Seria ingenuidade pensar que a vereadora Delegada Tathiana (PL) perdeu a cabeça quando cometeu, nesta quarta-feira (5) um ato de xenofobia em plena Câmara Municipal. Ao perguntar porque a petista Vanda de Assis, primeira na história a ser eleita vereadora na cidade apesar de nascer no Nordeste, não volta para seu estado de origem, o Ceará, Tathiana sabia o que estava fazendo. Estava correndo atrás de votos.
Eleita pela extrema-direita, Tathiana Guzella usou seu cargo na polícia, junto com seu marido, o "delegado xerifão" Tito Barichelo (PL), como trampolim para a política. Os dois filmavam suas operações na Homicídios e postavam vídeos nas redes sociais, sempre com o mesmo viés linha dura. Com armamento pesado, viaturas em alta velocidade e um discurso truculento, ganharam os corações do eleitorado bolsonarista.
Agora, Tathiana quer subir para um novo patamar. Seu marido é candidato a deputado federal, e ela quer ocupar a vaga de Tito na Assembleia Legislativa Precisará, para isso, ter pelo menos 30 mil votos. Faz sentido que ela queira aparecer mais do que nunca nos meses que antecedem a eleição. E com o ataque bizarro a Vanda, conseguiu espaço gratuito em toda a Internet.
Primeiro é preciso dizer: Tathiana poderia ser punida por quebra de decoro. Xenofobia é crime, e a Câmara faria bem em cassar o mandato dela. Mas dificilmente isso irá acontecer, primeiro porque a delegada é parte da base do prefeito Eduardo Pimentel (PSD), e os vereadores da base são intocáveis. Já houve nesta legislatura casos graves, de rachadinha a nepotismo, e até agora ninguém foi punido.
Mais do que isso, porém, Tathiana certamente conta que vai ser eleita deputada estadual daqui a dois meses. E, se for o caso, a Câmara só tem pouco tempo para puni-la. Depois disso, não há como cassar um mandato ao qual ela já terá renunciado.
Há método nesse ataque perverso. Tathiana sabe que na extrema direita há muito preconceito contra os nordestinos, e conta que sua suposta defesa de Curitiba contra os bárbaros irá lhe dar votos. Ela pode estar certa. Como subproduto disso, acirrou ainda mais a xenofobia já existente na cidade, colocando lenha numa fogueira que já pune todos os dias os migrantes que decidiram tentar a vida aqui. Mas, do ponto de vista de quem só quer cargos e benesses, isso não parece importar tanto.
Curiosidade bônus: tanto Tathiana quanto seu marido se elegeram aqui embora tenham nascido em Caçador, Santa Catarina. Mas, evidentemente, para os xenófobos, migrantes de estados do Sul devem ser bem recebidos, ao contrário do que acontece com os nordestinos. Que, não por coincidência, normalmente têm a pele mais escura.

