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Dr. Rosinha e Cristina Graeml debatem 8 de Janeiro, urna eletrônica e Copel em confronto direto pelo Senado

Em debate promovido pela Plural, o petista Dr. Rosinha e a jornalista Cristina Graelm (PSD) trocaram farpas por uma hora sobre o impeachment de Dilma, a urna eletrônica, o 8 de Janeiro, feminicídio e a privatização da Copel. Confira a checagem

Dr. Rosinha e Cristina Graeml debatem 8 de Janeiro, urna eletrônica e Copel em confronto direto pelo Senado
Foto: Tami Taketani/Plural
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Os candidatos ao Senado pelo Paraná Dr. Rosinha (PT) e Cristina Graelm (PSD) debateram por uma hora na quinta-feira (10/9), em transmissão da Plural pelo YouTube, mediada pelo jornalista Rogério Galindo. Foi o segundo de uma série de conversas que a Plural está promovendo com os seis principais nomes na disputa pelas duas vagas paranaenses no Senado — os candidatos Deltan Dallagnol e Alexandre Curi faltaram ao primeiro encontro, marcado antes, alegando conflito de agenda com um debate da Band, e devem ser chamados de novo.

Sem tempo cronometrado por fala nem réplica limitada — o formato que a Plural está testando —, os dois candidatos conversaram livremente, se interromperam com frequência e, em vários momentos, discutiram diretamente um com o outro em vez de responder ao mediador.

Quem são os candidatos

Dr. Rosinha, 75 anos, é médico pediatra aposentado da prefeitura de Curitiba, um dos fundadores do PT na cidade, ex-vereador, ex-deputado estadual e federal (26 anos de mandatos eletivos) e ex-parlamentar do Parlasul. Foi secretário-executivo do Ministério da Saúde no governo Lula. É companheiro de chapa de Gleisi Hoffmann: os dois disputam, juntos, as duas vagas do Paraná no Senado pelo PT — o único partido ao qual ele já foi filiado. (Diferente das eleições majoritárias para o Executivo, não há cargo de "vice" na disputa ao Senado — cada candidato concorre a uma cadeira própria.)

Cristina Graelm é jornalista com 26 anos de carreira, a maior parte em TV, com passagens recentes por Jovem Pan News, Rádio Ouro Verde Brasil e Revista Oeste. Foi candidata a prefeita de Curitiba em 2024 pelo PMB, chegou ao segundo turno contra Eduardo Pimentel (eleito), e agora disputa o Senado pelo PSD — convidada, segundo ela mesma disse no debate, pelo governador Ratinho Júnior.

O confronto, tema a tema

8 de Janeiro: "tentativa de golpe" ou "presos políticos"?

Foi o embate mais longo do debate. Rosinha chamou os atos de 8 de janeiro de 2023 de tentativa de golpe de Estado, ligando-os a um plano descoberto em dezembro de 2022 — um caminhão-bomba estacionado perto do aeroporto de Brasília, em um esquema para assassinar Lula e o então vice-presidente eleito Geraldo Alckmin, que resultou em prisões. Graelm rejeitou a ligação entre os dois episódios e chamou os mais de 2 mil detidos no 8 de Janeiro de "presos políticos" — termo que diz ter cunhado por primeira entre os jornalistas do país —, argumentando que não houve armas apreendidas nem depredação generalizada e que boa parte das pessoas presas apenas estava no local.

O caso já foi julgado pelo STF, e a caracterização de "presos políticos" não se sustenta diante do resultado do julgamento. O núcleo que planejou a trama golpista — incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro — foi julgado e condenado pelo Supremo, e os processos individuais contra participantes da invasão e depredação das sedes dos Três Poderes também resultaram, em sua ampla maioria, em condenações, não em prisões arbitrárias sem julgamento (Agência Brasil, cobertura completa dos "Ataques de 8 de Janeiro"). Tratar pessoas condenadas em processo com direito a defesa, perante o Judiciário, como "presas políticas" é uma caracterização desonesta.

