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Merenda de Curitiba já custa R$ 5,79 por prato e consumiu R$ 1,3 bilhão desde 2021

Uma análise dos oito contratos vigentes e dos editais que os originaram mostra que o gasto anual com a alimentação escolar saltou 53% em quatro anos

Merenda de Curitiba já custa R$ 5,79 por prato e consumiu R$ 1,3 bilhão desde 2021
Fábrica da Risotolândia, em Araucária. Foto: Tami Taketani/Plural

Todo dia letivo, a rede municipal de ensino de Curitiba serve cerca de 300 mil refeições a aproximadamente 140 mil estudantes. Nenhuma delas sai de uma cozinha da prefeitura: a comida é terceirizada, comprada de empresas que preparam, transportam e distribuem almoços e lanches para os Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs), as escolas e as unidades de educação integral.

O Plural cruzou os oito contratos de alimentação escolar em vigor — disponíveis no Portal da Transparência — com os editais das duas licitações que os originaram, os Pregões Eletrônicos nº 135/2021 e nº 195/2022, da Secretaria Municipal da Educação (SME). O resultado ajuda a responder a uma pergunta simples e raramente feita: quanto custa o prato do seu filho?

O número que cresce todo ano

Somados, os oito contratos representam hoje um gasto de R$ 347,2 milhões por ano. Quando foram assinados, valiam R$ 226,6 milhões. É uma alta de 53% — puxada por sucessivos termos aditivos e reajustes de preço, e não pela abertura de novas licitações.

Desde 2021, o conjunto desses contratos já desembolsou R$ 1,34 bilhão em valores acumulados. É dinheiro público suficiente para construir dezenas de escolas, aplicado ano após ano na compra de comida pronta.

Dividindo o gasto anual pelo volume estimado de refeições (300 mil por dia, ao longo de 200 dias letivos, ou 60 milhões de refeições por ano), chega-se a um custo médio de cerca de R$ 5,79 por refeição. É uma estimativa de ordem de grandeza — o preço oficial por tipo de refeição, como se verá adiante, não é divulgado. Mas serve de régua: em 2022, essa mesma conta dava R$ 3,78.

O gasto anual com a merenda subiu de R$ 226,6 milhões para R$ 347,2 milhões (+53%) em quatro anos; o custo médio por refeição passou de R$ 3,78 para R$ 5,79; e o total já pago beira R$ 1,34 bilhão.

Duas empresas, todo o cardápio

Todo o serviço está dividido entre duas fornecedoras:

A Risotolândia Indústria e Comércio de Alimentos, do grupo da família Gusso, responde por cerca de 59% do valor. Fornece merenda à rede municipal de Curitiba desde 1998 — mais de um quarto de século com a mesma empresa na cozinha das escolas. É a titular do maior contrato individual da rede, o de nº 24.652, e é alvo da Operação Arbóreo, do Ministério Público de Santa Catarina, que investiga suspeitas de fraude em contrato de merenda em Blumenau.

A Singular Gestão de Serviços, sediada no Rio de Janeiro, responde pelos 41% restantes, distribuídos em cinco contratos que atendem os CMEIs. A empresa, que presta serviços semelhantes para outras prefeituras, já foi investigada pelo Ministério Público de São Paulo por não pagar os salários da merendeiras das escolas para as quais fornecia alimentação. E foi alvo da Operação Lava Jato por conta de contratos com o governo do Rio de Janeiro.

O maior contrato: R$ 698 milhões e 60% de aditivos

O contrato nº 24.652, da Risotolândia, nascido do Pregão 135/2021, é o retrato do modelo. Assinado em dezembro de 2021 por R$ 102,8 milhões, vale hoje R$ 164,5 milhões por ano — e já acumulou R$ 698 milhões em desembolsos. Foi aditado em 60% do valor original, por meio de 19 termos aditivos.

Foi também esse contrato que gerou a maior penalidade conhecida do setor: em agosto de 2024, a SME multou a Risotolândia em R$ 1,22 milhão por 54 ocorrências no fornecimento — de larvas e insetos em refeições a comida fora da temperatura segura e porções abaixo do previsto — registradas entre junho e outubro de 2023, sobre um total de 13,9 milhões de refeições. A empresa contesta a multa na Justiça e propõe pagar R$ 19,7 mil, cerca de 62 vezes menos. O caso está sub judice.

