Pular para o conteúdo

Decisão de manter crianças nos CMEIs durante obras gera superlotação e revolta pais em Curitiba

Apesar do anúncio de R$ 5 milhões em investimentos, pais e professoras foram pegos de surpresa. Telhados serão retirados no inverno e espaços já apertados terão o dobro de alunos para acomodar o canteiro de obras

Decisão de manter crianças nos CMEIs durante obras gera superlotação e revolta pais em Curitiba

Um pacote de obras se transformou em angústia e incerteza para a comunidade escolar de dois Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) de Curitiba. A Prefeitura anunciou um investimento superior a R$ 5 milhões para a requalificação dos CMEIs Santa Efigênia, no Barreirinha, e Vila Leonice, no Cachoeira. No entanto, nos bastidores, o que se vê é a ausência de diálogo e planejamento. As reformas, que devem durar até oito meses, ocorrerão com as crianças dentro das unidades.

De acordo com denúncias recebidas pelo Plural, o impacto da obra no dia a dia escolar será drástico. Para viabilizar a reforma sem fechar as creches, as turmas serão espremidas nos espaços. Salas que já são pequenas e abrigavam 15 alunos passarão a receber 30. O refeitório, projetado para 30 crianças, será improvisado como sala de aula para 60.

A falta de comunicação prévia é um dos pontos que mais revolta a comunidade. Um familiar de aluno, que preferiu não se identificar, relatou que os pais só foram avisados sobre o início das obras com uma semana de antecedência. Não houve qualquer tipo de consulta à comunidade escolar ou providência para remanejar as crianças para um espaço temporário adequado.

"Nem as professoras sabiam que as obras iriam começar na semana que vem. Vão retirar o telhado em pleno inverno", relatou o familiar. A denúncia aponta ainda que, durante os meses de obra, as crianças ficarão sem acesso ao refeitório e ao parquinho.

O abismo entre discurso e realidade

A insatisfação cresceu após a visita do prefeito em exercício, Leonidas Dias (Podemos), às unidades na última segunda-feira (22). Nas redes sociais, a Prefeitura e o prefeito em exercício afirmaram que as crianças atendidas pelos dois CMEIs seriam direcionadas para "um lugar seguro".

A realidade encontrada pelas famílias nas unidades, no entanto, é outra. Quando questionaram a equipe escolar sobre qual seria esse local seguro, a resposta foi de que não há outro espaço disponível. A situação gera um clima de conformismo forçado entre as famílias que dependem do serviço público. Segundo os relatos, muitos pais repetiam "tem que fazer reforma mesmo, e o meu filho vem de todo jeito pra aula", expondo a vulnerabilidade de quem não tem com quem deixar os filhos.

Enquanto isso, o clima entre os servidores é de apreensão. Professoras se veem repentinamente encarregadas de garantir a segurança e a qualidade do ensino de turmas dobradas, espremidas em ambientes improvisados, com o agravante do barulho, poeira e movimentação de operários inerentes a uma obra.

O que diz a Prefeitura

Segundo os dados divulgados pela gestão municipal, o CMEI Vila Leonice atende 150 crianças e receberá R$ 1,1 milhão para troca de telhado, pisos, fiação elétrica e pintura. A previsão é de que os trabalhos durem oito meses. Já o CMEI Santa Efigênia, com 294 crianças matriculadas, a unidade recebe o maior montante, R$ 4,2 milhões, para melhorias em 12 salas, forro e partes elétrica e hidráulica. O trabalho já começou e deve ser concluído apenas em dezembro. A Prefeitura não detalhou o plano de contingência pedagógica e sanitária para manter bebês e crianças pequenas em meio aos canteiros de obras por quase um ano.

Durante o período como prefeito em exercício, o vereador Leonidas Dias ainda sancionou lei para criação de escolas cívico-militares em Curitiba. 

LEIA TAMBÉM:

Prefeito em exercício, Leonidas Dias sanciona lei para criação de escolas cívico-militares em Curitiba
Norma estabelece diretrizes para programa voltado ao Ensino Fundamental; lei entra em vigor em dezembro e prevê consulta pública obrigatória nas escolas.

Falta de transparência como regra

A desorganização e a falta de transparência com a comunidade nos CMEIs Santa Efigênia e Vila Leonice refletem um problema crônico na gestão da educação infantil em Curitiba. Em fevereiro de 2026, reportagem da jornalista Rosiane Freitas, do Plural, já havia escancarado a "dança dos números" da Prefeitura em relação à fila de espera por vagas em creches (crianças de 0 a 3 anos). Documentos oficiais do município apresentavam discrepâncias. Enquanto um release da própria Comunicação da Prefeitura afirmava que a fila era de 8.276 estudantes, respostas a Pedidos de Informação de vereadores como Guilherme Kilter (Novo) e Marcos Vieira (PDT) apontavam, na mesma época, filas de 3.444 e 2.678 crianças.

A confusão com os dados é potencializada pelo apagão de informações. Embora a Lei 14.685/2023 exija a divulgação da lista de espera e a Lei 16.492/2025 (Lei do Vale Creche) determine relatórios semestrais detalhados, o último relatório de atendimentos na educação infantil disponível publicamente datava de dezembro de 2025.

Fila de Pimentel ganha 5 mil crianças para “provar” que vale creche reduziu fila
Levantamento do Plural mostra que a fila de crianças aguardando vaga em creche em fevereiro de 2025 foi de 8 mil estudantes em release da prefeitura, para 2,6 mil em resposta à Câmara

Marya Marcondes

Marya Marcondes

Estagiária do Jornal Plural. Estudante de Jornalismo da UFPR. Palmeirense e colecionadora de hobbies.

Todos os artigos

Gostou desta reportagem?

Considere pagar um café para Marya Marcondes e apoiar o jornalismo independente do Plural. Aponte a câmera do seu banco para o QR Code ou faça um Pix de qualquer valor para a chave abaixo.

32885173000120

Mais em Educação

Ver todos

Mais de Marya Marcondes

Ver todos

De nossos parceiros