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Ícone do cinema brasileiro, Othon Bastos conta sua história no palco da Caixa

Aos 93 anos, ator baiano conta histórias de trabalhos como "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e "São Bernardo"

Ícone do cinema brasileiro, Othon Bastos conta sua história no palco da Caixa
Othon Bastos em cena. Foto: Beti Niemeyer/Divulgação

Quem gosta de cinema brasileiro provavelmente já viu em algum momento as cenas de Corisco em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", o clássico que Glauber Rocha lançou aos 24 anos. Pois Corisco está em Curitiba por esses dias, e do alto de seus 93 anos, conta como nasceram o personagem e o modo como tudo foi filmado.

Othon Bastos, que saiu da pequena Tucano no sertão baiano para ganhar o mundo, conta na peça que apresenta atualmente em Curitiba como foi que convenceu Glauber a mudar os planos da filmagem. A história de Corisco apareceria em flashback no roteiro original. Mas numa viagem de nove horas "em uma estrada horrorosa" até a locação em Monte Santo, Othon, que era um pouco mais velho do que o diretor, convenceu-o a deixar que o personagem contasse seu passado.

"Você está fazendo um filme moderno, é Cinema Novo, vamos fazer desse jeito", disse o ator, querendo uma abordagem brechtiana para o personagem. "E digo sempre que Corisco, daquele modo, nasceu da generosidade do Glauber, que aceitou minhas sugestões", conta Othon em entrevista ao Plural pelo telefone. "É por isso que o filme começa no modelo do Stanislavksi e na segunda metade vira Brecht", explica o ator.

A peça que Othon apresenta neste fim de semana no Teatro da Caixa, "Eu Não Me Entrego, Não", conta essa e outras histórias de sua trajetória como ator. Do início, montando Shakespeare e Rachel de Queiroz, ao Cinema Novo, trabalhando com todos os diretores importantes ("Só faltou Cacá Diegues", diz ele), até a sua vida atual, ainda cheia de prazer nos palcos.

Othon fala, por exemplo, do filme que, segundo ele, é o preferido de todos os que fez: "São Bernardo", baseado em Graciliano Ramos e dirigido por outro grande nome do cinema brasileiro, Leon Hirszman. "Deus e o Diabo eu via como um experimento, não sabia nem se os colegas de profissão iam entender. Mas São Bernardo acho que é o grande filme que eu fiz", diz ele.

No filme, entre outros atores, Othon contracena com Mário Lago, que faz o papel do padre submisso aos interesses do latifundiário. E quando recebe elogios por sua memória, já nonagenário, para decorar toda a peça, Othon lembra do colega. "Não sou nenhum Mário Lago. Aquele sim tinha uma memória prodigiosa", conta.

Mas a capacidade de lembrar noite após noite o texto atualmente assombra quem assiste à peça. "Eu só me ponho no momento de que o texto está falando, vivo aquilo de novo", diz o ator, ressaltando que não se trata de uma biografia. "Não vou ficar contando em ordem cronológica o que eu fiz aos dois anos, aos três. São fatias da minha vida. E só as melhores partes. Pedi para o Flávio (Marinho, autor do texto) para deixar só as partes boas. As amargas, não."

Feliz por continuar trabalhando o baiano diz que tem como lema um poema que atribui a Emily Dickinson. "Nasço contente todas as manhãs", diz ele. "Esse é o espírito, viver feliz, não se entregar."

Serviço
“Não me entrego, não!” – Monólogo com Othon Bastos
Local: CAIXA Cultural Curitiba – Rua Conselheiro Laurindo, 280 – Centro
Datas: 31 julho a 2 de agosto de 2026
Horário: sexta a sábado às 20h, domingo às 19h
*Sessões com acessibilidade: sextas-feiras com tradução em Libras
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Início das vendas: 18 de julho às 10h na bilheteria física e às 15h pelo site Bilheteria Digital
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 90 minutos
Acessível para pessoas com deficiência

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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Tags: cultura teatro

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