Usando o volume real de refeições daquele período, o custo por refeição do contrato 24.652 fica em torno de R$ 5,66 — próximo da média da rede.

O que os editais revelam — e o que escondem

Os editais das duas licitações estabelecem como a conta é montada. O pagamento não é um valor fixo mensal: a empresa recebe por refeição efetivamente servida, ao preço unitário de cada tipo. E os contratos reconhecem dois tipos de refeição faturáveis: almoço e merenda (o lanche).

Aqui está o ponto cego. O edital determina que o preço unitário de cada tipo seja fixado na chamada "Composição G – Preço Final por Tipo de Refeição", que compõe a proposta vencedora de cada empresa. Ou seja: quanto custa exatamente um almoço e quanto custa uma merenda não consta nem do corpo do contrato, nem da parte pública do edital — está na planilha de composição de custos apresentada por cada empresa na licitação, documento que não consta entre os dados públicos do processo.

O que os editais mostram é o orçamento básico — o custo de referência estimado pela própria Prefeitura para cada lote, com composições de veículos, mão de obra, gêneros alimentícios e serviços, acrescidas de taxa de administração de 5% e lucro de 3%. Em um dos lotes, só a parcela de serviços é orçada em cerca de R$ 7,94 milhões.

O caso dos CMEIs: contratado a R$ 3,63, pago a R$ 5,36

O Pregão 195/2022, que abastece os CMEIs, permite uma medição mais fina. O edital dividiu o atendimento em 7 lotes por regional, com 170,4 mil refeições estimadas por dia, e fixou um teto de R$ 130,7 milhões. As empresas vencedoras — cinco lotes com a Singular, dois com a Risotolândia — fecharam contratos que somaram R$ 123,8 milhões, ou 94,7% do teto.

Cruzando as quantidades estimadas no edital com os valores contratados, o preço implícito por refeição (média de almoço e merenda) partiu de R$ 3,63 na assinatura. Pelos valores atuais dos mesmos contratos, subiu para R$ 5,36 — uma alta de 47,6% sobre um serviço que continua o mesmo. Por lote, o preço atual varia de R$ 4,66 a R$ 6,01.

Indicador Dado Fonte
Gasto anual atual (8 contratos) R$ 347,2 milhões Portal da Transparência
Valor inicial dos contratos R$ 226,6 milhões Portal da Transparência
Crescimento do gasto +53% Portal da Transparência
Total já desembolsado R$ 1,34 bilhão Portal da Transparência
Custo médio por refeição (2026) ≈ R$ 5,79 Cálculo Plural
Custo médio por refeição (2022) ≈ R$ 3,78 Cálculo Plural
Refeições por dia / estudantes ≈ 300 mil / ≈ 140 mil SME Curitiba
Fornecedora desde 1998 (Risotolândia) Prefeitura de Curitiba

Regras rígidas no papel

Os editais são detalhados nas exigências de qualidade — e nas punições. A comida deve chegar em recipientes térmicos (hot box) a, no mínimo, 60°C (quentes) e, no máximo, 10°C (frios); os gêneros devem ser de primeira qualidade; o per capita por estudante tem de ser cumprido; e os cardápios seguem as resoluções do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

O descumprimento tem preço. O edital do Pregão 135/2021 prevê uma escala de multas sobre o faturamento mensal: 3% para ocorrência gravíssima (dano à saúde, como intoxicação alimentar), 1% para grave (temperatura irregular, gênero vencido, contaminação, per capita a menor), 0,5% para leve (atraso na entrega) e 10% em caso de rescisão. Foi no degrau "grave" — 1% por ocorrência — que a Prefeitura enquadrou a Risotolândia na multa de R$ 1,22 milhão.


Fontes: Portal da Transparência da Prefeitura de Curitiba (contratos e aditivos); editais dos Pregões Eletrônicos nº 135/2021 e nº 195/2022 – SME (objeto, orçamento básico, tipos de refeição e penalidades); Relatório de Ocorrências e decisão administrativa da SME (Protocolo 01-120787/2024). O preço unitário por tipo de refeição foi solicitado à Prefeitura via Lei de Acesso à Informação. Os custos por refeição são estimativas do Plural a partir dos valores contratados e das quantidades estimadas nos editais.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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