Rosinha também citou o ministro Flávio Dino como exemplo de "bom ministro" do STF por fiscalizar o Executivo. Graelm rebateu citando o episódio em que câmeras de segurança do Ministério da Justiça — pasta que Dino comandava até o fim de 2022 — tiveram imagens do período não entregues. O fato-base é real e está no registro oficial do próprio Congresso: em agosto de 2023, a CPMI do 8 de Janeiro deu prazo de 48 horas para o Ministério da Justiça enviar as imagens internas e externas do prédio do dia do ataque; diante da resistência do ministério — que alegou preservar a competência de um inquérito da Polícia Federal em sigilo —, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, teve de autorizar formalmente o envio das imagens à comissão (Senado Notícias, Senado Notícias, Câmara dos Deputados). Não localizamos, em fonte oficial, confirmação do número específico de câmeras cujas imagens teriam sido perdidas nem da caracterização de Graelm de que Dino "se vangloria" do episódio.

Sobre quem assumiria o poder num golpe consumado, Graelm perguntou e Rosinha respondeu "seria um militar", alegando que as Forças Armadas não confiavam em Bolsonaro. Graelm contra-argumentou que Bolsonaro deixou o cargo com os três comandantes das Forças Armadas indicados pela equipe de transição de Lula — isso procede: os decretos de nomeação dos novos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, escolhidos por Lula e pelo futuro ministro da Defesa José Múcio Monteiro, foram publicados no Diário Oficial da União ainda em dezembro de 2022, antes da posse — uma antecipação nas trocas que a própria Agência Brasil, agência pública de notícias, associou a preocupações de segurança (Agência Brasil).

Urna eletrônica: o número que o TSE já desmentiu

Graelm defendeu o voto impresso auditável e repetiu a afirmação de que "o Brasil está entre os dois únicos países do mundo" a usar urna eletrônica, ao lado do Butão. Essa afirmação, nesses termos, é falsa — e o próprio TSE mantém uma página específica desmentindo essa versão do argumento, usada desde as eleições de 2018. Ao menos 34 países já adotaram algum sistema de votação eletrônica (TRE-SP, TSE). Há uma versão mais estreita e tecnicamente correta do argumento — só seis países usam urnas de gravação eletrônica direta sem nenhum registro em papel (Brasil, Butão, Bangladesh, França, Namíbia e alguns estados dos EUA) —, mas não foi essa a formulação usada no debate.

Rosinha, por sua vez, defendeu a urna citando sua experiência como deputado federal à época da instalação do sistema, sem entrar em contestação factual específica.

Não há, até hoje, nenhuma prova de fraude ou manipulação nas urnas eletrônicas brasileiras. Desde a implantação do sistema, em 1996, nenhum episódio de fraude foi documentado. As eleições brasileiras são acompanhadas por missões de observação internacional — em 2026, aceitaram o convite do TSE organismos como a OEA, a União Europeia e o Parlamento do Mercosul, que monitoram desde a auditoria pública das urnas até a totalização dos votos — e o processo é citado internacionalmente como referência de segurança e transparência eleitoral (TSE, TSE).

Feminicídio no Paraná: um número confere com dado independente, o outro fica sem confirmação

Foi o momento em que a discussão ficou mais concreta em dados locais. Rosinha disse que o feminicídio no Paraná "aumentou 17% nos primeiros três meses" de 2026, atingindo "o mais alto índice dos últimos 11 anos" — número que não conseguimos confirmar até o fechamento desta reportagem; pode se referir a um recorte trimestral específico que não está nas séries anuais consultadas.

Graelm rebateu com números anuais — 109 feminicídios no Paraná em 2024 e 87 em 2025, queda de 20% —, que conferem, mas com uma ressalva importante sobre a fonte. Os números 109 e 87 são, de fato, dados de feminicídio e conferem com a série histórica por Unidade da Federação publicada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), organização independente de pesquisa que compila e audita os dados policiais estaduais: 75 casos em 2021, 77 em 2022, 81 em 2023, 109 em 2024 e 87 em 2025 no Paraná — uma queda precisa de 20,7%, não os "20%" arredondados ditos no debate (FBSP, "Retrato dos Feminicídios no Brasil", 2026, Quadro 1). O problema é a atribuição da fonte: Graelm disse que os números "também constam no Anuário da Segurança Pública do Ministério da Justiça" — mas o indicador que o Ministério da Justiça/Sinesp publica sob a categoria mais ampla de mortes violentas de mulheres no Paraná é outro, maior: 137 em 2024 e 102 em 2025. Feminicídio (crime tipificado, motivado pela condição de sexo feminino) e mortes violentas de mulheres em geral (que inclui também homicídios femininos sem essa motivação específica) são categorias diferentes, e Graelm as tratou como a mesma fonte no debate.

