Dois números raramente aparecem na mesma frase. Em 2025, o Paraná tem 4.027.128 adultos que não concluíram o ensino médio — 45,8% de toda a população com 18 anos ou mais. No mesmo ano, a rede estadual de ensino oferece vagas na Educação de Jovens e Adultos para 35.827 deles. Menos de 1% do total que precisaria.
Esse não é o estado em que o Paraná estava em 2019. Naquele ano, a rede estadual tinha 125.881 alunos matriculados na EJA. Seis anos depois, o número caiu 71,5%. A queda não tem explicação demográfica — o público da EJA é adulto, e a população adulta do Paraná cresceu no período. Ela reflete uma decisão de onde não alocar recursos.
A pergunta que os dados permitem responder é: quanto tempo essa decisão vai custar?
O corte
Em 2019, todas as redes de ensino do Paraná somavam 172.185 matrículas na EJA. Em 2025, são 75.543 — uma queda de 56,1% em seis anos. A retração aconteceu em todas as redes, mas foi concentrada no Estado.
| Rede | Matrículas 2019 | Matrículas 2025 | Queda |
|---|---|---|---|
| Estadual | 125.881 | 35.827 | −71,5% |
| Municipal | ~27.000 | ~23.000 | ~−15% |
| Privada e federal | ~19.000 | ~17.000 | ~−10% |
| Total | 172.185 | 75.543 | −56,1% |
Fonte: Censo Escolar INEP, todas as redes, Paraná.
Junto com as vagas da EJA, a rede estadual eliminou 127.175 vagas no ensino noturno — de 210.128 para 82.953 matrículas. O noturno é a modalidade que permite que trabalhadores estudem. A queda nas duas modalidades obedece à mesma direção.
No acumulado de 2020 a 2025, comparando cada ano ao patamar de 2019 como referência, o Paraná deixou de oferecer 441.283 vagas de EJA que teria oferecido se o nível anterior tivesse sido mantido.
O público que espera
O Censo Demográfico de 2022 contou 2.702.731 paranaenses com 18 anos ou mais sem o ensino fundamental completo e outros 1.324.397 que têm o fundamental mas não concluíram o ensino médio. Total: 4.027.128 adultos — 45,8% da população adulta do estado.
Esse grupo não é estático, mas se move lentamente. Entre os Censos de 2010 e 2022, o número de adultos com 25 anos ou mais sem ensino médio caiu de 3.995.158 para 3.673.882 — uma redução de 8% em 12 anos. O grupo que precisaria de EJA diminuiu devagar; a oferta de EJA caiu seis vezes mais rápido.
A taxa de cobertura resume o descasamento:
| Ano | EJA total | Adultos sem EM | Cobertura |
|---|---|---|---|
| 2019 | 172.185 | ~4.100.000 | 4,3% |
| 2022 | 95.295 | 4.027.128 | 2,4% |
| 2025 | 75.543 | ~3.950.000 | 1,9% |
Ao ritmo atual de 26.301 matrículas anuais na EJA Médio, o Paraná levaria 50 anos para atender todos os adultos que precisam concluir o ensino médio — pressupondo que nenhum novo adulto entrasse no grupo e que cada matrícula resultasse em conclusão imediata.
Como medir o atraso
Para estimar o impacto do corte sobre a velocidade de melhora, é preciso entender o que move o percentual de adultos sem ensino médio.
Há dois mecanismos. O primeiro é a renovação geracional: cada ano, grupos mais velhos — que estudaram menos — são substituídos na população adulta por grupos mais jovens, com mais escolaridade. Esse processo é estrutural e acontece independentemente de qualquer política. O segundo mecanismo é a conclusão pela EJA: adultos que retornam à escola e completam a etapa que não terminaram.
Para separar os dois, o modelo usa os únicos dados de referência disponíveis com cobertura nacional: os Censos Demográficos. Entre 2010 e 2022, o percentual de adultos sem ensino médio no Paraná caiu de 64,2% para 45,8% — uma melhora de 1,53 ponto percentual por ano. Esse ritmo histórico é o ponto de partida.
A partir dele, o modelo estima quanto dessa melhora veio da EJA — o que depende de quantos alunos matriculados de fato concluem o curso — e subtrai o resultado para isolar o componente natural. Em seguida, projeta dois cenários a partir de 2022:
- Cenário A: a rede mantém o nível de 2019 (172.185 matrículas/ano)
- Cenário B: a rede mantém o nível atual de 2025 (75.543 matrículas/ano)
O intervalo de 1 a 3 anos
O resultado depende de uma premissa que os dados públicos não permitem verificar diretamente: a taxa de conclusão da EJA — a fração dos alunos matriculados que efetivamente terminam a etapa. O INEP publica taxas de rendimento para o ensino fundamental e médio regular, mas não para a modalidade EJA.
A literatura acadêmica estima taxas entre 15% e 35%, com a maioria dos trabalhos apontando para o intervalo de 20% a 30%. O modelo foi rodado nos três cenários:
| Taxa de conclusão | Velocidade — cenário A | Velocidade — cenário B | Atraso para atingir 30% |
|---|---|---|---|
| 15% | 1,60pp/ano | 1,42pp/ano | ~1,2 anos |
| 25% | 1,65pp/ano | 1,34pp/ano | ~2,2 anos |
| 35% | 1,69pp/ano | 1,27pp/ano | ~3,2 anos |
Velocidade medida em pontos percentuais/ano de redução no percentual de adultos sem EM. Atraso = diferença em anos para atingir 30% de adultos sem EM a partir de 2022.
