Escrevo estas breves linhas para lembrar dos 40 anos do início de nossa amizade e parceria profissional. Meus ossos me avisaram de quanto tempo isso significa! Mas minha memória também continua afiada e lembra exatamente do dia em que fomos apresentados.
Eu, 21 anos e já há três anos dando aulas nos supletivos dos bairros pobres da Cidade Sorriso - deixei a barba crescer porque era mais novo do que a maioria dos meus alunos - ia fazer um teste para tentar entrar no Ensino Médio em um dos colégios particulares mais badalados, com mais de 2.000 alunos habitando um prédio novinho e cheio de comodidades, bem diferente dos ambientes que eu frequentava, as salas mal arejadas, com iluminação insuficiente e tendo, em uma delas, de segurar o quadro enquanto escrevia para que ele não caísse em cima de mim.
Ou seja, eu estava a um passo de um salto evolutivo na minha precoce carreira, ainda estudante, com o curso incompleto e já sonhando em ser conhecido pela alcunha mágica de “professor”.
Quem me indicou foi um amigo comum, professor de matemática e meu colega em um dos supletivos. Disse-me: tem uma vaga de professor e acho que você deveria tentar. E eu, procurando controlar meu entusiasmo: "E como faço para me apresentar?" Ele me ajudou com isso e então, caro amigo Mocellin, lá fui eu para ser avaliado por você.
Na véspera, esse amigo me ligou e perguntou o que eu havia preparado. E eu disse: império romano. Ele então, com voz alterada, retrucou: "Não, você é louco? O professor Mocellin sabe tudo sobre História Antiga. Ele vai trucidar você com perguntas sobre como eles se vestiam, qual o valor da moeda deles, quem estava em tal lugar em qual ano, e coisas do gênero. Você sabe responder a essas perguntas?" "Lógico que não", disse eu. Imagina, eu ainda estava no estágio de estudar de tarde para ensinar de noite, enquanto a faculdade discutia teorias e autores que meus alunos nunca veriam. "O que eu faço?", perguntei para ele. Bom, disse-me meu sábio amigo: "O professor Mocellin é brizolista. Fala alguma coisa sobre o Brizola, faz uns elogios, que a chance aumenta".
No dia seguinte, lá estava eu, de camisa vermelha (pensei no lenço vermelho), tremendo feito o moleque que eu era, pronto para a apresentação. Você estava no fundo da sala, ao lado de alguém que eu obviamente não conhecia. Aliás, eu também não conhecia você, mas intuí pelo seu jeito atento quando foi a minha vez de subir no tablado. Comecei dizendo: "Escolhi como tema da minha aula a Revolução de 64". Fiz uma pausa e emendei: "Que na verdade foi um golpe perpetrado pelas forças do imperialismo norte americano em conluio com os empresários e forças armada".
Não esqueço (ou imagino, depois desse tempo todo) o sorriso que você deu e o comentário que você fez com o sujeito ao lado (era o diretor da escola). Depois, você se aproximou, apresentou-se e disse: "Você passou".
Nossa história comum começava naquele dia.
Fiquei com as turmas do primeiro ano, lembra? História da República brasileira. Que oportunidade poder contar, com calma, a História desse período para aqueles meninos de 15, 16 anos, naquele momento tão importante do nosso país.
Que ano foi aquele, meu caro amigo! A eleição de Tancredo, depois da frustração com a derrota da emenda das Diretas Já, era o prêmio de consolação que aceitamos e comemoramos. Afinal, tratava-se da volta de um governo civil após 21 anos da ditadura e da incompetência militar. Mas nada seria fácil, como nada foi fácil ao longo desses 40 anos, não é, caro amigo?
Vieram a doença e a morte de Tancredo, e veio o longuíssimo governo de Sarney. Mas isso é assunto pra outra carta. Termino esse breve relato com outra lembrança, sobre o anúncio da morte de Tancredo. Era um domingo, eu estava na casa da minha namorada, todos tristes, sem vontade de falar nada. Saí de lá e fui para a pensão onde eu morava, sozinho, na Vicente Machado. Ao lado, três rapazes dividiam um quarto e tinham uma televisão. Passei a noite ouvindo a programação necrológica do presidente, os depoimentos, o histórico, as diversas passagens do velho político pelo poder.
Na segunda cedo, fui para o colégio, mas as aulas haviam sido suspensas. Fui então, com a minha moto 125 cilindradas, para a casa de meus pais, lá no bairro do Atuba. Minha mãe estava na cama ainda. Deitei no seu colo e chorei. Foi a última vez que fiz isso. Havia entrado definitivamente na vida adulta, meu querido amigo.
Um abraço,
Daniel Medeiros