Ou seja, 2024 — ano de comparação usado por Graelm — foi de fato um pico na série de feminicídios: o salto de 81 para 109 casos (+34,6%) é compatível com a queixa de Rosinha de que o índice bateu recorde em algum momento recente, ainda que não tenhamos como confirmar o recorte trimestral específico ("primeiros três meses de 2026") que ele usou.

Sobre o Pacto Estadual de Enfrentamento ao Feminicídio, assinado por Ratinho Júnior em agosto deste ano, Rosinha disse que a assinatura só veio "por cobrança da oposição" e atraso proposital; Graelm respondeu que ações do programa Mulher Segura já estavam em curso antes da assinatura formal do pacto. Nenhum dos dois lados apresentou uma linha do tempo verificável desse ponto específico durante o debate.

Copel e Celepar: as duas privatizações são reais

Rosinha criticou a privatização da Copel, concretizada em 2023, chamando o governador de "síndico" sem direito a vender patrimônio público sem plebiscito, e alegou que a companhia elétrica privatizada estaria entregando pior qualidade de fornecimento — citando o caso anedótico e não verificável de um produtor que teria perdido R$ 500 mil num mês por quedas de energia. A privatização da Copel em si é fato consolidado; os efeitos sobre a qualidade do serviço ainda são anedóticos.

Sobre a Celepar, Rosinha estava correto: a venda da estatal de tecnologia é um processo oficial em andamento, não uma inferência. O governo do Paraná propôs a privatização em novembro de 2024, com leilão que chegou a ser marcado para 17 de março de 2026 na B3; o processo foi suspenso liminarmente pelo ministro Flávio Dino, do STF, relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7896 que questiona a legalidade da venda, após sucessivas decisões do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR) que paralisaram e retomaram o processo — a suspensão seguia valendo até a data do debate.

A Celepar administra dados sensíveis dos paranaenses: notas escolares da rede pública, histórico médico do SUS, infrações de trânsito, quitação de impostos e dados das secretarias de Segurança Pública, Fazenda e Previdência — exatamente os dados que Rosinha mencionou no debate. A Plural cobriu o processo em múltiplas reportagens, incluindo a decisão do TCE-PR que manteve a privatização suspensa e a designação de Dino como relator da ADI no STF (Plural, "Tribunal de Contas mantém suspensa a privatização da Celepar", Plural, "Flávio Dino será relator de ação que questiona legalidade da privatização da Celepar no STF").

Educação: "não há privatização" contra uma privatização documentada

Nas considerações finais, Graelm afirmou que "não há privatização de educação no Paraná". Essa afirmação está incorreta, segundo dados publicados pelo próprio governo do estado. Existe um programa oficial de transferência da gestão administrativa de escolas estaduais para operadores privados, o "Parceiro da Escola": a Secretaria de Estado da Educação e do Esporte (Seed-PR) homologou e divulgou os 82 colégios de 34 municípios que passaram a ter gestão privada a partir de 2025, distribuídos entre três grupos educacionais contratados via chamamento público — Apogeu (15 escolas), Tom Educação (31 escolas, com apoio do grupo Positivo) e Grupo Salta (34 escolas), responsáveis por manutenção de infraestrutura, serviços administrativos e gestão de terceirizados de limpeza e segurança (Secretaria da Educação do Paraná). A mesma secretaria publicou, em outubro de 2025, a Resolução nº 6.589/2025, listando mais 96 escolas para uma nova rodada de consulta pública sobre adesão ao programa a partir de 2026 — não localizamos, em fonte oficial, o resultado final dessa rodada. Paralelamente, o Paraná também tem colégios cívico-militares — modelo diferente, que mantém a gestão civil mas insere militares da reserva na rotina escolar. Rosinha, portanto, estava correto ao apontar a existência do processo de privatização da gestão; Graelm, incorreta ao negá-lo — ainda que o debate sobre o mérito da política, sua nomenclatura e seus resultados pedagógicos seja legítimo e siga em disputa.

Governo Dilma: indulto, pedaladas e quem chantageava quem

Rosinha atribuiu o impeachment de Dilma Rousseff a uma "construção de golpe" motivada pela recusa dela em ceder a pressões do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, sobre o Orçamento — incluindo a obrigatoriedade do pagamento de emendas parlamentares, que hoje é lei. Esse é um relato compatível com a cronologia política do período, embora seja uma leitura, não um fato singular verificável.

