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Aposta de Pimentel em IA deixará conta salgada para futuros prefeitos

Uso de IA expõe Curitiba a riscos financeiros, sociais e políticos. Confira o levantamento feito pelo Plural

Aposta de Pimentel em IA deixará conta salgada para futuros prefeitos
Eduardo Pimentel: adoção de IA não considera aumento do custo da tecnologia. Foto: Valquir Kiu Aureliano/SECOM

Lançado com pompa e circunstância, o Curitiba APP é o primeiro passo da Prefeitura de Curitiba na implantação do uso de Inteligência Artificial no atendimento de solicitações da população à administração municipal. O aplicativo, anunciou a prefeitura, irá fornecer acesso a cerca de 800 serviços do município, além de supostamente personalizar o acesso à notícias da cidade.

A implantação do uso da IA no atendimento à população, porém, expõe a cidade e os cidadãos a riscos não divulgados pela prefeitura. O Plural calculou o potencial de aumento de custo da tecnologia caso ela venha a substituir as soluções atuais de prestação de serviço do município. O cálculo leva em consideração o custo atual, o potencial de aumento no número de consultas (dada a inclusão de novos serviços em uma mesma plataforma) e a previsão de aumento de curso dos serviços de IA projetada pelo mercado.

Com base no custo de processamento de requisições nas tecnologias mais populares de IA hoje, o custo anual de operação do Curitiba App pode variar entre R$ 92 mil a R$ 2,9 milhões (considerando o volume de requisições processadas pelo serviço em 2025, que somaram 18,3 milhões atendimentos).

Projeção de custo do processamento de requisições pelas principais tecnologias de IA hoje.

O Curitiba App, porém, soma mais serviços - como o IPTU e o acesso a notícias num feed 'personalizado'- o que pode potencializar o aumento do número de consultar.

Porém, o custo de processamento de requisições de IA hoje é fortemente subsidiado pelo investimento de fundos de capital de risco. Quando as empresas de IA tiverem que começar a pagar o retorno de capital prometido, a estimativa é que o custo dos serviços subam entre 8 a 14 vezes.

Nesse cenário, o custo anual da "modernização" promovida por Pimentel pode chegar a faixa entre R$ 10 a R$ 73 milhões, o equivalente ao orçamento anual da área de Esportes e Lazer da cidade.

Como calculamos o custo da IA em Curitiba

A inteligência artificial hoje custa cerca de R$ 0,02 por consulta, considerando o volume de tokens consumidos por pedido. Esse valor, porém, pode subir mais 8 a 14 vezes quando as empresas que dominam o mercado de IA — OpenAI, Anthropic, Google — precisarem ajustar preços para devolver retorno aos investidores que bancam, hoje, prejuízos bilionários do setor.

A projeção, construída a partir de dados públicos da própria Prefeitura, das tabelas de preço de API das três maiores fornecedoras de IA generativa e dos balanços já divulgados das empresas, expõe um custo embutido nas decisões de digitalização da gestão pública que ainda não apareceu no debate político de Curitiba.

O que está em jogo

Em março, a Prefeitura lançou o Curitiba App, super-app que unifica em uma só plataforma os atendimentos antes distribuídos entre Central 156, Saúde Já, vacinação, vagas em creche, iluminação pública, poda de árvores, roçada e outros 800 serviços municipais. A novidade central é o chatbot baseado em modelo de linguagem (LLM): segundo a divulgação oficial, o aplicativo "entende o pedido do morador, constrói respostas e orienta cada pessoa de forma clara e objetiva". A inteligência artificial, diz a Prefeitura, opera "exclusivamente com bases de dados da própria Prefeitura".

Anunciada como inovadora, essa solução é, na realidade, uma tentativa de reduzir a chamada "alucinação" - quando a IA inventa dados e informações. A técnica, porém, só reduz o risco, não o elimina completamente.

