Todos os sábados, consumidoras e consumidores de Londrina passam pela Escola Oficina Pestalozzi, na Rua Guararapes, para retirar verduras, legumes e outros alimentos produzidos por mulheres do Assentamento Eli Vive. O grupo, formado por 12 agricultoras, integra o coletivo Sacolas Camponesas, iniciativa que surgiu como projeto de extensão da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e se transformou em uma importante fonte de renda para as famílias envolvidas.
A história começou em 2017, quando produtoras do assentamento enfrentavam dificuldades para comercializar os alimentos cultivados em suas propriedades. Com apoio da UEL, foi criado um sistema de encomendas e entregas de cestas de produtos hortifrutigranjeiros. “Como a gente mora no sítio, não tinha como vender o produto. A UEL entrou com essa contrapartida de um projeto de extensão e começamos a entregar as sacolas em Londrina”, relembra Ivanete Galvão Adam Santos, integrante do coletivo.
Mesmo após o encerramento do projeto universitário, as agricultoras decidiram manter a iniciativa. Com recursos próprios, compraram uma Kombi para transportar a produção até a cidade. Mais tarde, conseguiram substituir o veículo por um caminhão, adquirido com apoio de uma emenda parlamentar e da Prefeitura de Londrina.

Atualmente, as encomendas são feitas pelo Instagram durante a semana e entregues aos sábados. Além das sacolas, o grupo participa de feiras na UEL e em outros espaços da cidade. A combinação entre as diferentes formas de comercialização ajuda a equilibrar a renda ao longo do ano.
Segundo Ivanete, o projeto nasceu para oferecer uma alternativa de renda às mulheres do assentamento, que muitas vezes precisam conciliar o trabalho agrícola com os cuidados da casa e dos filhos. “Com a horta ela consegue cuidar dos filhos, cuidar de tudo e ainda produzir no quintal de casa e ter um dinheirinho mensal. Hoje a gente já consegue tirar uma renda boa todo mês das verduras que entrega”, afirma.
A renda média obtida por cada participante varia entre R$ 800 e R$ 1,2 mil por mês, já descontados os custos de operação da associação, como transporte, contador, embalagens e taxas bancárias. Para algumas famílias, a atividade deixou de ser apenas um complemento e passou a representar a principal fonte de sustento.
Hoje, o grupo comercializa cerca de 35 a 40 sacolas por semana, número abaixo do registrado em períodos mais favoráveis, quando as entregas chegaram a ultrapassar 100 unidades semanais. A redução recente está relacionada principalmente aos efeitos das chuvas sobre a produção.
Produção sem agrotóxicos
Embora apenas duas agricultoras possuam certificação orgânica, Ivanete afirma que todas as integrantes cultivam seus produtos sem o uso de agrotóxicos ou adubos químicos. “O orgânico exige certificação. Se eu falar que é orgânico sem ter selo, não posso. Mas nós continuamos produzindo sem usar adubo químico nem defensivos. A limpeza é tudo com enxada ou na mão”, explica.
Para controlar pragas e doenças, as produtoras utilizam alternativas permitidas na agricultura orgânica, como esterco animal, urina de vaca, óleo de neem e calda bordalesa. Segundo ela, o manejo exige acompanhamento constante, mas pode ser até mais econômico do que a agricultura convencional, devido ao alto custo dos defensivos agrícolas. “O valor maior é você estar comendo uma coisa que sabe que não tem agrotóxico”, resume.

Busca pela certificação
O grupo também trabalha para ampliar o número de produtoras certificadas. Atualmente, duas agricultoras possuem certificação e outras estão em processo de adequação, com acompanhamento técnico. Uma das principais dificuldades, segundo Ivanete, não está na produção em si, mas na burocracia exigida para comprovar as práticas adotadas. O preenchimento do chamado caderno de campo, com registros detalhados das atividades realizadas na propriedade, é um dos desafios enfrentados pelas famílias.
Com apoio técnico do Tecpar e de projetos de assistência rural, a expectativa é que mais duas produtoras obtenham a certificação até o final do ano. Enquanto isso, as Sacolas Camponesas seguem como uma ponte entre o campo e a cidade, garantindo mercado para a produção das agricultoras do Eli Vive e oferecendo alimentos cultivados sem agrotóxicos aos consumidores londrinenses.
Cliente fidelizado
Entre os clientes fiéis das Sacolas Camponesas estão o casal Pedro Mestre Passini e Tamires Ruiz Duarte. Desde a pandemia da Covid-19, eles mantêm o hábito de ir aos sábados até a Escola Oficina Pestalozzi para buscar os produtos vindos do Assentamento Eli Vive. Para Pedro, a principal motivação é a confiança na qualidade dos alimentos. “É a nossa saúde né? Com as Sacolas Camponesas, a gente tem a certeza de não estarmos comendo veneno. E tem também toda uma questão política de apoiarmos o movimento deles, o assentamento”, afirma.
Tamires destaca a praticidade do sistema de encomendas e a segurança em relação à origem dos produtos. “Eu me sinto mais segura, mais saudável comprando delas. Além do que é muito prático. Os produtos já vêm todos separados. É só pegar a sacola, pagar e ir para casa”, relata.
