Com a eleição de Leão XIV, o novo pontífice da Igreja Católica, abre-se uma nova etapa marcada pela tensão entre a expectativa de avanços sociais e a reafirmação de uma doutrina milenar. Sucedendo Francisco - um papa que marcou o século XXI com gestos de abertura e aproximação com os mais vulneráveis -, Leão XIV herda uma Igreja globalizada, polarizada e desafiada por temas como aborto, direitos da população LGBTQIA+, imigração, ecologia, guerra, trabalho e o papel da mulher que, ao menos a partir dos primeiros dias de pontificado e sinais aparentes de opiniões, já demonstram que não sofrerão melhorias significativas.
Nascido nos Estados Unidos, mas com forte atuação pastoral e missionária no Peru, Robert Francis Prevost, agora Leão XIV, é canonista de formação. Ou seja, tem como especialidade o Direito Canônico, o corpo jurídico que regula internamente a vida da Igreja, que são os Tribunais Eclesiásticos (ou a bem dizer, o departamento que leva à frente o antigo Tribunal da Inquisição, talvez só tenha ganhado um novo nome, mas tem roupagens semelhantes). Isso, por si só, já indica a atuação do novo papa será pautada por uma adesão rigorosa às normas vigentes, tendo sido ele estudante de uma das universidades mais clássicas para essa formação, a de Santo Tomás de Aquino, em Roma.
A expectativa, portanto, é de continuidade doutrinária e prudência institucional e o pontificado de Leão XIV promete ser morno em muitos temas que foram quentes durante a gestão do Papa Francisco. Para a teóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Ana Beatriz Dias Pinto, “o perfil jurídico do novo papa sinaliza uma condução mais institucional que a de Francisco. Ele deve manter o tom de escuta, mas sem flexibilizações doutrinárias profundas”. Ela destaca que Leão XIV deve manter, em linhas gerais, os limites tradicionais da moral católica: “Dificilmente veremos a ordenação de mulheres e muito menos o reconhecimento de uniões homoafetivas como sacramentos. Esses temas são pautas fechadas no quesito sacramental”. Isso não poderia ocorrer, especialmente num pontificado com um canonista à frente da Igreja.
Aborto e defesa da vida
Um dos pontos de maior interesse global é a posição do novo pontífice sobre o aborto. Leão XIV, como já era esperado, defende o compromisso com a defesa da vida “desde a concepção até a morte natural”. A Igreja manterá sua oposição irrestrita à legalização do aborto, ainda que possa haver nuances no tom, especialmente na escuta de contextos sociais.
Nesse sentido, a professora Ana Beatriz aponta que “a linguagem pode ser mais acolhedora, mas o conteúdo continuará o mesmo. A defesa da vida é um pilar que atravessa todos os papas. A diferença está na forma, não na substância”, explica.
Comunidade LGBTQIA+: acolhimento, mas sem ruptura
Durante o pontificado de Francisco, houve tentativas de aproximação com a comunidade LGBTQIA+, sobretudo com o uso de linguagem pastoral e a defesa da dignidade dessas pessoas dentro da Igreja. Espera-se que Leão XIV mantenha o respeito individual, mas sem avançar no reconhecimento formal de uniões homoafetivas. “A doutrina permanece a mesma: a sexualidade tem finalidade procriativa dentro do casamento sacramental. Leão XIV não deve alterar essa visão”, comenta Ana Beatriz. Ela pondera, no entanto, que “há espaço para continuar o trabalho de acolhimento e combate à discriminação. A Igreja pode e deve proteger a dignidade de todas as pessoas, inclusive LGBTQIA+, mesmo mantendo sua doutrina sexual”. Ela cita o exemplo de arquidioceses como a de Curitiba, que possui um grupo de Escuta e Acolhida às pessoas LGBT, além da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, formada por grupos, leigos, movimentos e pastorais de simpatizantes e pessoas católicas nessa condição: “são iniciativas de inclusão e de participação, para que esse grupo não fique totalmente às margens, distantes da vivência católica que lhes faz universo de sentido”. Contudo, isso não os impede de viver ainda sobre a pressão de acusação de estarem em estado de pecado, de constantemente terem dedos apontados e julgamentos – especialmente pela ala mais conservadora da Igreja.
