Nos últimos anos, o papel da mulher na Igreja Católica tem ganhado maior visibilidade, especialmente com os apelos do Papa Francisco para que a Igreja vá ao encontro das “periferias existenciais” — incluindo aquelas marcadas por desigualdade de gênero, invisibilização e falta de escuta. Neste contexto, ouvimos três importantes teólogas brasileiras com atuações distintas, cujas pesquisas e práticas eclesiais oferecem contribuições valiosas para compreender o momento atual e os caminhos possíveis. São elas: Ana Beatriz Dias Pinto, pesquisadora em Teologia Ético-Social, com ênfase em Contemporaneidade, Comunicação e Cultura dos Povos; Andreia Cristina Serrato, especialista em Mística, Corporeidade e Espiritualidade; e Jaci Souza Candiotto, que tem atuado na articulação entre Teologia, Gênero e Direitos Humanos.
Avanços foram inaugurados pelo Vaticano II
De acordo com Ana Beatriz, um marco fundamental na história da Igreja, para que o papel da mulher começasse a ganhar nova tonalidade, foi o Concílio Vaticano II (1962–1965). “Embora não se tenha abordado diretamente uma teologia da mulher, lançou fundamentos importantes para a ampliação de sua participação na vida eclesial”. Um dos principais avanços foi a inclusão de auditoras leigas no próprio Concílio, algo inédito até então. Essas mulheres, “embora sem direito a voto, representaram um passo simbólico e significativo de reconhecimento da presença feminina na Igreja”, explica.
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“A constituição apostólica Lumen Gentium abriu caminho para que as mulheres assumissem com mais legitimidade funções de liderança em conselhos pastorais, ministérios leigos, educação teológica e ações sociais promovidas pela Igreja”, esclareceu a especialista, que ainda destacou: “outro importante documento foi a Gaudium et Spes, que contribuiu para que a Igreja passasse a refletir de maneira mais profunda sobre as injustiças e discriminações sofridas pelas mulheres, reconhecendo a necessidade de promover sua dignidade e participação ativa, tanto na sociedade quanto na própria vida eclesial”, assevera. Essa diretriz abriu caminho para uma maior valorização das mulheres nos espaços pastorais, educacionais e teológicos da Igreja.
As sementes da participação feminina: sinais dos tempos
Andreia Cristina Serrato destaca que o Vaticano II representou uma “primavera” na vida da Igreja, ainda que seus frutos sigam encontrando “terrenos duros”. Para ela, embora o Concílio tenha reconhecido a mulher como sujeito eclesial, os avanços permaneceram no campo simbólico: “Não se trata apenas de abrir espaços, mas de permitir que a voz e a experiência das mulheres ressoem no coração das decisões eclesiais. E isso ainda está longe de se realizar plenamente.” Andreia enfatiza o papel decisivo das mulheres nas comunidades de base e nas periferias: “São as mulheres que sustentam a vida eclesial. Elas anunciam e denunciam como Maria de Nazaré, e transformam a dor do povo em esperança viva.”
A teóloga também chama atenção para o estilo pastoral do Papa Francisco, que promoveu avanços significativos, como a nomeação de mulheres para cargos de liderança na Cúria Romana e a inclusão feminina com direito a voto nos processos sinodais. “Entre as iniciativas concretas, ressalto duas, uma foi a inclusão das mulheres como no caso da criação de comissões para estudar o diaconato feminino, a nomeação de mulheres para cargos de liderança na Cúria Romana a exemplo da subsecretária do Sínodo, Nathalie Becquart, dentre outras nomeações que fez. A segunda, foi o Sínodo para a Sinodalidade em que convidou as mulheres e as incluiu ativamente nos processos sinodais, inclusive com direito a voto, ou seja, além de voz como no Sínodo para a Amazônia, no Sínodo para a Sinodalidade elas tinham, em conjunto, poder de decisão. Para mim, foi o maior feito do papa Francisco”, recorda.
As decisões do Papa Francisco, segundo Andreia, são proféticas. “Elas sinalizam que é possível romper com estruturas patriarcais que não correspondem à lógica do Evangelho.” Para além da representação, a teóloga destaca a importância do discernimento espiritual: “A Igreja começa a reconhecer que a liderança feminina não é apenas desejável, mas necessária. O papa Francisco nos ensina que a escuta é ato espiritual e político. Ele nos encoraja a sonhar com uma Igreja de comunhão, participação e missão, onde as mulheres não sejam apenas acolhidas, mas chamadas a decidir”.
