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Jamil Chade e Ruth Manus conversam com adolescentes da socioeducação do PR

Encontro fechou o Clube da Leitura de 2025 pautando temas como desigualdade, racismo e violência urbana

Jamil Chade e Ruth Manus conversam com adolescentes da socioeducação do PR

Na tela do computador, um adolescente mostra um cartaz contendo a representação do planeta Terra abaixo da frase “De um mundo caótico para um mundo melhor”. A frase faz referência ao livro “10 histórias para tentar entender um mundo caótico”, escrito pelo jornalista Jamil Chade e a advogada e professora Ruth Manus. Ontem (18), os autores se reuniram com adolescentes internos nos Centros de Socioeducação (Cense) do Paraná para falar sobre a obra.

O encontro encerrou as atividades do Clube da Leitura dos Cense em 2025. O projeto, fundado em Londrina em 2019, se estendeu para todo o Estado e já promoveu … encontros com autores. No início de dezembro, recebeu o Prêmio Luiz Gama e Esperança Garcia de Direitos Humanos.

A reportagem acompanhou com exclusividade o encontro virtual desta quinta-feira. Estavam presentes, por meio de chamada de vídeo, adolescentes dos Centros de Socioeducação de Londrina, Foz do Iguaçu, Curitiba, São José dos Pinhais, Campo Mourão, Paranavaí, Santo Antônio da Platina, Laranjeiras do Sul, Piraquara, Fazenda Rio Grande e da Cadeia Pública Feminina de Londrina, única unidade do sistema penal a integrar o Clube.

Os escritores durante o encontro. Reprodução: Cecília França

Para o jornalista Jamil Chade, o encontro foi o mais valioso proporcionado pelo livro, finalista do Prêmio Jabuti em 2021. “É um presente saber que o livro chegou até vocês, que vocês leram, comentaram. No meu caso, é a sessão de debate sobre o livro mais emocionante que eu já tive”.

Ruth Manus avalia que, ao chegar aos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa, o livro “chegou no lugar mais importante que poderia chegar”. “Saber que esse livro chegou pra vocês, que impactou vocês de alguma forma, me dá uma sensação de missão cumprida”.

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Pra entender o mundo

Editado no formato de diálogo entre os autores, o livro reúne histórias reais vivenciadas por eles em países diversos e propõe debates sobre intolerância, preconceito, racismo, desigualdade, violência urbana. Os adolescentes fizeram perguntas sobre o processo de criação do livro, sobre as viagens dos autores e um deles quis saber: Vocês entenderam o mundo caótico com as histórias que vocês contaram?

“Não entendi não”, confessou Ruth Manus. “Às vezes, quando você entra no mar acha que está tudo sob controle, mas vem uma onda e te derruba. Acho que é assim que a gente se sente desde que escreveu esse livro. A gente pode fazer muitas boas perguntas, mas nunca vai ter uma resposta só. Tudo que a gente queria era que as pessoas olhassem para o mundo de um jeito mais crítico e chegasse às proprias respostas”.

“Não há resposta simples para questões complexas”, acrescentou Jamil Chade. “Essas questões exigem, na maioria das vezes, respostas completas, longas, políticas públicas que não vão ter resultado amanhã, mas daqui a dez anos. Então exige planejamento”.

Clube da Leitura nasceu no Cense 2 de Londrina durante a pandemia

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Desigualdade

O encontro pautou temas essenciais na vida dos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa. A professora Stela Maris repassou perguntas formuladas por adolescentes que já haviam deixado a unidade, relacionadas a desigualdade e violência: O que a desigualdade revela sobre a periferia e o que histórias reais como as que vocês trouxeram podem ensinar para jovens nas periferias do Paraná, como nós? A felicidade pode ser uma política de Estado?

“Não dá para falar em felicidade, muito menos em política de Estado, se a gente não falar em desigualdade. Sabe aqueles papos de meritocracia, de todo mundo ter as mesmas chances? É tudo mentira. As pessoas não saem dos mesmos lugares”, iniciou Ruth Manus. “Mas acho que estamos num momento positivo no Brasil, porque a questão do privilégio tem sido muito debatida”. 

