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SUS passa a oferecer implante subdérmico como anticoncepcional

Com validade de três anos, método está disponível nas UBS das cidades com mais de 100 mil habitantes

SUS passa a oferecer implante subdérmico como anticoncepcional
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Mulheres e homens trans na faixa etária dos 14 aos 49 anos já podem contar gratuitamente com um método anticoncepcional até então disponível apenas na rede particular, por um custo de ao menos R$ 1.500. O Ministério da Saúde enviou aos municípios com mais de 100 mil habitantes os primeiros kits do implante subdérmico liberador de etonogestrel.

Implantado no braço por meio de um aplicador semelhante a uma seringa, o pequeno bastão de 4 centímetros de comprimento e 2 milímetros de espessura oferece mais de 99% de eficácia contra a gravidez indesejada pelo prazo mínimo de três anos. Ele pode ser aplicado e retirado pelos próprios enfermeiros das Unidades Básicas de Saúde (UBS), sem necessidade obrigatória de consulta médica prévia. O procedimento utiliza anestesia local.

O médico Denis Hiláriio indica local do braço onde o implante deve ser realizado - Foto: Nelson Bortolin

Neste momento, as secretarias de saúde do Paraná estão realizando treinamentos dos profissionais que farão a aplicação do Implanon NXT, nome comercial do produto. Na última quarta-feira (25), a reportagem acompanhou uma capacitação de profissionais de saúde de Londrina, realizada no auditório da Pontifícia Universidade Católica (PUC).

O médico Denis Campana Hilário, pós-graduado em sexologia clínica e atuante na UBS Campos Verdes, explica que o implante é um método simples do ponto de vista técnico, mas que exige orientação adequada às usuárias. “É um bastãozinho que parece quase um tubinho de pirulito. Fica logo abaixo da pele, numa camada superficial do braço. Não é uma aplicação profunda”, detalha.

Segundo ele, a bula aprovada pela Anvisa garante proteção por até três anos. “Existem estudos internacionais que falam em até cinco anos de eficácia, mas aqui no Brasil seguimos o que está na bula: três anos.” A eficácia é superior a 99%. “É um dos métodos mais seguros que a gente tem disponível hoje.”

Benefícios além da contracepção

Hilário destaca que o implante não serve apenas para evitar gravidez. “A gente usa também para tratar a dismenorreia, que é a cólica menstrual. Quase 80% das pessoas relatam que a dor desaparece completamente.”

O principal efeito adverso, segundo o médico, é a alteração no padrão menstrual. O implante pode provocar aumento ou irregularidade do sangramento nos primeiros seis meses. Após esse período, 78% das pessoas apresentam melhora no padrão menstrual ou até mesmo amenorreia — ausência de menstruação.

Ele reforça que o método não é abortivo. “O etonogestrel não é abortivo e também não é teratogênico (ou seja, não causa alterações no feto). Se a pessoa engravidar usando o implante, basta retirar. Não há necessidade de exames complementares.”

Outros efeitos, como dor de cabeça, acne leve e retenção de líquido, podem ocorrer, mas são menos frequentes. “Cerca de 6% relatam sintomas como cefaleia ou retenção. Acne pode acontecer em torno de 11% dos casos.”

Quem pode usar

O implante pode ser inserido a qualquer momento do ciclo, desde que não haja gravidez em curso. “A gente pode iniciar dos 14 aos 49 anos, desde que tenha certeza de que não há gestação. Às vezes basta um teste rápido de gravidez.”

Sobre adolescentes, ele é categórico: “Não precisa de autorização dos pais. Isso é garantido eticamente. O sigilo só é quebrado se houver risco à integridade física ou psicológica da adolescente.”

Durante a amamentação, o método também é permitido. “Após quatro semanas do parto, em amamentação exclusiva, pode inserir com segurança.”