Andreia Serrato analisa, ainda, a abertura ao diaconato feminino: “Seria um passo coerente com a tradição da Igreja primitiva. Já houve mulheres diaconisas”, assinala. De acordo com a pesquisadora, o Sínodo é o espaço para escutar essas vozes e ousar caminhos novos: “Sobre o protagonismo das mulheres na igreja hoje, não tenho dúvidas, ele é evidente e essencial. Nas comunidades de base, nas pastorais sociais, na vida litúrgica cotidiana e no cuidado dos pobres, são as mulheres que sustentam a vida eclesial. Nas periferias, vejo mulheres que, como Maria de Nazaré, anunciam e denunciam a dor do povo e a transforma em esperança viva. O Sínodo para Amazônia mostrou isso muito claramente. Muitas mulheres estão presente nos lugares aonde os padres não chegam”.
Teologia feminista: pluralidade e resistência
Jaci Souza Candiotto oferece uma leitura crítica e esperançosa sobre o papel das mulheres na Igreja a partir da teologia feminista. “Trata-se de uma teologia contextual, que parte das experiências concretas das mulheres e propõe uma comunidade mais inclusiva e dialogal”, afirma. Dentre os desafios persistentes, ela cita a exclusão de espaços decisórios, a resistência ao reconhecimento da autoridade teológica feminina e a sobrecarga pastoral. “Superar isso exige conversão pastoral e abertura real ao protagonismo feminino.” Para ela, a figura da Mãe de Jesus para o catolicismo é modelo de inspiração e força para as mulheres: “Maria legitima a busca por reconhecimento e participação plena na missão da Igreja.”
Já Andreia Serrato acredita que é possível, sim, romper com estruturas clericalistas e patriarcais que não correspondem à lógica do Evangelho. Como mulher que caminha na espiritualidade inaciana, assim como era o carisma do Papa Francisco, suas pesquisas teológicas entendem que a Igreja começa a reconhecer que a liderança feminina não é apenas desejável, mas necessária. “Ainda há um longo caminho, pois cargos administrativos não significam plena igualdade, mas já são sinais dos tempos que devem ser lidos com esperança e vigilância crítica”, acrescenta.
Legado de Francisco e trabalho em rede
Ao ser questionada sobre o futuro da Igreja e do papel das mulheres na teologia, Jaci Candiotto expressa otimismo em relação às próximas gerações de mulheres católicas. “Espero que sejam críticas, conscientes de sua dignidade, preparadas teologicamente e comprometidas com a transformação social e eclesial.”
Para a pesquisadora, o pontificado do Papa Francisco deixou a marca da escuta sensível, da valorização das mulheres e da denúncia das desigualdades de gênero. “Cabe aos próximos papas consolidar esses avanços, garantindo estruturas participativas que reflitam a igualdade batismal”, destaca.
Como exemplo prático de ação, ela cita a atuação da Rede Brasileira de Teólogas, grupo criado para promover formação, resistência e produção coletiva em temas ligados à teologia feminista. “Em nosso país, a Rede Brasileira de Teólogas é um exemplo notável de resistência e produção coletiva, promovendo visibilidade, formação e articulação de mulheres comprometidas com uma teologia libertadora, inclusiva e transformadora”, enfatiza.
Apesar dos avanços e da mobilização em rede, Ana Beatriz Dias Pinto faz um contraponto importante, recordando que é preciso respeitar os fundamentos da doutrina da Igreja em qualquer debate sobre o papel das mulheres. “A Igreja é uma instituição milenar. Francisco foi firme ao lembrar que a estrutura da Igreja, em sua configuração sacramental, é masculina. Não por exclusão, mas por fidelidade à tradição apostólica”, observa. Nesse sentido, a pesquisadora enfatiza a distinção entre a legítima ampliação de espaços de atuação e os princípios que pertencem ao depósito da fé. “A inclusão das mulheres na vida eclesial precisa ser dialogada e respeitosa, em comunhão com o Magistério da Igreja. Para sermos verdadeiramente um Corpo, todas as partes precisam estar integradas - cada uma segundo seu ministério e vocação, em unidade”, adverte.
Para as três especialistas, o Conclave que se aproxima será decisivo para os rumos da Igreja. A eleição de um papa sensível ao diálogo com os temas de teologia de fronteira -especialmente aqueles que envolvem a participação das mulheres na vida eclesial - será de fundamental importância. A expectativa é que o novo pontífice dê continuidade ao processo de escuta, discernimento e abertura pastoral iniciado por Francisco, aprofundando os caminhos de uma Igreja mais sinodal e que valorize mais as mulheres.