Em apenas uma semana de pontificado, o Papa Leão XIV já acendeu o alerta vermelho na sociedade. Apresentou-se no balcão da Praça de São Pedro vestindo paramentos hierárquicos como a mozeta e a estola romana, além de anel e cruz de ouro. Diferente de seu antecessor, o Papa Francisco, que permaneceu em um quarto simples na Casa Santa Marta e vestia-se sem ostentação, Leão XIV escolheu morar no requintado Palácio Apostólico do Vaticano.
Mas o mais preocupante são suas primeiras falas. Duas já despertaram temor entre teólogos e defensores do ecumenismo, do diálogo inter-religioso e da proposta de uma “Igreja em saída”, voltada ao acolhimento das periferias existenciais que deram esperança à humanidade no pontificado anterior.
Na contramão de Francisco, Leão XIV começou a citar documentos ultrapassados que expressam ideias como “fora da Igreja não há salvação” e defender que a família seria baseada exclusivamente na união entre um homem e uma mulher.
Além do uso de paramentos litúrgicos e acessórios de vestuário — que, assim como Francisco, o novo papa poderia ter recusado —, os primeiros sinais de retrocesso podem ser encontrados já em sua homilia inaugural, marcada por trechos que remetem à doutrina mais fechada da Igreja. Logo em sua primeira fala oficial na Capela Sistina, Leão XIV declarou que “não podemos separar o Reino da Igreja”, ecoando um exclusivismo religioso que contrasta com décadas de abertura teológica.
Em uma longa postagem em seu perfil no Facebook, o teólogo Faustino Teixeira, um dos maiores especialistas no tema, comenta que essa inversão doutrinária é um equívoco teológico grave: “O correto seria o contrário: não podemos separar a Igreja do Reino.” Essa afirmação, vinda de um papa, reaviva o debate sobre o lugar das outras religiões no plano salvífico de Deus. Em tempos de pluralismo religioso, essa postura representa um grave retrocesso pastoral e teológico.
“Vejo que nossa teologia não consegue acompanhar os sinais dos tempos. […] O magistério avança pouco no aprofundamento teológico que indique uma visão aberta de Jesus no trato com as outras religiões”, comenta o estudioso. Teixeira critica ainda o que considera um “eclesiocentrismo cristalizado” e questiona a autoridade exclusiva da Igreja para discernir a presença do Espírito em outras tradições: “Por que é somente a Igreja que deve discernir sobre a presença do Espírito?”
Entre as passagens mais preocupantes destacadas pelo teólogo estão: “As outras comunidades eclesiais não são Igrejas em sentido próprio.” (Dominus Iesus, n.17) e “Os adeptos de outras religiões se encontram em situação gravemente deficitária.” (Dominus Iesus, n.22). Essas falas causam grande problemática para um papa que afirma querer dialogar com o mundo e construir pontes, mas que adota uma postura que recusa o valor de outras formas de espiritualidade – o que pode gerar graves conflitos com outras religiosidades.
O também teólogo Leonardo Boff endossou a crítica do colega com palavras contundentes: “À teologia cabe pensar a fé em sua amplitude maior, que vai além da teologia oficialista […] Uma Igreja que ensina que fora da Igreja não tem salvação é uma Igreja que não tem salvação.” Para Boff, o novo Papa ignora a superação proposta pelo Concílio Vaticano II ao reafirmar visões que limitam o acesso à salvação apenas aos batizados.
O retorno de documentos que o mundo queria esquecer
Leão XIV parece ter reacendido a força de documentos tidos como divisivos. Dois deles merecem destaque: Redemptoris Missio, escrito por João Paulo II, em 1990, que afirma que a missão evangelizadora da Igreja é a única via de salvação e que concede somente à Igreja o papel de discernir a presença do Espírito em outras tradições.
Além disso, Leão XIV ainda faz uso do documento Dominus Iesus, assinado pelo Cardeal Joseph Ratzinger em 2000, que mais tarde viria a se tornar o papa Bento XVI. A obra afirma que religiões não cristãs estão em situação “gravemente deficitária” e define comunidades cristãs não-católicas como não plenamente eclesiais.
Esses textos são considerados obstáculos ao diálogo inter-religioso. Para Faustino Teixeira, a recente homilia de Leão XIV demonstra que “a Dominus Iesus continua profundamente vinculante na visão teológica oficial” — o que é alarmante para os que lutam por abertura teológica e unidade entre os povos.
Igreja: quem tu és e para onde vais?
Ao longo dos seus 12 anos de pontificado, o Papa Francisco tentou avançar “pelas bordas”, mantendo uma postura pastoral de acolhimento e diálogo, mesmo sem ter conseguido revogar oficialmente documentos como a Dominus Iesus. Contudo, Leão XIV parece seguir no sentido oposto de comunhão com outras crenças: cita um documento delicado e reafirma a ortodoxia, como quem fecha portas e levanta muros.
Isso gera angústia não apenas entre teólogos, mas também entre fiéis que enxergavam na Igreja uma abertura possível à diversidade de experiências espirituais. Como a Igreja dialogará com o mundo contemporâneo se insiste em negar a validade das outras crenças? A escolha do nome Leão já é, por si só, simbólica: um retorno ao passado. Em um mundo cada vez mais plural, a Igreja corre o risco de perder relevância se mantiver uma doutrina exclusiva e impositiva, desconsiderando os múltiplos modelos familiares e religiosos presentes na sociedade global.
A ascensão de Leão XIV reforça a fumaça preta que paira sobre o Vaticano: a crise da Igreja Católica não é só institucional: é teológica e também pastoral.
O que resta saber é se, em pleno Jubileu da Esperança, o novo papa será capaz de escutar os ventos do Espírito Santo e atualizar a missão da Igreja no século XXI — ou se já estamos diante de um pontificado marcado pelo endurecimento dogmático que o papa Francisco tanto combateu.