De acordo com o médico, a aplicação é rápida e feita com anestesia local. “É um procedimento pequeno. A gente coloca no braço não dominante, faz a anestesia em trajeto e insere paralelamente à pele. Depois pede para a paciente palpar, para ter certeza de que está no lugar correto.”

Após a inserção, recomenda-se manter o curativo por 24 horas e evitar impacto no braço no primeiro dia. “Se não estiver nos primeiros sete dias do ciclo menstrual, é importante usar preservativo por sete dias.”

A retirada também é simples. “Pode retirar a qualquer momento, se a pessoa quiser. Depois de três anos, precisa trocar para manter a eficácia. Na maioria das vezes, nem precisa dar ponto.”

O retorno da fertilidade é rápido. “Em duas ou três semanas após a retirada, o eixo hormonal já volta a funcionar.”

Capacitação de trabalhadores da saúde na PUC-PR Campus Londrina - Foto: Nelson Bortolin

Londrina já fez os primeiros implantes

A enfermeira e coordenadora de Saúde da Mulher na Atenção Primária de Londrina, Priscila Alexandra Colmiran, afirma que o município já iniciou a implantação do novo método na rede. “De início, Londrina recebeu 1.500 implantes. A mulher que desejar pode procurar a sua unidade básica de saúde, qualquer UBS”, explica.

Segundo ela, nem todas as equipes estão habilitadas neste primeiro momento, mas isso será resolvido em breve. “Se a equipe da UBS ainda não estiver treinada para fazer o procedimento, essa mulher será encaminhada para uma unidade onde já tenha profissional capacitado. A previsão é que toda a rede esteja treinada em cerca de 45 dias.”

Consulta pode ser feita com enfermeira

Um dos pontos destacados pela enfermeira é que o acesso não depende, necessariamente, de consulta médica. “A consulta é feita com a enfermeira ou o enfermeiro da UBS. Não precisa passar pelo médico. Se, durante a avaliação, aparecer algum fator de risco ou alguma condição específica, aí sim a gente agenda consulta médica.”

Ela reforça que o próprio profissional de enfermagem pode realizar tanto a inserção quanto a retirada do implante. “É um procedimento que faz parte das atribuições da enfermagem na atenção primária.”

Assim como explicou Hilário, a coordenadora reforça que município seguirá o prazo oficial de três anos como validade do implante. “Vamos trabalhar com o prazo determinado pela Anvisa. Se houver mudança de entendimento nesse período, pode ser que seja estendido para até cinco anos.”

Kit Implanon no MInistério da Saúde - Foto: Ministério da Saúde

Critérios de prioridade

Embora todas tenham direito ao método, a Secretaria Municipal de Saúde adotará critérios de priorização. “Todas as mulheres têm direito, sim. Mas a gente trabalha com classificação de risco. Existem situações em que eu preciso priorizar essa mulher”, afirma.

Entre os casos prioritários estão mulheres com condições de saúde que contraindicam uma gestação. “Se ela tem uma doença que torna a gravidez um risco à vida, eu preciso priorizar. Também há mulheres que têm contraindicação absoluta a outros métodos contraceptivos por questões de saúde.”

A vulnerabilidade social também entra na análise. “A gente avalia o contexto do território da unidade, as condições sociais. Existem fatores que vão fazer com que essa mulher seja elencada como prioritária.”

Adolescente pode procurar a UBS sozinha

A coordenadora esclarece que adolescentes podem procurar a unidade de saúde e optar pelo implante sem autorização dos pais. “Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, ela tem esse direito. Pode passar por consulta sozinha.”

Ela ressalta, no entanto, que o atendimento exige abordagem cuidadosa. “A gente precisa avaliar em que situação essa adolescente está se expondo. Não é só a questão da gravidez não planejada, mas também das infecções sexualmente transmissíveis. Então a abordagem precisa ser diferenciada.”

O sigilo é garantido.

Nelson Bortolin

Nelson Bortolin

Jornalista, um dos fundadores da Rede Lume de Jornalismo, de Londrina

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