Mulheres na Igreja: sem ordenação, mas com valorização
Um dos temas mais debatidos no Sínodo dos últimos anos foi o papel das mulheres na Igreja. Embora movimentos internos peçam a ordenação feminina, a posição de Leão XIV já é considerada previsível: a doutrina católica permanecerá inalterada nesse ponto. O papa João Paulo II já havia declarado o fechamento da discussão sobre ordenação de mulheres, o Papa Francisco até tentou e não teve adesão. Então não será Leão XIV, como canonista, que irá reabrir o tema. Isso, no entanto, não significa exclusão total das mulheres da vida eclesial. Espera-se que o novo pontífice fortaleça a presença feminina em cargos administrativos e pastorais não ordenados. “A valorização da mulher pode crescer, mas dentro dos contornos permitidos pela tradição e pelo magistério, como cargos importantes que já começaram a ter participação feminina, inclusive dentro do Vaticano”, explica a teóloga da PUCPR.
Ecologia, trabalho e imigração: temas centrais da dignidade humana
Leão XIV deverá dar continuidade ao legado ecológico deixado por Francisco, especialmente pela encíclica Laudato Si’. Sua origem latino-americana e sua vivência no Peru - país marcado por diversos desafios ambientais e sociais - o colocam em posição favorável para manter o compromisso com a Casa Comum. A linguagem pode mudar, mas a preocupação com o meio ambiente deverá seguir como pauta. Da mesma forma, temas como a dignidade dos trabalhadores e os direitos dos imigrantes continuarão sendo tratados sob o viés da Doutrina Social da Igreja.
“Esses temas são menos polêmicos internamente e mais consensuais na missão da Igreja com os pobres e marginalizados”, analisa a especialista que acrescenta que inclusive este foi o motivo apontado por Prevost para a escolha do nome pontifício, de modo a homenagear Leão XIII, que foi o papa que criou o documento Rerum Novarum, encíclica que trata da condição dos operários e é considerada o marco inicial da Doutrina Social da Igreja.
Desse modo, Leão XIV, portanto, deverá manter as linhas de Francisco no que tange à crítica ao sistema econômico excludente, à exploração do trabalho e à xenofobia contra imigrantes e refugiados.
O desafio: das guerras às pessoas em marginalização na Igreja
A Santa Sé tem atuado com forte presença diplomática em zonas de conflito, da Ucrânia ao Oriente Médio. O novo papa herda uma missão complexa: manter a neutralidade, preservar os canais diplomáticos e defender a paz em contextos cada vez mais instáveis. A expectativa é de que Leão XIV, com seu perfil mais institucional, reforce a ação diplomática da Cúria Romana, ainda que com menos protagonismo midiático.
O que há de se entender é que, diferentemente do alarde que se faz ao novo papa, é que Leão XIV não será um reformador tal qual Francisco tentou ser. Sua missão parece ser a de preservar, organizar e fortalecer as estruturas herdadas. Avanços sociais poderão ocorrer na forma de escuta, acolhimento e caridade pastoral, mas sem grandes avanços estruturais.
Para quem anseia por mudanças iniciadas por Francisco, a perspectiva de momento não parece ser das mais estimulantes: a Igreja de Leão XIV promete não ser de rupturas, mas tão somente de reafirmações. Como resume a professora Ana Beatriz Dias Pinto: “O novo papa deverá reafirmar que a Igreja não é um laboratório de mudanças doutrinárias, mas um espaço de transmissão fiel da fé. Isso não impede que ele seja um promotor da dignidade humana e da justiça social, mas ocorrerá dentro dos limites que a tradição lhe permite. É impossível o papa sozinho fazer mudanças, especialmente no aspecto sacramental, pois o Direito Canônico parte de uma perspectiva de direito natural, e isso é pauta fechada dentro da Igreja. E mesmo que ele quisesse, dificilmente teria apoio. Os dicastérios não aprovariam tais flexibilizações para se preservar a tradição”, explica a especialista.
Enfim: será nessa corda bamba entre a defesa da doutrina e a escuta dos clamores do mundo que Leão XIV inicia um pontificado que poderá ou não fazer história. Uma com final feliz aos mais marginalizados dependerá de suas escolhas e se será capaz de repetir os gestos simbólicos de Francisco, se será capaz de ousar mover as estruturas rígidas de uma instituição moldada há dois milênios. E isso, num mundo em ebulição, pode custar não apenas a relevância de sua voz pública, mas também a fidelidade das novas gerações, cada vez mais distantes de uma fé que insiste em falar para dentro de si mesma. Um pontificado morno e engessado será de sofrimento para milhões de fiéis que seguem aguardando que o Evangelho, que um dia foi boa nova, volte a sê-lo de modo acolhedor também para mulheres, LGBTQIA+, pobres, imigrantes, trabalhadores, casais divorciados e tantos outros que, embora batizados, provavelmente continuarão às margens, sem lugar para sentar-se à mesa.