianças que desapareceram deste lugar nos últimos quinhentos anos e que, ainda hoje, reduzidos a uma minoria, seguem sofrendo perseguições, preconceitos e perdas.
Que a série sobre os Xetá seja mais um passo para nossa conscientização sobre isso.