Jamil Chade completou: “Acredito que a desigualdade é o maior crime que existe na estrutura político social do Brasil, porque ela é legalizada, é considerada ‘coisa da vida’ ou a balela da meritocracia”. O jornalista, que já visitou 70 países, pontuou que não se trata de um problema exclusivamente nacional, e trouxe o dado assustador de que 0,0001% da população mundial, cerca de 60 mil pessoas, detém mais da metade da riqueza do planeta.

“Não dá para achar que isso vai funcionar”, concluiu. Mas também mostrou avanços: “Nosso momento é muito ruim, muito triste, mas vamos colocar na linha histórica. Em 1900, de cada dez pessoas no mundo, sete eram analfabetas; em 2015, de cada dez, só duas são analfabetas. Em 1900, a expectativa de vida era de 37 anos de idade; em 2015 era de 71 anos de idade. O que mudou? Houve uma expansão de direitos”.

O Brasil deu certo

No contexto da fala sobre a desigualdade brasileira, Jamil Chade comenta a máxima de que “o Brasil deu errado”, utilizada para nos referirmos aos nossos problemas estruturais. “O projeto do Brasil era de exploração e ele deu muito certo. Para os objetivos que foi criado, deu certo. Nosso objetivo é fazer com que esse projeto dê errado”.

O jornalista acrescenta que o projeto de desigualdade é mantido não só pelos políticos, mas pela elite da sociedade. “O que vemos é reflexo de um pacto do poder, de manutenção dos privilégios. Essa é uma realidade absoluta e não há como negar. É só sair pelas ruas e isso é a nossa realidade; reconhecer já é um passo muito grande para lidar com ela”.

Após a pergunta de um adolescente sobre a história contada no livro vivenciada na África do Sul, Jamil explicou sobre o período do apartheid e correlacionou com o Brasil. 

“Quando a escravidão terminou no Brasil quem foi recompensado? Quem ganhou dinheiro foram os donos das pessoas escravizadas, porque ficaram sem os trabalhadores. Olha que loucura o nosso país! O Estado pagou para os donos das fazendas pedindo desculpas. Um país que tem um capítulo como esse é um país extremamente desigual e não tenho problema em dizer que vivemos também numa espécie de aparthdeid social”, concluiu. 

Impacto

Atualmente, o Clube da Leitura é financiado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), que adquire cerca de mil livros anualmente para todas as unidades do estado. Heiler Natali, Procurador do Trabalho em Londrina, participou do último encontro e destacou o diferencial da iniciativa.

“É surpreendente sob vários aspectos. Uma coisa é fazer um clubinho onde o livro é um ponto de chegada; aqui ele é o ponto de partida. Então esse é um espaço de diálogo diferenciado. Queremos dar visibilidade nacional, porque entendemos que não deve ser privilégio somente do Paraná”, afirma.

A assistente social Andressa Cândido, idealizadora do Clube da Leitura, explica que são promovidos quatro encontros por mês com autores reconhecidos nacionalmente. O Clube já recebeu nomes como Itamar Vieira Jr, Laurentino Gomes e Ailton Krenak. 

“Quisemos fazer algo dessa magnitude porque estamos acostumados com o resto. Quando a gente coloca os melhores livros, os melhores autores, a gente fica bom também. O Clubinho nasceu para ser o melhor para os nossos meninos e meninas”, afirma.

A titular da 3ª Promotoria de Justiça do Adolescente em Conflito com Lei de Curitiba, Danielle Cristine Tuoto, também participou do encontro e destacou os impactos positivos do projeto na vida dos adolescentes.

“Nossa luta tem que ser para que eles não conheçam o sistema, mas a partir do momento que precisem conhecer, que seja uma única vez, que sejam acolhidos, para que eles voltem à sociedade prontos para não cometer nada que os leve de novo”. Para ela, o Clube da Leitura é uma dessas ferramentas.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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