Em qualquer ponto do intervalo, o Cenário B chega a cada marco de melhora com atraso. Para a meta de 30% de adultos sem ensino médio:
- Cenário A (EJA de 2019): Paraná chega lá por volta de 2031–2032
- Cenário B (EJA de 2025): chegada adiada para 2033–2035
Além do atraso em anos, o corte tem um impacto acumulado em adultos. Somando o déficit já ocorrido (2020–2025) à projeção para 2026–2035, estima-se que entre 280 mil e 420 mil adultos não concluirão a educação básica por volta de 2035 em comparação ao que teria ocorrido se o nível de 2019 tivesse sido mantido — dependendo da taxa de conclusão adotada.
O que o modelo não captura — e que pode piorar o resultado
O modelo usa uma taxa constante para o componente natural de melhora. Essa é uma simplificação favorável: na prática, esse componente provavelmente desacelera com o tempo.
A razão é demográfica: à medida que as coortes mais jovens já chegam ao mercado de trabalho com ensino médio completo, o grupo remanescente sem EM vai se tornando progressivamente mais velho. São pessoas de 50, 60, 70 anos que pararam de estudar há décadas. Esse grupo tem menos probabilidade de retornar à escola e menos anos de vida para contribuir para a queda no indicador.
À medida que o processo natural desacelera, a EJA — o mecanismo ativo de política — ganha peso relativo. O corte de vagas, portanto, importa mais no futuro do que no presente. O atraso de 1 a 3 anos estimado pelo modelo linear pode ser subestimado.
O Paraná no mapa nacional
O percentual de adultos sem ensino médio não é um problema exclusivo do Paraná, mas a escala do corte o coloca em uma posição particular.
Segundo os Censos de 2010 e 2022, o Paraná foi o estado com a 2ª maior redução no percentual de adultos sem ensino médio do país: queda de 18,4 pontos percentuais, atrás apenas de Santa Catarina (−18,6pp). Apesar do avanço, o Paraná ainda ocupa a 21ª posição entre os 27 estados em 2022, com 45,8% dos adultos sem EM completo.
| Região | Piores estados (% sem EM, 2022) | Melhores estados |
|---|---|---|
| Nordeste | AL 58,5% / PI 58,4% / PB 56,6% | — |
| Norte | PA 56,4% / RO 55,8% / AC 52,9% | AP 44,0% / RR 43,3% |
| Sudeste | MG 49,4% / ES 47,5% | RJ 42,2% / SP 39,0% |
| Sul | RS 49,3% / PR 45,8% / SC 44,2% | — |
| Centro-Oeste | MS 50,6% / MT 49,6% / GO 47,4% | DF 29,5% |
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2022.
O Paraná está no terço inferior do ranking — melhor que 6 estados, pior que 20. Com o corte da EJA, a velocidade de convergência para o grupo dos mais escolarizados cai. SC, que em 2010 tinha percentual parecido com o do Paraná (62,8% vs. 64,2%), chegou a 2022 em posição melhor (44,2%) e com a maior redução percentual do país. Se o Paraná mantivesse o ritmo de Santa Catarina, estaria mais próximo de 40% hoje.
O passivo de 2027
Quem assumir o governo do Paraná em 2027 herdará dois problemas ligados.
O primeiro: mais de 4 milhões de adultos sem educação básica completa, atendidos por uma rede de EJA que encolheu 56% em seis anos e cobre 1,9% do público que precisaria dela. Ao ritmo atual, o modelo projeta que o Paraná só atingirá 30% de adultos sem ensino médio entre 2033 e 2035 — dois a três anos mais tarde do que chegaria se o patamar de 2019 tivesse sido mantido.
O segundo: cerca de 299 mil estudantes no ensino médio da rede estadual — projeção baseada na tendência 2022–2025 —, cuja formação ficou estagnada em termos de aprendizado medido. As notas do SAEB nas escolas estaduais do Paraná caíram em Matemática (de 280,8 para 278,0) e subiram marginalmente em Português (de 281,0 para 283,8) entre 2019 e 2023, enquanto a taxa de aprovação saltava de 89% para 96,9%.
O Ideb subiu. O aprendizado, não. E a EJA que poderia dar uma segunda chance à fração da população que ficou para trás foi, ao longo do governo atual, sistematicamente reduzida.
O que o modelo não permite afirmar
Este modelo é uma projeção com premissas explícitas, não uma previsão. Ele supõe que a taxa natural de renovação geracional permanece constante — o que provavelmente superestima a velocidade futura de melhora. Ele usa uma faixa de taxa de conclusão da EJA (15%–35%) porque esse número não está disponível nos dados públicos do INEP para a modalidade. Ele não captura o efeito de uma eventual expansão da EJA por governos futuros, nem mudanças na composição da população sem escolarização.
O que o modelo permite afirmar, com base nos dois únicos pontos de ancoragem confiáveis disponíveis — os Censos de 2010 e 2022 —, é que a redução das vagas de EJA diminui a velocidade de melhora no indicador. E que, dentro das premissas razoáveis disponíveis na literatura, essa diminuição equivale a um atraso de 1 a 3 anos para qualquer marco de redução do analfabetismo funcional no Paraná.