Já na disputa específica sobre José Dirceu — Graelm disse que "a Dilma foi lá e deu um indulto pra ele" após a condenação no mensalão; Rosinha replicou "não foi Dilma que deu indulto". Graelm está correta, Rosinha errou nesse ponto: o decreto de indulto natalino de dezembro de 2015, assinado pela presidenta Dilma Rousseff e publicado no Diário Oficial da União, beneficiou José Dirceu e outros condenados no processo do mensalão — indulto é ato de competência exclusiva do presidente da República, conforme o art. 84, XII, da Constituição (Agência Brasil).

Sobre as pedaladas fiscais — base técnica do impeachment —, Rosinha afirmou que "não existiram", citando uma decisão recente da Justiça. Há uma base concreta e mais antiga para esse tipo de afirmação, que reforça o argumento de Rosinha mesmo sem confirmar os detalhes exatos que ele deu: em setembro de 2022, a 5ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal arquivou, por unanimidade, o inquérito civil que apurava as pedaladas fiscais atribuídas ao período de Dilma Rousseff, ao ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e ao ex-secretário do Tesouro Arno Augustin — decisão tomada em fevereiro daquele ano e tornada pública em 22 de setembro. A Câmara do MPF se baseou em pareceres do próprio TCU e da Auditoria-Geral do Ministério da Economia, que já haviam afastado a responsabilização dos agentes públicos, por boa-fé ou por terem seguido prática então vigente no Ministério do Planejamento.

Já a disputa sobre quem "criou o SUS" — Graelm acusou o PT de atribuir a criação do sistema a Lula, citando uma fala da correligionária Gleisi Hoffmann no debate da Band, na véspera; Rosinha negou e afirmou corretamente que o SUS nasceu da Constituição de 1988, fruto da 8ª Conferência Nacional de Saúde, e foi regulamentado em 1990 — isso é histórica e institucionalmente correto.

O que cada um prometeu

Dr. Rosinha disse que vai apresentar projeto de lei exigindo plebiscito para qualquer privatização futura de estatal; defendeu o fim da escala 6x1; disse que vai atuar contra o racismo, a homofobia e a xenofobia e manter "porta aberta" para pessoas com deficiência; e afirmou que vai apoiar as políticas sociais do governo Lula a partir do Senado.

Cristina Graelm listou como prioridades: impeachment do ministro Alexandre de Moraes; anistia "ampla, geral e irrestrita" para os presos do 8 e 9 de Janeiro; transparência total sobre emendas parlamentares (nome do beneficiário, valor e nota fiscal públicos); redução do prazo de medida protetiva contra agressores de 48 para 24 horas; tornozeleira ou pulseira com alerta à vítima já na primeira violação de medida protetiva; prisão garantida no primeiro descumprimento; reforma administrativa e tributária; e disse ser contrária à audiência de custódia "da forma como é feita hoje".

O que disseram um do outro

O debate foi marcado por acusações pessoais diretas. Rosinha chamou Graelm de "fanática" e disse temer o "fanatismo" armado por Bolsonaro; Graelm respondeu que "a esquerda tem bastante ódio no coração". Rosinha perguntou a Graelm, por três vezes, se ela concordava com posições específicas do colega de coligação Alexandre Curi sobre audiência de custódia; ela recusou responder por terceiros, mas assumiu posição própria contrária ao instituto "da forma como é feita hoje". Graelm, por sua vez, cobrou publicamente uma correção de número dado por Gleisi Hoffmann (candidata do mesmo partido de Rosinha) no debate da Band da véspera sobre feminicídio no Paraná.

Como votar

Dr. Rosinha concorre ao Senado com o número 132 (PT). Cristina Graelm concorre com o número 555 (PSD).

Esta reportagem foi produzida a partir da transcrição integral do debate transmitido pela Plural em 10/9/2026. A checagem de dados usou como fonte apenas registros primários e oficiais — diários oficiais, decretos, sites do Congresso, do Judiciário, do TSE, de secretarias de estado e de organizações independentes de pesquisa como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública —, não reportagens de outros veículos de imprensa sobre esses mesmos fatos. Onde não foi possível localizar uma fonte primária até o fechamento, isso está indicado explicitamente no texto — a ausência de confirmação não deve ser lida como desmentido.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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