Cada uma dessas interações tem um custo. As empresas que vendem o acesso a modelos de IA — por meio de APIs — cobram por token, a unidade mínima que a inteligência artificial usa para processar texto. Os preços públicos vão de US$ 0,30 por milhão de tokens no modelo econômico do Google (Gemini 2.5 Flash) até US$ 75 por milhão de tokens de saída no modelo de ponta da Anthropic (Claude Opus 4).

A conta de hoje

Em 2025, a Central 156 registrou 18,3 milhões de solicitações de moradores. Considerando uma média conservadora de 100 tokens por pergunta do cidadão e 400 tokens de resposta da IA, o volume anual processado chega a aproximadamente 9 bilhões de tokens — apenas para o que a Central 156 já atende, sem contar o restante dos 800 serviços do super-app.

Aplicando os preços públicos das principais APIs e a cotação do dólar a R$ 5, o custo anual de inferência fica em três faixas:

Em qualquer cenário, é fração do custo de um atendente humano de call center municipal, estimado entre R$ 5 e R$ 15 por chamado quando se contam folha de pagamento, infraestrutura e supervisão. Na conta puro-volume, a IA é entre dezenas e milhares de vezes mais barata.

Se o uso explodir

A Central 156, no entanto, é só uma das portas de entrada do Curitiba App. Se a adoção alcançar de fato os 800 serviços e a média de consultas por habitante crescer ao patamar observado em outros chatbots de larga escala, o volume anual pode subir para 60 milhões de consultas no curto prazo, 120 milhões em adoção alta e 250 milhões em saturação — esse último número equivale a cada um dos 1,78 milhão de habitantes da cidade fazendo cerca de 140 consultas por ano.

Nesse cenário extremo de saturação, mantendo os preços de hoje:

Esses números, no entanto, ainda partem do pressuposto de que o preço da IA continua o de hoje. E é aí que entra o segundo eixo de risco.

O segundo eixo: quando o capital cobra a conta

A OpenAI fechou 2024 com US$ 5 bilhões de prejuízo sobre uma receita de US$ 3,7 bilhões. Reportagens do Financial Times e do veículo The Information projetam um prejuízo de US$ 14 bilhões em 2026. Anthropic e xAI também queimam caixa.

Apesar disso, a OpenAI vale aproximadamente US$ 300 bilhões em rodadas recentes — valor superior à soma de Petrobras, Itaú e Vale. Para devolver retorno proporcional aos investidores, a empresa precisa multiplicar a receita anual em 8 a 14 vezes, partindo dos atuais cerca de US$ 4 bilhões para algo entre US$ 30 e US$ 50 bilhões.

Esse ajuste pode vir por várias frentes — aumento direto de tarifa, restrição do plano grátis, tiers de raciocínio mais caros, anúncios dentro das respostas, lock-in corporativo — ou alguma combinação. O movimento já começou: o ChatGPT Pro estreou em dezembro de 2024 a US$ 200 mensais, dez vezes mais caro que o ChatGPT Plus. Modelos de raciocínio como o OpenAI o1 e o o3 cobram de 5 a 10 vezes mais que o GPT-4o padrão. Microsoft empacotou recursos antes gratuitos do Office no pacote Copilot Pro, pago à parte.

Aplicando o multiplicador conservador de 8 a 14 vezes sobre o cenário GPT-4o em saturação, o custo anual de inferência do Curitiba App saltaria para R$ 42 milhões a R$ 73 milhões. No cenário Opus, passaria de R$ 500 milhões por ano — nesses cenários, o custo passa a competir com o orçamento de programas inteiros da Prefeitura.

E se Curitiba fizesse em casa?

Existe uma terceira via, que escapa tanto da inflação cobrada por fornecedor quanto da dependência: rodar a IA na própria infraestrutura da Prefeitura, com modelos abertos como Llama, DeepSeek, Qwen ou Mistral instalados em servidores municipais. A pergunta é por quanto.

