Os filmes do diretor Darren Aronofsky são reconhecidos por tratar de temas densos e por possuir uma poética característica, a qual promove diversas provocações, indagações e espanto. De certa forma, é a partir do espanto com as coisas mundanas que podemos racionalizar, ou tentar fazer com que aqueles fenômenos que parecem triviais ou apenas repetições irrefletidas, venham para a superfície. No filme “A Baleia” (The Whale, 2022) a vida de um professor de inglês com obesidade mórbida é o cenário de diversos dramas que se sobrepõem e evidenciam aspectos da interseccionalidade ao longo do desenrolar da trama.
O conceito de interseccionalidade busca indicar problemas sociais e como sistemas de opressão são sobrepostos na configuração das distintas formas de dominação, além de endereçar a questão de quais transformações institucionais são necessárias para tratar de tais problemas. Com isso, as experiências de vida das pessoas ocupam lugar de interesse conceitual. A interseccionalidade entende que tanto a ação social quanto as experiências são importantes para a teorização crítica. As experiências, para Patricia Hill Collins, são janelas de oportunidade para o entendimento do mundo social e elas podem ser teorizadas de diferentes maneiras.
Kimberlé Crenshaw é reconhecida como uma das primeiras teóricas a tratar da interseccionalidade para enfrentar o desafio duplo do patriarcalismo nos movimentos antirracistas e do lugar periférico da raça no ativismo feminista. A interseccionalidade mirava, no princípio, a questão da conexão dos problemas raciais e de gênero, entendidos como “pontos cegos” nos movimentos de luta por direitos.
A interseccionalidade do filme “A Baleia” não trata da questão racial, a ênfase acaba por recair sobre os aspectos de gênero (em sua terceira onda) e da obesidade, problemas de saúde mental e compulsão alimentar. No contexto da história Charlie, o protagonista, é um homem branco, gay e leva a sua vida “preso” ao sofá de sua casa em razão da sua obesidade. A interseccionalidade, portanto, pode possuir outras declinações para além daquelas consideradas originalmente por Crenshaw.
A questão da experiência particular, tratada muitas vezes como de menor relevância teórica, é uma janela que se universaliza seja na dor, na morte, no amor em suas diversas manifestações e no questionamento sobre até que ponto conduzimos/navegamos nossas próprias vidas.
Podemos escolher nossa forma de morrer? Podemos nos sacrificar por nossos filhos? Podemos renunciar ao sistema de saúde e à nossa profissão? Tais interrogações podem ser feitas potencialmente por qualquer um. Além disso, o mundo representado no filme nos convida a perceber que a primeira impressão que possuímos das pessoas é só um julgamento superficial, pouco sabemos das dores dos outros, dos seus desejos e suas motivações.
Há ainda uma inafastável discussão teológica, recorrente em diversos filmes de Aronofsky, sobre a salvação das almas e a disputa pela interpretação de textos sagrados. O convite à navegação é feito sob a perspectiva da empatia e, nesta representação, aquilo que seria um olhar sobre a “nojeira”, reconhecida a repulsão que o próprio protagonista provoca nos outros, transforma-se em um apelo por alteridade, para que reconheçamos aquilo que existe de nosso nos outros.
As intersecções acabam por ser representadas por vários personagens da trama, a depender de como sejam entendidos seus dramas individuais. Veja-se a questão luto da perda de um parceiro como estopim para a renúncia à própria vida. Isso nos traz a questão de quais vidas merecem luto, quais corpos e vidas são importantes e merecem recordação? A opressão enfrentada pelo protagonista é moldada por sua sexualidade, sua situação socioeconômica e suas relações familiares. Há desafios de diversas ordens, sobre a paternidade, a exposição do próprio corpo e a dificuldade em se relacionar com as pessoas.
A interseccionalidade surgiu da percepção de que haveria a sobreposição de injustiças sociais na negação de aspectos de raça, gênero, classe social, dentre outros. Isso acaba por evidenciar a interdição ao acesso à efetivação de direitos fundamentais. Não se ignora que o filme possa, em sua representação dos absurdos da condição humana em diversas dimensões, causar revolta, repulsa e inconformismo. Talvez ele possa ser criticado exatamente por aquilo que ele busca representar e como realiza esta representação. Mas esta é uma questão que trata da ética da representação e dos seus limites. Tais pontos são relevantes, mas será que não seria o caso de se dar uma chance interpretativa para a integralidade da obra e dos diálogos que ela procura promover?
Aspectos de injustiça estrutural também podem ser percebidos no que diz respeito ao não acesso ao direito fundamental à saúde. O roteiro não faria muito sentido no Brasil, a escolha econômica do sacrifício de todo o dinheiro de Charlie para a filha como forma indireta de compensação por sua ausência, não teria como avançar em lugares que possuam o direito fundamental à saúde garantido por instituições públicas com o SUS. A compreensão, neste caso, pode também ser de que a falta de universalização deste direito leva a uma escolha trágica, qual seja, a de não receber tratamento de saúde para antecipação da própria morte. Este, igualmente, é um tópico controvertido e trata de uma questão existencial de primeira ordem: escolher como viver e escolher como deixar a vida.
E a questão econômica, ou de classe, é um dos pontos de reflexão na interseccionalidade. Somos todos iguais, mas a saúde não é acessada de forma igual entre ricos e pobres. Este é um dos limites da igualdade formal, por isso, devemos considerar a igualdade em sua dimensão material.
Não se trata de renunciar à igualdade de todos perante a lei, mas de adensar, aprofundar as diferentes dimensões que a complexidade e a pluralidade humana nos reivindicam. Somos iguais, mas, no filme, Charlie não pode reconhecer o corpo do seu próprio parceiro por “não ser da família”, há uma interdição do luto em razão do gênero. Ademais, a igualdade formal não percebe corpos diversos e como podem existir diferentes tipos de demandas para garantir os direitos de acessibilidade e locomoção.
Pensar sobre direitos fundamentais requer que tenhamos a perspectiva interseccional no horizonte para aprimorar nossas ferramentas teóricas e práticas, além de uma abertura para a compreensão dos outros em suas diversas demandas, em suas interpelações. O filme “A Baleia” é uma representação que busca promover reflexões sobre injustiças sociais sobrepostas, estas, por seu turno, conformam parte da maneira como as instituições devem funcionar para responder a elas.