A modinha entre políticos de extrema-direita que dependem das redes sociais para se elegerem é invadir unidades de saúde e hospitais. Sob o pretexto de que querem fiscalizar o atendimento à população, entram filmando, expondo pessoas e às vezes colocando pacientes em risco.
Nesta semana, a moda fez sua primeira vítima. Um homem de 93 anos que estava sendo atendido em uma UPA em Felício dos Santos, no interior de Minas Gerais, morreu logo depois de um vereador entrar na Sala Vermelha onde ele estava passando por um procedimento de emergência. A invasão, segundo os funcionários, desestabilizou os médicos e enfermeiros, que tiveram de se dividir entre fazer o atendimento e lidar com o vereador do Avante.
Depois da morte do paciente, o vereador disse que estava fazendo a “fiscalização” porque os atendimentos estavam demorando demais. Ao ser informado de que a equipe estava tratando de uma emergência, driblou a segurança e entrou na sala onde o paciente estava passando por um procedimento cardíaco.
Segundo o vereador, ele apenas colocou a cara para dentro da porta e perguntou se havia um médico ali. Ao saber que sim, saiu. Uma enfermeira rebateu dizendo nas redes sociais dizendo que não foi isso que aconteceu e afirmando que, se fosse ela, jamais conseguiria dormir depois do que o político fez.
No Paraná, há dois casos de políticos invadindo instituições médicas. O mais recente foi o do vereador João Bettega (União), que entrou no Hospital Cajuru também alegando estar em sua tarefa de fiscalizar o município (embora o Cajuru não seja um hospital municipal).
Bettega alegou prerrogativas parlamentares para estar lá, e para permanecer mesmo depois de informado pela segurança que devia se retirar. Em entrevista à Banda B, a advogada Ana Carolina Clève diz que, embora esse direito do vereador exista, houve exagero.
“De fato os parlamentares, a exemplo dos vereadores, têm a prerrogativa de fiscalizar o serviço público. Ocorre que, a despeito de ser uma prerrogativa, o que eu vejo neste específico caso é um abuso dessa prerrogativa para uma finalidade que, a meu ver, é de espetacularização, é uma finalidade de fazer sensacionalismo. Então, me parece que há um desvio de finalidade dessa prerrogativa parlamentar. Um desvio de finalidade pra que? Pra entrar em uma onda de internet, inclusive como a gente chama hoje de lacração”, disse a advogada, especialista em direito público.
O caso anterior ocorrido no estado levou inclusive à perda de mandato. Vereador por Londrina, Boca Aberta invadiu uma unidade de saúde em 2017 e foi condenado na Justiça por perturbação da ordem e do sossego. Perdeu o mandato de vereador e depois, eleito deputado federal, acabou tendo o registro cassado pelo mesmo fato.
No Rio de Janeiro, o ex-vereador Gabriel Monteiro também foi condenado judicialmente por um ato parecido, com o agravante de que a invasão ocorreu durante a pandemia, em 2021. Na Bahia, há registro de que um deputado estadual do PL, barrado no seu ímpeto de fiscalização, pulou o muro de um hospital para conseguir entrar.