Uma estimativa elaborada por esta reportagem, a partir do volume atual da Central 156 e dos preços públicos de hardware de IA em abril de 2026, mostra que um setup mínimo viável — capaz de servir os 18,3 milhões de consultas/ano que a Central 156 processou em 2025 — exigiria investimento inicial de aproximadamente R$ 4,7 milhões. O valor cobre um servidor com oito GPUs NVIDIA H100, adaptação do data center municipal, integração com bases internas, os testes de qualidade das respostas e uma reserva de contingência. O custo anual de operação ficaria em torno de R$ 2,5 milhões, distribuídos entre uma equipe técnica e segurança, energia, amortização do hardware em cinco anos e software.

Em escala ampliada — 120 milhões de consultas/ano, cenário compatível com adoção alta dos 800 serviços — o investimento sobe para cerca de R$ 9 milhões e o custo anual para R$ 3,5 milhões. Em saturação plena (250 milhões/ano), são R$ 16 milhões de investimento e R$ 5 milhões de custos anuais.

No volume de hoje, fazer em casa é mais caro do que pagar GPT-4o em nuvem (R$ 2,5 milhões locais contra R$ 389 mil na nuvem). Mas a partir de aproximadamente 132 milhões de consultas por ano — cerca de 7 vezes o volume atual da Central 156 — a infraestrutura local fica mais barata. É o ponto de equilíbrio com o preço de hoje.

A conta inverte completamente quando se aplica o multiplicador do aperto do capital. Com a nuvem cobrando 8 vezes mais — patamar conservador para devolver retorno proporcional aos investidores da OpenAI — o break-even cai para 15 milhões de consultas por ano: a Central 156 sozinha já justifica a infraestrutura. Com 14 vezes, basta 8,5 milhões. Em qualquer cenário de aperto, investir em IA pública própria deixa de ser uma decisão de soberania e passa a ser também a opção mais barata.

O investimento inicial — R$ 4,7 milhões para o cenário mínimo, R$ 16 milhões para saturação — é da ordem de grandeza de uma reforma de praça de médio porte ou de poucos quilômetros de ciclovia, considerando os valores típicos de obras urbanas em Curitiba.

Risco não é só financeiro

A diferença mais crítica entre as duas opções, porém, não está na conta — está nos dados. Quando uma pergunta de cidadão entra no Curitiba App e a Prefeitura usa um modelo de IA contratado em nuvem, o texto digitado atravessa fisicamente um cabo até o data center da empresa contratada — quase sempre fora do Brasil — e fica, ainda que por instantes, sob jurisdição estrangeira. O que se digita ali — sintomas de saúde, situação social, endereço, nome — passa por servidores que não são auditáveis pelo poder público brasileiro.

Os termos de uso das principais fornecedoras de API (OpenAI, Anthropic, Google) prometem em geral não usar esses dados para treinamento se o cliente for "empresarial", mas as cláusulas têm sido reescritas com frequência, e o cumprimento depende de auditoria que apenas a própria fornecedora pode fazer. Em caso de violação ou vazamento, a responsabilidade de comunicar o cidadão (artigo 48 da Lei Geral de Proteção de Dados) cai sobre a Prefeitura, mas a investigação técnica passa pela empresa estrangeira, algumas das quais nem tem representação legal no país.

Rodando localmente, em servidor da própria Prefeitura ou em provedor brasileiro com data center em território nacional, o cenário muda. O texto da pergunta nunca sai do perímetro municipal. A base legal da LGPD para tratamento de dados pessoais por administração pública (artigo 7º, III) fica mais simples de demonstrar quando há controle físico sobre o ambiente. Logs ficam auditáveis pelo controle interno da Prefeitura e pelo Ministério Público.

Não significa, porém, ausência de risco: instalar IA em casa transfere para a Prefeitura a obrigação integral de segurança, manutenção e detecção de vazamento — sem o time de segurança de uma big tech para socorrer. A escolha, portanto, não é entre risco e ausência de risco. É entre risco delegado a uma empresa estrangeira com modelo de negócio em transformação e risco assumido pela própria administração, sob escrutínio nacional. Os dois são reais. A diferença é quem responde quando algo dá errado.

