Ano após ano, o Brasil se mantém como o País que mais mata pessoas transexuais e travestis no mundo. Em 2025, segundo o novo Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), foram 80 assassinatos motivados por transfobia, uma queda de 34% frente a 2024, quando houve 122 mortes. A queda, porém, não reflete melhora na qualidade de vida e ampliação da segurança das pessoas trans (leia o dossiê aqui).
Para além de não se tornarem estatística, pessoas trans querem viver com dignidade. Ocupar espaços, acessar direitos, ser respeitadas. Esta foi a tônica da Marcha Trans promovida pela Frente Trans de Londrina no último domingo em alusão ao 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans. Centenas de manifestantes percorreram o Calçadão com cartazes e gritos de ordem.
“Para muitas pessoas trans, a vida é uma sobrevivência e a gente entende que ainda existem alguns passos para serem dados. Estamos falando de pessoas trans que possam ter sonhos e conseguir realizar esses sonhos; pessoas que sejam acolhidas nos espaços em que estão para que possam aproveitar a vida; mais do que tentar sobreviver, mais do que ganhar o seu dinheiro para poder comer mimimamente, mais do que precisar de roupa, de doação. Estamos falando sobre uma sociedade que possa reconhecer a nossa potência, não por pena, mas que reconheça que a gente só vive em precariedade porque a sociedade nos empurra para esse lugar”, define Anire Niara, de 28 anos, uma das organizadoras da Marcha.

Anire teve a possibilidade de se entender transexual em um ambiente familiar acolhedor. Acessou a faculdade e tem um emprego formal. Para ela foi difícil compreender que não era privilegiada, que estava apenas acessando direitos que deveriam estar disponíveis para todas as pessoas.
“A gente internaliza muito o ódio, porque cresce entendendo qual é o modelo de ser humano aceitável, digno. Quando a gente vai se distanciando desse modelo a gente acredita que está perdendo o direito à dignidade, ao respeito. Para as pessoas trans é complicado construir essa força interior e acreditar em si”, explica Anire.
Ela se refere à estrutura social transfóbica que empurra corpos dissidentes para fora de casa, para a evasão escolar, para subempregos. “Independente do quanto o mundo tente nos distanciar, a gente vai continuar sendo excelentes, vai continuar subvertendo essa vivência que eles tentam nos empurrar goela abaixo”.

A importância da mobilização
Antes de subir na Concha Acústica para declamar uma poesia de improviso, Sol Baccon, de 23 anos, empunhou um cartaz em defesa das cotas trans durante a Marcha. Para ela, viver bem passa por acesso a saúde, educação e mercado de trabalho.
“Viver bem é poder ter a dignidade de sair de casa sem medo, é poder saber que todos os nossos direitos básicos estão sendo atendidos, é ter saúde; é poder ir no posto de saúde e ser atendida com o seu nome social; é poder ter as cotas trans e os mesmos direitos dentro das universidades. As cotas trans são uma forma de a gente conseguir ter igualdade e levar o mínimo de educação para as pessoas trans”, explica.
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Para Sol, lutar por direitos será sempre necessário e mobilizações como a Marcha são momentos de honrar as pessoas trans que abriram caminho em momentos de maior repressão política e garantir mudanças para as que virão.
“Sem esses movimentos culturais, esse movimento de luta, a gente não teria uma forma de pensar um futuro diferente. Eu acredito que nada mais importante do que um sonho, e as pessoas trans têm que ter a importância de sonhar. Não sonhar com um futuro pequeno, mas ter o direito de poder sonhar com o que quiser”, defende.
Cotas trans
Pessoa não binária, Alyn, de 21 anos, luta pela garantia de acesso e permanência de transexuais à universidade por meio de coletivos organizados, com a União da Juventude Comunista (UJC).
“Quando eu estava prestando vestibular tinha a ideia de que na universidade teria muito mais pessoas trans e eu poderia ter a capacidade de me envolver muito mais, de trocar afeto com pessoas trans, e a realidade que eu percebi foi outra. Que as poucas pessoas trans que estão na universidade precisam de tudo para conseguir o mínimo. Pessoas que normalmente estão submetidas a escalas de trabalho sub-humanas, ou estão em trabalhos precarizados informais, plataformizados. Muito pouco está disponível para, de fato, conseguir ter um acesso a uma educação de qualidade”, opina.
Segundo ele, dentro do movimento estudantil a luta por cotas trans na Universidade Estadual de Londrina (UEL) é entendida como uma possibilidade de ampliar o bem viver por meio da educação. As barreiras políticas, porém, são grandes.

Caminhada longa
Para hoje as cotas trans estarem na pauta de luta, muitas ativistas precisaram lutar no passado pelo direito até de sair às ruas durante o dia. Londrina tem uma histórica potente de resistência trans, desde pioneiras como Scarlet Ohara, Saara Santana e Christiane Lemes, passando por Mel Campus e a criação do Coletivo ElityTrans.
Durante a pandemia surgiu a Frente Trans de Londrina. Em janeiro de 2021, uma das fundadoras, Raffaela Rocha, fez um discurso emocionado por sobrevivência no Calçadão, durante um ato contra o governo Bolsonaro. Naquele momento, a crise econômica e social agravava as condições de vida de grupos em situação de vulnerabilidade.
Hoje, questionada sobre o que é viver com dignidade, a geógrafa e pesquisadora tem uma outra definição: “Nessa questão a gente sempre cai nos direitos básicos universais, como saúde, educação, moradia, renda digna, acesso a determinados lazeres, mas de um tempo para cá eu acho que é viver sem medo”, explica.
“Eu me lembro de uma frase da Nina Simone, que liberdade é não ter medo. Não ter medo de voltar para a rua; não ter medo de ser agredida; não ter medo de ser violentada; não ter medo de não ter casa; não ter medo de amar, não ter medo de ser amada. Eu acho que isso seria o principal na visão de mundo que eu tenho agora”.