Outros riscos da IA para Curitiba

O uso de Inteligência Artificial, como qualquer outra tecnologia, implica em vantagens e desvantagens. No caso de uma plataforma de atendimento público, porém, alguns desses riscos têm peso particular — começando pela natureza do próprio modelo de IA generativa.

Modelos de linguagem como os usados em chatbots municipais são, por arquitetura, propensos a alucinar: produzem respostas plausíveis e fluentes mesmo quando não dispõem de informação suficiente para responder corretamente. O uso de RAG (a técnica que faz a IA buscar contexto em bases internas antes de responder) reduz essa taxa, mas não a elimina. Em um chatbot que orienta o cidadão sobre direitos, prazos, procedimentos e benefícios públicos, uma resposta inventada pode mandar a pessoa à porta errada, fazer perder um prazo legal ou — pior — orientar de forma equivocada em situações de saúde, assistência social ou segurança. E como o erro tem aparência de resposta oficial da Prefeitura, a chance de o cidadão notar é baixa.

A esse risco soma-se a falta de auditoria pública dos conteúdos que o chatbot serve. As respostas são geradas em tempo real, individualizadas e efêmeras: não existe um repositório consultável, uma versão controlada, um histórico publicado do que a IA disse a quem. Diferentemente de uma resposta de portal — que está lá, para todo mundo ver, com a mesma redação — o que sai do chatbot só existe naquele momento, para aquele usuário. Saber se a Prefeitura está orientando os cidadãos de forma consistente sobre uma determinada política depende de boa-fé na ferramenta, não de fiscalização possível por jornalistas, vereadores, Ministério Público ou pesquisadores. Quando se trata de informação pública, essa ausência de rastro é, por si só, um problema.

A camada seguinte é mais política do que técnica. A IA permite personalização do feed de conteúdo que cada cidadão recebe — um morador pode ver uma mensagem sobre determinada política, enquanto outro morador, com perfil diferente, vê uma mensagem distinta sobre outro tema. Quem decide o que é mostrado a cada grupo é a equipe que controla a comunicação da Prefeitura. E como essa personalização é opaca — não há um espelho público que mostre "esta mensagem está sendo enviada para esse perfil de cidadão" — o controle social sobre o que está sendo dito a quem fica praticamente inviável. Essa é a porta para uma comunicação pública direcionada, sem o filtro do debate aberto, capaz de privilegiar certos grupos com informações úteis enquanto omite as mesmas informações para outros, ou enviesar mensagens institucionais conforme convenha politicamente. O risco não é hipotético: é a versão municipal do mesmo mecanismo que transformou redes sociais em arena de manipulação eleitoral.

Há ainda o risco mais visível, e talvez o mais imediato: a exclusão de uma parcela de cidadãos que não usa internet. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) 2025, o Paraná tem pelo menos meio milhão de pessoas com mais de 10 anos de idade que não acessam a internet. Para essas pessoas, transferir o atendimento da Prefeitura para um aplicativo equivale, na prática, a fechar a porta do serviço.

Mesmo entre quem usa internet, o acesso a serviços por aplicativo mobile depende de aparelho compatível e plano de dados. A oferta de áreas de wi-fi públicas só contorna parcialmente o problema, porque as zonas atendidas não cobrem toda a cidade. Embora os serviços públicos devam ser de acesso universal e gratuito, a solução adotada pela Prefeitura, na prática, exige que o cidadão tenha um plano de internet móvel pago para usufruir deles.


Reportagem elaborada com base em dados públicos da Prefeitura de Curitiba (Curitiba App, Central 156), tabelas oficiais de preço de API de OpenAI, Anthropic e Google (abril/2026) e reportagens do Financial Times, The Information e The New York Times sobre balanços, prejuízos e valuations das principais empresas do setor.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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